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Sentar-se à sombra em um belo dia e olhar para o campo é o descanso perfeito. (Jane Austen)

A força de Lizzy - Capítulo XII

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Capítulo 12

Ivan recebeu o prontuário da próxima paciente e se surpreendeu ao ler o nome: Lídia Bennet. Motivo da consulta: caiu de uma árvore – suspeita de fratura no tornozelo. E o pior de tudo: reconheceu a caligrafia. A letra caprichada de Lizzy não mudara muito em dez anos. A irmã de Lizzy era sua próxima paciente, e como se não bastasse: Lizzy seria sua acompanhante.

Respirou tudo, tentando se acalmar. Sabia que esse encontro ocorreria mais cedo ou mais tarde, só que não se sentia preparado para revê-la. Que Deus lhe desse forças, ele concluiu ao se dirigir à sala onde elas o aguardavam. Ajeitou o seu jaleco, alisando as pequenas dobras e deixando-o perfeitamente alinhado. Também deu uma olhada em frente do espelho, passando a mão sobre os fios rebeldes. Colocou uma água no rosto e borrifou um leve perfume. Mesmo assim, não se sentiu pronto para o encontro. Estava nervoso, inclusive suas mãos tremiam um pouco.

Desde que Lizzy se aproximara novamente de sua família, mesmo tendo ido apenas uma vez à sua casa em um churrasco há quase um mês, ela era tema rotineiro das conversações. Sua mãe e Georgi faziam questão de ressaltar o quanto ela estava bonita, o quanto ela era simpática, o quanto era uma profissional competente. Desfilavam em sua frente com as roupas de Lizzy, dizendo: “Olha que lindo Ivan, foi Lizzy quem fez.” Ou seja: não permitiam que ele a esquecesse, como se isso fosse possível...

Ivan lembrou-se de quando chegou em casa naquele mesmo domingo do churrasco. Estranhamente, ao entrar o seu quarto, sentiu a presença de Lizzy. Percebeu o porta-retratos com sua fotografia fora do lugar. Tenso, logo imaginou ela vendo aquele retrato e com ansiedade, questionou sua mãe.

- Sim, ela esteve aqui. – posta contra a parede, ela acabou confessando. – Ficou mais de meia hora em teu quarto, Ivan, e depois pareceu tão triste... Acredito, filho, que ela ainda gosta de você.

Intrigado, Ivan começou a cogitar a hipótese de procurá-la. Hipótese que se tornava mais forte e palpável a cada dia. Uma idéia que o atormentava diariamente. E quando estava decidido a ir atrás de Lizzy na tarde seguinte, no meio do jantar Georgiana largou a bomba, a notícia que para ele funcionou como um banho de água fria:

- O Charles, noivo de Lizzy, está vindo nessa semana para passar o Natal. – comentou como não quer nada e depois acrescentou, como se não fosse nada de mais: - Pode me passar o queijo, Ivan?

Ele não ouviu. Não prestava atenção. A sua Lizzy casaria com outro e estaria longe de seu alcance para sempre. Por isso evitava encontrá-la, pois sabia que após revê-la seria insuportável continuar vivendo sem ela.

– Ivan! O queijo, por favor! – e ele sacudiu a cabeça, voltando à realidade.

E há dois dias, havia se reencontrado pela primeira vez em anos com seu primo, num jantar promovido por sua mãe. Só os três. A volta de Lizzy o fez reconsiderar seu passado e rever seus erros. Não podia viver tanto tempo apegado ao passado. Não podia remoer por tanto tempo algo feito há mais de dez anos. Além disso – esse era o principal motivo, mesmo não querendo admitir nem para si próprio – sabia que Lizzy não devia ter gostado nem um pouco quando soube que ele ainda matinha as relações cortadas com Richard. E mesmo que eles não estivessem mais juntos, Ivan sabia que Lizzy ficaria feliz por saber que os laços haviam sido reatados.

O gelo e o acanhamento inicial do reencontro foi logo quebrado após meia garrafa de vinho tinto. No final do jantar, Ivan e Richard já riam e tagarelavam, competindo para ver quem contaria mais novidades. E havia muito a ser contado ao longo de dez anos! Suzana deixou os dois a sós.

- Você tem que conhecer a Cíntia, Ivan! Ela é ótima, e está trabalhando pela primeira vez. Organizou um desfile e foi um sucesso. Ah, e você tem que ver o Lipe, ele já fala um monte e tudo certinho. Está até tentando ensinar o Rui a falar... e ontem fomos jantar na casa da mãe da Cíntia e ele me saiu com essa: “muito boa essa pizza, vovô. Obrigado por ter me convidado para jantar.”

- Ah.... Mas na aula de anatomia do primeiro ano um professor esfregou um dedo no intestino de um cadáver e o levou à sua boca e desafiou os alunos a fazerem o mesmo. E um dos meus colegas fez – Ivan não reprimiu uma careta de nojo – E então o professor saiu com essa: um bom médico tem que ser também um bom observador. Se vocês tivessem percebido, teriam visto que eu coloquei esse dedo no cadáver e levei esse à boca. Há há há.

- Ei! Lembra Ivan de quando a gente era criança e o teu pai nos levou para pescar? Você não pegava nada, mas daí quando conseguiu pegar um único peixe, ele foi o maior de todos?

E no final da janta, já eram os melhores amigos. Despediram-se com um longo abraço.

- Semana que vem jantaremos nós quarto: eu, a Cíntia  e a tua namorada.

- Combinado!

Naquela noite, Ivan se sentia mais leve e feliz. Havia feito as pazes com uma parte de seu passado e agora seguia a passos firmes para fazer o mesmo com a parte faltante. Talvez, a parte mais importante.

Respirou fundo, e então abriu a porta, girando o trinco com firmeza. Ao entrar, reparou em dois rostos fixos nele. Dois pares de olhos amendoados arregalados. Lizzy lhe sorria. Lídia visivelmente sentia dor e estava mais assustada do que curiosa.

- Tudo bem? – ele esticou a mão à Lizzy que estranhamente lhe estendeu a mão esquerda. Era impressão de Ivan ou Lizzy escondia o braço direito em suas costas? Ivan piscou longamente, ela estava tão bela que seria difícil se concentrar em sua pequena paciente. Lídia, por sua vez, era uma cópia em miniatura da irmã.

- Você deve ser a Lídia. - Ela balançou a cabeça timidamente.

Ivan orientou Lizzy a colocar a irmã sobre o sofá preto alto, para que ele a examinasse.

- Como foi que ela caiu? – girou o rosto para Lizzy, enquanto examinava de leve o tornozelo inchado de Lídia.

- Eu não sei. Não estava lá.

- Então? Como foi que aconteceu? – refez a pergunta à Lídia.

- Eu estava numa árvore e o Marcos me desafiou, duvidando que eu conseguisse subir mais alto do que ele – mordeu os lábios, temendo a reprimenda da irmã.

- E quem venceu o desafio?

Lídia abriu bem os olhos, sentindo um orgulho visível. Ivan lembrou-se que Lizzy costumava fazer a mesma expressão. Com o canto dos olhos, a analisou. Ela estava impassível e ele não conseguiu decifrar o que ela pensava. Resolveu se concentrar em Lídia. Por enquanto.

- Eu! Eu cheguei mais alto, só que na hora de descer meu pé escorregou e eu caí.

- Dói aqui?

- Sim.

- E aqui?

- Sim.

- Olha – ele afirmou gentil – Eu acredito que não está quebrado, que é só uma torção, mas teremos que fazer uma radiografia para termos certeza, está bem?

- Hum rum. – Lídia sorriu para ele, mais à vontade agora. Então, reparou em suas mão, que ainda a examinavam. – Você não usa aliança. – ela constatou.

Lizzy se mexeu com desconforto, mas foi incapaz de falar. Ao invés de impedir a irmã, apenas escondeu mais os braços em suas costas.

- Não, eu não sou noivo. – ele explicou.

- Mas a Lizzy usa. – Lídia retrucou.

Lizzy cerrou os dentes, tensa, mas não reagiu.

- Sim, ela é noiva. – Ivan começou a ficar desconfortável também, mas tentou não demonstrar - Do Charles.

- Não – Lídia retrucou – Ela é a tua noiva.

- Lídia! – ela recriminou a irmã, quase em desespero.

- Mas é verdade, Lizzy. – ela olhou para a irmã e então voltou sua atenção para Ivan que permanecia estático, aguardando uma explicação – Os jornalistas viram a aliança dela, e acharam que ela era noiva do Charles. Mas ela é tua noiva. Ela usa essa aliança desde que eu nasci.

Lídia, de olhos arregalados, ficou analisando atentamente Ivan. Os músculos faciais de Lizzy estavam rígidos, seus lábios entreabertos em choque, as pupilas dilatadas. Apesar de tudo, também olhou para Ivan para observar sua reação. Passou a mão atrás da orelha, prendendo um fio solto na tiara para arranjar o que fazer.

Ivan sentiu dois pares de olhos fixos em seu rosto e mesmo coagido, tudo que pôde sentir foi um imenso alívio. Alívio logo substituído por felicidade.  Lizzy não estava noiva! Não pode deixar de sorrir. Um sorriso mais contido, com apenas um dos cantos dos lábios. Discretamente, encarou Lizzy e ela percebeu o sorriso. Tímida com a situação, sorriu da mesma maneira contida, piscou longamente e logo baixou o rosto. Corando, Lizzy sentiu suas bochechas queimando em brasa.

- Só um momento, eu já volto. – Ivan saiu da sala, deixando-as a sós.

- Lídia, você não podia ter dito isso! – Lizzy recriminou a irmã em voz baixa. Estava zangada.

- Desculpa... – ela murmurou, apertando os olhinhos ainda com dor.

- Tudo bem – ela sentou ao lado da irmã e colocou o braço em seu ombro, abraçando-a – Agora não é hora, você está machucada e eu cuidarei de você. Mas depois... – deixou a ameaça no ar.

- Tá bom... – Lídia, arrependida, afundou a cabeça no peito da irmã, que aproveitou para acariciar seus cabelos.

Ivan saiu da sala sentindo-se meio entorpecido. Esquecendo por alguns segundos o que deveria fazer, vagou pelos corredores feito uma barata tonta. Enfim se recompôs, e tomou seu rumo.

- Marília, você pode me fazer um favor? – era uma das funcionárias mais próximas, uma de suas únicas amigas.

- Claro, Dr. Ivan. – simpática, a loira baixinha sorriu para ele.

- Você pode levar uma paciente para fazer uma radiográfica? – Marília o encarou com curiosidade, e ele se obrigou a explicar – É que eu preciso conversar a sós com a irmã dela. Ela foi minha noiva há muitos anos, e pelo visto ainda é... – ele afirmou sem jeito.

- Ah...  – boquiaberta, ela tentou não demonstrar seu assombro. – E a Glória? – tinha intimidade suficiente para perguntar. Ivan era o seu confidente, ainda que ele fosse mais ouvinte do que falante. Para ela era novidade que ele tivesse uma noiva perdida, mas não chegava a ser uma surpresa. Marília sempre desconfiou que aquela sua aparente melancolia tivesse um bom motivo.

Ivan passou as mãos pelos cabelos negros, meio perdido.

- Não sei.

- E essa noiva? Há quantos anos você não a via? – curiosa, indagou enquanto se dirigiam à sala.

- Dez anos.

- Dez anos! Nossa! E como ela está? Dez anos é muito tempo, ela deve ter mudado muito!

- Para falar a verdade, não mudou quase nada e está ainda mais bonita.

- Ah! – automaticamente, encarou-o com perplexidade, mas não teve tempo de falar nada, pois Ivan já abria a porta e entrava na sala.

Ao vê-lo voltar, Lídia e Lizzy se afastaram, soltando o abraço.

Marília sorriu:

- Então? É essa menininha linda que eu tenho que levar para a sala de radiografia?

- Hum rum. – Ivan balançou a cabeça, mais aliviado.

- Você pode caminhar? – Marília questionou.

- Não. – Lídia respondeu

- Então espera que eu já volto – Marília alargou o sorriso, mantendo no rosto uma expressão animada. Saiu da sala e voltou rapidamente com uma cadeira de rodas – Pronta para passear pelo hospital sem o menor esforço? – propôs com entusiasmo.

- Não sei... – Lídia balbuciou insegura. – Vem comigo, Lizzy? – mas foi Ivan quem respondeu.

- Eu preciso conversar com ela, Lídia. Afinal... – ele se abaixou e cochichou em seu ouvido para só ela ouvir – ela é a minha noiva, não é?

- Ah! – Lídia sorriu para Ivan, satisfeita. Naquele momento, gostou ainda mais dele e, além disso, queria que a irmã fosse feliz – Tá bom. – Levantou-se com esforço e apoiou-se em um pé só. Pulando igual a um saci pererê (como ela fez questão de enfatizar) chegou até a cadeira. – O que é uma radiografia? – curiosa, questionou Marília.

- É parecido com uma fotografia em preto e branco, só que só aparecem os ossos.

- Tipo um esqueleto? – concluiu com esperteza.

- Isso. – Marília achou graça.

- E dói para fazer?

- Nadica de nada.

- Ah tá. – Lídia sorriu. Mais a vontade, deixou a sala tagarelando e enchendo Marília de perguntas, que respondia com paciência.

 

Ao se ver a sós com Lizzy, Ivan se aproximou e sentou-se ao seu lado. Por alguns segundos, ficaram se olhando sem saber o que falar. Havia tanto há ser dito, então por que as palavras sumiram? Com os olhos amendoados bem abertos, Lizzy encarava Ivan, esperando que ele dissesse algo. Só que ele apenas sorria e a contemplava. Ivan estava deslumbrado: ela estava tão linda! E o engraçado é que nunca a vira de tênis antes, ela estava sempre elegante e bem vestida, só que, ironicamente, nunca parecera tão bela como naquele momento. Ivan se ajeitou no sofá negro, de frente para ela, Lizzy fez o mesmo. Com seu movimento, uma mecha de sua franja se desprendeu da tiara de acrílico marrom caindo sobre a testa. Automaticamente, como se ainda tivesse o direito de fazer isso, Ivan estendeu a mão e a colocou atrás da orelha. Lizzy sorriu.

Aproveitando a proximidade, Ivan deslizou delicadamente a mão de trás da orelha, descendo pelo pescoço, pela clavícula, contornando o cotovelo, até chegar ao pulso de Lizzy. Era bom sentir novamente a textura da pele dela. Ele não tinha pressa. Nenhuma pressa. Extasiada pelo pequeno contato, Lizzy baixou os olhos, deixando-os semi-abertos, entorpecidos. Sua respiração tornou-se ofegante. Ivan enroscou seus dedos entre os delas e dessa maneira, suavemente, tirou o braço de Lizzy de trás das costas e o elevou quase à altura de seu rosto.

Controlando sua ansiedade, Ivan tirou o anel de ouro com uma pedra turquesa do dedo anular de Lizzy, expondo dessa forma a aliança dourada.

- Posso? – ele questionou amoroso, certificando se ela autorizaria a remoção da aliança.

- Hum rum.

Ivan tirou o anel do dedo de Lizzy e o analisou por dentro. Ao ler as letras grafadas, o seu nome e o ano de 1969, não pode deixar de sorrir. Um sorriso amplo e largo, que iluminou toda a sala. Como se fosse um imã, os olhos de Lizzy grudaram naquele sorriso e ela mordeu os lábios, ansiosa.

- Eu... – ela abriu a boca, mas Ivan tocou-lhe os lábios com o dedo indicador da mão livre, impedindo que ela falasse. Não queria falar nada naquele momento. Não precisava de palavras. Colocou-lhe o anel de volta e subiu a mão para o rosto de Lizzy. Uma mão de cada lado, apoiadas nas bochechas coradas de Lizzy. Chegou bem próximo a ela.

- Lizzy... – ele sussurrou com ternura – Eu quero muito te beijar. – a frase saiu feito uma súplica - Eu posso?

- Hum rum. – ela murmurou baixinho. Era tudo o que ela mais queria.

Ivan se controlou. Não queria assustá-la com a ansiedade que sentia. Além disso, estavam em seu ambiente de trabalho e se ele colocasse toda a sua vontade naquele beijo, poderia não ser mais capaz de parar. Dessa forma, uniu com suavidade seus lábios aos dela. Lizzy sentiu seu mundo girar. Era um beijo gentil, terno e carinhoso, mas extremamente bom.

- Lizzy! – ele desgrudou as bocas e a apertou em um abraço. Ela suspirou, alinhada em seus braços. Era tão bom se aconchegar naquele peito novamente – Você não faz idéia...

- Hmmm... – Não respondeu: mas fazia idéia sim!

Lizzy se afastou um pouco, e passou os dedos no bordado do jaleco. Dr. Ivan Darcy. Acho aquilo tão lindo. Franziu a testa, fascinada, e então ergueu o rosto e o encarou.

– Senti muito a tua falta, Ivan.

- Eu também. – aquela simples frase foi suficiente para encher o peito de Ivan com uma grande emoção e com uma alegria que ele há anos não sentia. Sem pensar em mais nada, tomou Lizzy novamente em seus braços e a beijou, dessa vez de forma menos contida.

Lizzy amoleceu nos braços de Ivan, como sempre acontecia quando ele a beijava daquela maneira. Como só acontecia com ele. Ela não era mais uma adolescente, mas se perdia do mesmo modo que costumava ocorrer quando tinha 17 anos. Ela daria tudo que ele quisesse, sem que ele precisasse pedir. Só que estavam no hospital e apesar de perceber o desejo evidente em cada gesto que ele fazia, em cada suspiro que ele dava, Ivan não ousou avançar. Apenas a beijou de forma cálida e a apertou em seus braços.

- Agora que eu te encontrei, Lizzy... – quando ele iria falar, batidas na porta os interromperam.

Ivan e Lizzy se afastaram e Marília retornou à sala com uma Lídia tagarela, contando com entusiasmo tudo que vira pelo caminho.

- Demoramos um pouco, Dr. Ivan, por que ficamos andando pelo hospital enquanto esperávamos pela radiografia.

- Ah sim. – ele disfarçou, mas não percebeu nenhuma demora. Quantos minutos haviam se passado? Ele não fazia idéia.

Ivan se virou de costas, examinando o exame no negatoscópio de parede.

- Bom – Ivan sorriu para as duas irmãs – não há fratura, mas temos que imobilizar esse pé. Você pode colocá-la de novo ali? – pediu a Lizzy, apontando para o sofá.

Marília pediu licença, deixando-os a sós.

Quando Ivan acabou de fazer o curativo, deu as recomendações e prescreveu os medicamentos adequados para dor, Marília já estava de volta, e como se adivinhasse que o casal precisava de mais um momento a sós, convidou Lídia para tomar um sorvete na cafeteria. Lizzy estava orgulhosa de Ivan. Como se fosse possível, amava-o ainda mais. Ele era um médico atencioso e competente. E maravilhoso. E lindo. E sexy. E gostoso. E...

- Em quinze minutos acaba o meu plantão. Vou para casa, tomo um banho rápido, e daí te pego para a gente conversar, está bem?

- Tá bom.

- Eu fiz as pazes com o Richard.

- Eu sei, a Cíntia  me contou. – ela sorriu - Ela é a minha melhor amiga agora, sabia? E eu fiquei muito feliz, Ivan.

- Eu sei. Sabia que você ficaria. Semana que vem nós jantaremos nós quarto, eu combinei com o Richard que sairia com ele.

Ela assentiu, balançando a cabeça com um brilho no olhar e um largo sorriso. Não conseguia parar de sorrir. Sentia-se tão feliz!

- Mas hoje à noite, seremos só nós dois. – ele chegou mais perto e a enlaçou pela cintura.

- Sim... – ela murmurou. Subiu o rosto e entreabriu os lábios, esperando por um beijo. Ficou nas pontas dos pés e enroscou seus braços no pescoço dele.

- Ivan! – a porta se abriu e uma loira de cabelos crespos os surpreendeu aos beijos.

- Glória? – Ivan levou à mão a testa. Havia esquecido completamente dela! Eles tinham combinado de sair após o plantão e ela chegava exatamente no horário marcado.

Sabendo de quem se tratava – a namorada de Ivan – Lizzy arregalou os olhos, espantada e nervosa. Droga! Rapidamente, ela deixou a sala, constrangida e envergonhada por ter sido pega naquela situação. O que ela estava fazendo? O Ivan não era mais dela! Ele agora pertencia à Glória. Ela era a namorada dele. Levemente desnorteada, correu até a cafeteria à procura de Lídia.

Hora de ir embora. Hora de enterrar seus sonhos. Ao entrarem no carro, Lizzy removeu a aliança sob o olhar surpreso de Lídia, ficando sem ela pela primeira vez após dez anos.

 

Glória cruzou os braços e ficou batendo o pé, esperando por uma explicação. Ivan permanecia parado no mesmo lugar de onde assistiu Lizzy sair correndo. Seu impulso inicial foi de segui-la, mas devia uma explicação à Glória. Só que era difícil... Por onde começar? Afinal de contas, ela foi sua companheira fiel e amorosa por dois longos anos... Ela lhe estendeu os braços e lhe deu amor sem esperar nada em troca. E ela sempre soube que ele não a amava, mas permanecia ao seu lado, esperançosa. Ivan baixou o rosto e franziu o lábio.

- Eu... – foi ela que começou a falar, quando percebeu que Ivan não o faria – Quem é ela?

- Lizzy.

Ela contraiu os músculos faciais numa careta de dor. Ela sempre soube que Lizzy voltaria, mas imaginou que quando esse dia chegasse Ivan já a amaria. E que se ele a amasse não se abalaria com o retorno da ex.

- Quando você a encontrou?

- Hoje.

- Mas você jurou que não queria vê-la!

- Eu não queria, Glória. Mas aconteceu... A irmã dela caiu de uma árvore e ela veio ao hospital. Foi uma coincidência.

- Coincidências não existem. – ela grunhiu.

- Então você acha que ela fez de propósito?

- Não. Não foi o que eu quis dizer.

- Então quis dizer o que?

Ela o encarou, perplexa. Os homens são burros e lentos ou só fingem que o são?

- Que era o teu destino encontrá-la, mais cedo ou mais tarde. – ela explicou sem paciência - E foi melhor que tenha sido agora. Quanto mais demorasse, Ivan, pior seria para mim.

- Ah... Faz sentido.

- E ela ainda te ama?

- Não sei. Mas ela ainda usa a minha aliança.

- Quê? – ela balançou a cabeça e se abanou com a mão direita, tentando assimilar. Inconscientemente, sempre se preparou para aquele momento, então por que parecia ser tudo pior do que na sua imaginação?

- A aliança que eu dei...

- Eu sei. Eu entendi. – irritada, ela ergueu o queixo a ele, ameaçadora. – Você tinha uma noiva, Ivan! O tempo todo que ficamos juntos você tinha uma noiva! – elevou o tom de voz.

- Mas eu não sabia que ela ainda era minha noiva.

- Quem você traiu? Eu ou ela? – ela o testou. Dependendo da resposta, ela saberia.

- Ãããã? – Ivan pensou, e concluiu confuso – Acho que ela. Ela veio primeiro.

- Argh! – ela resmungou. – Você ainda a ama!

- Hmmmm... – não pôde mentir. Se ainda tinha alguma dúvida a esse respeito, todas as dúvidas se esvaíram após ver Lizzy e após tomá-la em seus braços. E a alegria que sentiu ao saber da aliança dispensava qualquer explicação - Desculpa, Glória.

Ela fechou os olhos. Ele tentou se aproximar, ela barrou o contanto.

- Não torne isso mais difícil para mim do que já é.

- Está bem. – ele recuou.

- Não espere que sejamos amigos. Não espere sequer que eu fale com você da próxima vez que nos encontrarmos – eles tinham sido colegas na faculdade. Os dois eram médicos e certamente se veriam inúmeras vezes, pelo menos nos reencontros de turma que comparecessem.

- Tá bom. – sem alternativa, ele concordou.

- Você vai casar com ela?

- Er... – era o tipo de pergunta que ele não sabia como responder. Não gostaria de magoá-la ainda mais.

- A verdade, Ivan!

- Sim. Se ela me aceitar.

- Quando.

- Hmmm...

- A verdade!

- Logo. Ela me esperou por dez anos, Glória. Não deve mais esperar.

- Argh! – ela rosnou. Ivan sempre deixou claro que não pretendia casar! Sempre evitou falar no assunto e se esquivou de qualquer plano nesse sentido. – Você nunca me amou!

- Mas eu gostei muito de você. De verdade.

- Tchau, Ivan. – saiu bufando e bateu a porta.

Ivan devia se sentir triste, culpado ou minimamente melancólico por acabar um relacionamento daquela maneira. Mas, estranhamente, não sentia nada disso. Talvez fosse egoísta ou cafajeste, ele não sabia. E nem queria saber, para falar a verdade. Por que naquele momento, ele não se importava com mais nada, só ansiava por rever Lizzy.

Quando guardou o seu jaleco e pegou suas coisas, Lizzy dominava seus pensamentos, não deixando lugar para mais nada. Saiu do hospital suspirando e portando um sorriso bobo no rosto.

 

 

 

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