Citações

Quando lhe falta o que ambiciona, o verdadeiro filósofo contenta-se com o que tem.(Jane Austen)

A força de Lizzy - Capítulo XI

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Capitulo 11

- Lizzy, que bom que vocês chegaram! – Georgi veio recebê-los assim que a família Bennet estacionou o carro em frente à casa branca. – Oi, tudo bom? Quanto tempo – cumprimentou o pai de Lizzy com três beijinhos – E você deve ser a Lídia. Nossa, Lizzy, como ela está linda!

Lídia, exibida, abriu um largo sorriso.

- Obrigada – ela respondeu acanhada.

- Rá! – a irmã mais velha achou graça – Essa aí é convencida, não dá para elogiar muito.

- Ah... – Lídia resmungou, mas depois desfez a careta e deu a mão para Lizzy. Entraram na casa de mãos dadas. Lídia, num ambiente onde não conhecia ninguém, ficava inicialmente tímida. Envergonhada, agarrou-se as costas da irmã.

- Já estão todos aí. O Richard, Cíntia, a mãe, o Lipe, o Rui (o bebezinho de 9 meses), só o Ivan que ligou agora e confirmou que não vem. Não conseguiu se liberar do plantão.

- Ah... – Lizzy arregalou os olhos, em choque - Eu nem sabia que existia a possibilidade dele vir... – ainda bem, ela logo concluiu, senão teria ficado muito nervosa. E o pior de tudo, teria ficado nervosa e provavelmente arrancado suas unhas à toa.

- Dona Suzana! Que saudades! – Lizzy era toda emoção e sorriu ao rever seus antigos conhecidos. A família a qual quase pertencera. Mal teve tempo de cumprimentar o Richard e a Cíntia, pois Suzana a arrastou para dentro de sua casa.

O churrasco estava sendo feito no jardim entre as duas casas, e na parte de trás, ficava a residência da matriarca da família.

- Não repare a bagunça, querida. – ela novamente a abraçou. – Deixa eu olhar para você. Nossa, você está tão linda! – exclamou sensibilizada.

- Eu te trouxe um presente. A Georgi me ajudou a escolher.

- Oh, não precisava! – abriu o pacote prateado – Que vestido mais bonito, Lizzy. Mas não precisava...

Como resposta, Lizzy apenas sorriu, comovida.

- Eu e o Ivan moramos aqui. Quer ver a casa?

- Hum rum.

- Quero te mostrar o escritório antes, pode ser?

- Claro.

O escritório tinha um monte de livros e recortes de jornais por todos os lados. Uma máquina de escrever cinza, alguns papeis amontoados no lixo.  Lizzy logo sentiu a presença forte de Ivan. Seu coração se apertou.

- É... – não conseguiu falar. Sua voz embargou. Automaticamente seus olhos pousaram sobre o diploma na parede. – Ele... – a boca secou e o único som que saiu naquele instante foi um longo suspiro. -... Médico... – seus olhos umedeceram - ... Que bom...

- Se formou em um dos primeiros lugares da turma. – Suzana parou ao seu lado, colocando a mão sobre seu ombro.

- Ah....

- Sempre foi um ótimo aluno, dedicado e esforçado.

- Ah...

- E ele estudou por você, Lizzy. E se não fosse por você, ele não teria se formado. – surpresa, ela encarou a ex-sogra – Ele usou o dinheiro da tua conta, Lizzy, mas quer te devolver cada centavo.

- Não. Eu não quero...

- Eu sei que não, mas ele faz questão.

Lizzy baixou o rosto, cabisbaixa.

- Ele te esperou por muitos anos, sabia?

- Hmmm.

- Você quer ver o quarto dele?

Ela subiu o rosto, e um pequeno sorriso se formou no canto de seus lábios.

- Hum rum. – assentiu com a cabeça.

- Bom, eu vou voltar ao jardim. Fique a vontade, querida. Eu não vou contar a ele que você esteve aqui, certo?

- Tá bom. Obrigada.

- Eu que te agradeço, querida. Sempre.

Lizzy seguiu até o quarto indicado agora sozinha. Sua cabeça estava uma confusão de sentimentos. Uma das primeiras coisas que sentiu ao entrar naquele ambiente foi: dor. Uma dor aguda e lancinante pesando em seu peito. Em cima da cômoda, uma foto de Ivan com outra: uma loira de cabelo curto e crespo, toda sorridente posando para o retrato.

Sentou-se na cama, sentindo suas pernas trêmulas. Não pôde evitar um par de lágrimas. Com os dedos cobriu a face feminina e ficou admirando seu Ivan. Tão lindo... Perdeu a noção do tempo, suspirando e sonhando por seu amor perdido.

De repente, bateu uma curiosidade: como será que ele se vestia depois de dez anos? Levantou-se para investigar os armários. Abriu a porta maior do roupeiro de mogno e o que lhe chamou atenção foi o conjunto de três belos jalecos brancos, a vestimenta médica. Seu nome – Dr. Ivan Darcy – bordado em azul marinho nos bolsos. Sentiu um misto de orgulho e melancolia. Ele devia ficar tão perfeito vestido de médico, será que ela o veria assim algum dia?

Ficou mais um tempo vasculhando e bisbilhotando seu quarto, sem coragem e sem forças para se mover. Mas em seguida, deitou-se na cama de Ivan, abraçada ao retrato dele com outra.

- Lizzy! Ah, você está aí! – Lídia entrou no quarto, agarrada à mão de Richard, puxando-o em sua frente. – Ele queria falar contigo. Você sumiu faz um tempão, sabia? Tem que ver, o Billy é bem legal, e ele não cansa nunca!

- Quem é Billy? – ela elevou os olhos, curiosa.

- O cachorro, Lizzy! Ele é um cocker spaniel dourado. Eu e o Lipe estamos jogando bola com ele há um tempão, e ele não cansa. Posso ter um cachorro desses também? O Billy vai ter filhote, não vai? – ela indagou ao Richard, esperançosa.

- Tem que perguntar para a Georgi, o cachorro é dela. – Richard respondeu, achando graça.

- Ah tá, vou lá perguntar. – ia dar a volta para sair do quarto, mas algo chamou tua atenção – Quem está nessa fotografia? – sentou na cama ao lado da irmã. Richard permanecia em pé junto à porta. – Ah, é ele, não é?

- Hum rum. – Lizzy simplesmente respondeu.

- Ah, ele é bonito. Achei que pudesse estar barrigudo como o tio Richard, mas pelo visto ele não está. – ela logo concluiu.

- Lídia! – Lizzy a recriminou, constrangida.

- Tá, eu sei, eu sei. Não é para falar essas coisas. Desculpa, saiu sem querer – ela tapou a boca. Olhou de relance para o Richard – Mas ele está barrigudo mesmo.

- Há há há – Richard deu risada, o que deixou Lizzy mais aliviada. – Tudo bem, deixa ela. Eu tenho mesmo que começar a fazer exercícios.

- Lídia, vai lá brincar com o Billy, vai.

- Tá bom. – e ela saiu rapidamente, deixando os dois a sós.

Richard sentou-se ao seu lado.

- Como você está?

- Não sei. – Lizzy estava com o rosto baixo.

- Você está linda. Só precisa encontrá-lo.

- Mas ele não quer me ver... – ela choramingou.

- Rum. Nem a mim.

- Ah... – ela encarou-o – Desculpa, Richard... Se eu não tivesse ido para a casa de vocês, isso não teria acontecido.

- E se você não tivesse ido para a nossa casa, o Ivan provavelmente não estaria formado hoje, Lizzy. Eu perdi meu emprego logo depois que você foi embora e o que nos ajudou por um tempo foi o dinheiro que você deixou a ele. E o Ivan só não desistiu da faculdade por que te prometeu.

- Ah...

- Meu pai foi um covarde, Lizzy, um covarde ao nos abandonar. Ele nos deixou na pior. Mas agora o Ivan está ganhando bem, ele cuida da nossa mãe e ajuda a Georgi também. Enfim a minha mãe pôde se aposentar e parar um pouco de trabalhar.

- Teu pai foi um covarde? – indagou abismada – Não entendi...

- O Ivan nunca te contou como ele morreu?

- Não.

- Ele se matou.

Lizzy abriu a boca, em choque.

- O sócio dele deu um desfalque nas empresas deles, desviando muito dinheiro e depois se mandou. Acho até que fugiu do país. Meu pai foi acusado de ladrão, por que ficou devendo para um monte de gente. Ele não agüentou a pressão e então pegou um revólver, levou contra a cabeça e apertou o gatilho. Só que graças a Deus, não fez isso em casa, fez na empresa. Eu não o vi, assim como ninguém da minha família. Ainda bem, por que teria sido horrível.

- Nossa! – ela estava perplexa, com os olhos abertos e arregalados – Vocês devem ter sofrido.

- Acredito que não mais do que você por perder a mãe.

- É. – fez uma pausa, melancólica - Mas eu ganhei a Lídia.

- Sim. Ela é linda.

- É sim.

- Vamos para lá? Já devem estar perguntado por você. E você mal viu meus filhos. – comentou com uma expressão nítida de orgulho. – E quero que você conheça melhor a minha esposa, ela é ótima. Acredito que vocês se darão bem.

- Então vamos – tentou sorrir, mas o sorriso saiu extremamente triste.

 

Lizzy bebia seu terceiro copo de cerveja, e saboreava mais um pedaço da suculenta picanha assada por Alan. Seu pai sentara ao lado de Suzana, engatando uma animada conversa. Lídia e Lipe já haviam comido e logo voltaram a brincar com Billy. Georgi ajudava o marido a cuidar do churrasco, servindo os convidados com alegria. Richard segurava seu pequeno bebê, faceiro e brincalhão como um pai babão. Parecia que todos se divertiam e estavam bem acompanhados - todos, exceto Lizzy. Ela se sentia só. Sentia uma tristeza profunda, como há anos não acontecia. Aproveitando da distração de todos, deixou o seu lugar sem chamar atenção.

Lizzy caminhou a passos lentos, contornando a casa e indo para os fundos, desejando um pouco de paz. Escorou-se à parede branca e soltou um longo suspiro, liberando toda a angústia aprisionada. Voltou àquela família, família à qual quase pertencera, só que o Ivan não estava lá... Apertou os olhos e a imagem da loira sorridente dominou seus pensamentos... A namorada do Ivan... Era com ela que ele queria estar. Por isso ele a evitava...

Pensou com dor nas promessas feitas...

“Eu vou te amar para sempre” “Eu vou te esperar, Lizzy”

- Ai... – um novo suspiro alto. Agudo como um grito de dor.

“Eu nunca vou tirar esse anel...”

- Para quê? – ela resmungou baixinho, ainda de olhos fechados.

- Você está bem?

Lizzy abriu os olhos rapidamente, e, espantada, viu que não estava só.

- Também venho para cá para me esconder. Essa família me deprime. – Cíntiase encostou à parede ao lado da Lizzy, olhando para os seus pés com tênis All Star preto.

- Ah... Eu... Eu na verdade amo essa família. – ela afirmou constrangida.

- Eu sei. Eu sei tudo sobre você, Lizzy. – ajeitou seu rabo de cavalo, prendendo bem os longos cabelos castanhos do mesmo tom dos de Lizzy

- Sabe?

- Hum rum. - Colocou os dedos nos bolsos frontais da calça jeans desbotada.

- O Richard te contou? – indagou surpresa.

- Não, a Georgiana.

- Ah, é? E o que ela disse?

- Que você quase se casou com o Ivan. Que ele foi para a faculdade e se formou em medicina porque te prometeu. Falou que você teve que ir embora de um dia para o outro e que o Ivan ficou muito triste depois que você partiu. E ela também me contou que o Richard também foi apaixonado por você e aproveitou para dizer que eu nunca chegaria aos teus pés. E agora vejo que é verdade: você é muito bonita, Lizzy.

- Não! – pega de surpresa, ela se atrapalhou um pouco - Cíntia, você também é bonita! – ela recriminou a outra, que pela primeira vez elevou os olhos – Eu... Eu meio que acho que entendo o que você está passando, Cíntia ... – acrescentou com embaraço.

- Como assim?

- Quando eu fui para o Chile com o meu pai, fiquei muito triste. Senti muita falta do Ivan e andei meio desleixada como você. Não me arrumava mais, não tinha ânimo para fazer nada. Só que você não tem motivos para se sentir triste, Cíntia . Tem dois filhos lindos e um marido que te ama...

- Você nunca teve filho, Lizzy. Você não entende. – ela a interrompeu.

Lizzy arqueou as sobrancelhas.

- Você não deve se cobrar muito, acabou de ter um filho. Ninguém exige que tenha um corpo perfeito.

- Você pensa que inveja a minha vida, não é? Também queria ser mãe e esposa, não é Lizzy? E acha que eu deveria ser feliz por ter tudo isso?

- Lógico! – tudo que a Lizzy mais queria era constituir uma família com Ivan.

- Mas não é suficiente!

- Não?

- Você largaria sua profissão por causa do teu marido?

Lizzy pensou.

- Não.

- Então!

- Você largou alguma profissão pelo Richard?

- Não, eu o conheci cedo. Nunca cheguei a trabalhar, Lizzy.

- Ah... E você se sente infeliz por que não quer ficar em casa... Entendo... E o Richard não te deixa trabalhar?

- Ele disse que eu não preciso e a mãe e a irmã dele concordam. E agora a Georgi também pretende parar de trabalhar para ficar em casa com os bebês. Mas se ela quer, eu não a condeno, é a escolha dela. Cada um sabe o que faz com sua vida, só que ninguém me perguntou o que eu gostaria ou não de fazer!

- E o que você gostaria de fazer?

- Trabalhar – ela deu de ombros – Trabalhar com qualquer coisa. Me sentir útil!

- Hmmmm.... E você gostaria de trabalhar comigo?

- E fazer o que?

- Sei lá. Eu sempre preciso de ajuda. Agora tenho que organizar um desfile para a coleção de verão. Preciso me virar em duas para dar conta de tudo. Tenho que fiscalizar as costureiras, por que se eu não fico em cima elas deixam passar alguns defeitinhos que eu não admito. Agora preciso contratar maquiadoras e fotografas e não conheço muita gente. Preciso pesquisar preços de tecidos, atender clientes e o mais chato de tudo: preciso comparecer a alguns eventos. Não gosto muito de festas e, para falar a verdade, preferia ficar em casa, só que tenho que fazer meu nome, me tornar conhecida. E sabe, preciso de alguém de confiança ao meu lado, mas eu não tenho nenhuma amiga aqui. Minha única amiga que sobrou de antigamente foi a Georgi, só que ela, com dois bebês a caminho, não está disponível. Enfim, se você quiser me ajudar e ser meu braço direito, a vaga é tua. Só não sei se será possível por causa do teu filho pequeno e com vocês morando em outra cidade.

- Por quê?

- Por que o quê?

- Por que você empregaria alguém como eu? Sem nenhuma experiência?

- Por que essa família quase foi minha família também. E de alguma forma, eu sinto que continua sendo. E eu quero ver o Richard feliz, eu gosto muito dele. E se você ficar feliz, ele ficará também, não é?

- Hmmm. – ela colocou a mão sobre o queixo, considerando a hipótese. – Sabe, o Richard recebeu uma oferta para trabalhar em Porto Alegre, e eu que não aceitei. Disse que não seria bom para as crianças, mas na verdade... - baixou o rosto, envergonhada.

- Você não queria vir por causa da família dele. Para não ficar tão perto – Lizzy concluiu, perspicaz.

- É... Mas a tua proposta é séria mesmo? – ela ergueu os olhos verdes e sorriu de leve, já exibindo um brilho diferente no olhar.

- Hum rum.

- E se o Richard não concordar? – questionou temerosa.

- Sabe qual é a melhor maneira de fazermos isso dar certo?

- Hmm?

- Vamos fazê-lo pensar que a idéia é dele. – Lizzy sorriu e relatou seu plano - Quer ver que dará certo?

Cíntiae Lizzy voltaram à mesa, sentando uma de cada lado de Richard.

- Sabe, Richard... – Lizzy começou a mencionar seus infortúnios – ... E é tão difícil arranjar alguém de confiança para me ajudar. Eu passei dez anos fora, todos os meus conhecidos ficaram em Paris. Você por acaso não sabe de alguém disponível, que queira trabalhar comigo? Conhece alguma mulher inteligente e competente? Nem precisa ter experiência, basta ser esforçada e ter vontade de apreender.

- Hmm... – ele pareceu pensar – Acho que não.

- Ah... Que pena... – ela lamuriou – Eu ando esgotada... Precisava mesmo de alguém legal para trabalhar comigo... – carregou no tom e nos gestos dramáticos. – Estou exausta.

- Ah não ser... – Richard acrescentou e Cíntia , que até o momento permanecia calada, ergueu os olhos, esperançosa.

- O quê? – Lizzy questionou rapidamente.

– Não... Não sei se daria certo....

- Por favor, Richard. Fala de uma vez! Eu estou realmente desesperada. Qualquer ajuda me serve.

- A Sol sempre quis trabalhar e ela é de confiança.

- Ah, é mesmo? – Lizzy abriu um largo sorriso – Que ótima idéia, Richard. Muito obrigada – bateu no ombro dele, agradecida – O que você acha? – se virou para Cíntia– Você gostaria?

- Ah! – ela sorriu e ajeitou melhor seu bebê no colo – Eu adoraria.

Então os três continuaram a conversar sobre o assunto. Ao ver o entusiasmo de Lizzy e da esposa, Richard se sentiu envaidecido por ter achado uma solução tão fácil e brilhante para o problema de Lizzy.

Pouco depois, a família Bennet partiu.

O pai de Lizzy e Lídia assumiu a direção e enquanto dirigia surpreendeu a filha mais velha com o seguinte comentário:

- Não me lembrava que a Suzana era tão bonita.

- Mas, pai, como você poderia lembrar se só a viu uma vez? – Lizzy objetou.

- Eu sei, só que eu nunca esqueço o rosto de uma mulher bonita.

- Mas pai... – Lizzy iria lembrá-lo das circunstâncias daquela fatídica madrugada de 1969, o único momento em que a encontrara. Um dia em que provavelmente ele não teria visto nada a um palmo de seu nariz. Só que optou por se calar – Parabéns, Lídia – se virou para a irmã no banco de trás – Você se comportou muito bem hoje.

- Eu sei. – ela sorriu, orgulhosa. – Pai! Eu quero um cachorro!

- Vamos ver. – e deu um jeito de encerrar o assunto.

 

Já na semana seguinte, Cíntia começou a trabalhar com Lizzy. Desde o início, mostrou-se interessada e competente. Sentindo-se feliz, começou a se arrumar e se cuidar cada vez mais. Cíntia passava as tardes com Lizzy, voltando apenas à noite para Novo Hamburgo, o que deixou Richard inicialmente descontente. Só que como a idéia tinha sido “teoricamente” dele, ele não podia reclamar.

O natal chegou e Charles voltou de Curitiba. Quase todos os dias, passava na loja para ver Lizzy.

Com a convivência, Lizzy e Cíntia tornaram-se grandes amigas.

- Tudo dará certo amanhã. – Cíntiaencerrou a última ligação e cruzou os dedos fazendo figa – Se Deus quiser, o desfile será um sucesso. Todos os lugares já estão reservados, vai estar lotado.

- E vai todo mundo da família Darcy?

- Era para convidar todo mundo? – ela franziu o rosto numa careta nervosa.

- Você não convidou todo mundo?

- Er... Eu não sabia que era para convidar os homens... Eu, na verdade, só convidei a Georgi e a Suzana.

- Ah... Tudo bem. – ela deu de ombros e fingiu não se importar. Mais uma esperança de ver o Ivan que escorria pelo ralo... De qualquer forma, ela sabia que ele não viria... Ele não a queria. E era evitando pensar nele que Lizzy, desde que voltara ao Brasil, trabalhava exaustivamente.

Como se lesse seus pensamentos, Cíntia acrescentou:

- Os gêmeos de Georgi nascerão até o fim do mês, Lizzy. Vocês acabarão se encontrando – ousou tocar naquele assunto pela primeira vez.

- É. Eu sei. – elas andavam pelo segundo piso averiguando cada peça de roupa que seria usada no desfile da coleção de verão, no dia seguinte. A loja já estava fechada e as duas estavam sozinhas.

- O Charles não é teu noivo, não é?

- Não.

- E nem namorado.

- Não.

- Por que você não quer, pois ele gosta de você.

- É. – revistava cada peça de roupa com concentração, enquanto Cíntia a seguia, fazendo as perguntas.

Lizzy esticou o corpo para alcançar um lenço preto da última prateleira do armário, e colocou no pescoço de um manequim com um conjunto de saia de blusa preta com branco. Cíntia observou atentamente seus braços estendidos.

- E por que você não tira esse anel?

- Não sei. – Lizzy simplesmente respondeu.

- Ei! Acho que esse acessório – pegou uma larga pulseira cor cobre – combina com essa roupa vermelha. O que você acha?

Ela ergueu as sobrancelhas, surpresa.

- Acho ótimo, Cíntia . – abriu um sorriso.

A campainha tocou.

– Deve ser o Richard. Ele veio me buscar com as crianças. Posso deixá-los subir?

- Lógico.

 

O desfile foi um sucesso. Ocorreu no fim de semana e na semana seguinte Lizzy recebeu várias clientes novas e algumas encomendas. Os pedidos de peças sob medidas e exclusivas eram os que mais geravam lucros.

 

- Lizzy! – Marcos, o vizinho e amiguinho de Lídia chegou bufando na cozinha. Ela terminava de lavar a louça do almoço de domingo, enquanto seu pai estava trancafiado no escritório escrevendo seu primeiro livro. Lizzy não gostava de incomodá-lo, para que ele não perdesse a inspiração. Tudo o que ela mais queria é que ele trabalhasse mais tempo em casa.

- O que foi?

O rosto de Marcos estava vermelho, os cabelos desgrenhados – talvez pelo susto - e ele se inclinou, apoiando seus braços sobre os joelhos, para retomar o fôlego.

- A Lídia... – ele arregalou os olhos negros, assustado – A Lídia caiu da árvore.

- O quê? – Lizzy jogou o pano de prato sobre a mesa e soltou a avental da cintura – Onde ela está?

- Lá fora... – ele corria atrás dela. – Embaixo da árvore.

- E ela se machucou?

- Sim! Ela não conseguiu nem ficar em pé!

- Ai, meu Deus! Para onde? – ele apontou na direção, e ela apressou ainda mais o passo. – Lídia!

Ela estava sentada escorada ao tronco, agarrando o tornozelo direito com ambas as mãos. Com os olhos cheios de dor, fitou a irmã.

- Desculpa... – ela balbuciou constrangida – Eu prometi que não subiria mais em árvores... – choramingou.

Lizzy se abaixou para observar o tornozelo inchado. Tocou de leve e Lídia gemeu, se contorcendo.

- Ai! – gritou numa nova tentativa de exame.

- Está doendo muito? – Lizzy indagou preocupada.

- Sim!

Sem hesitar, Lizzy pegou a irmã mais nova no colo.

- Aonde nós vamos?

- Ao hospital, querida – a carregou até o carro – Não deve ser nada de grave, mas temos que verificar.

- Tá bom. E o pai?

- Ele está trabalhando. Vamos só nós duas, tá?

- Tá. – ela concordou com a cabeça, apertando os olhinhos de dor. Lizzy a ajeitou no banco traseiro do automóvel.

- Posso ir junto? – Marcos, que até aquele momento a acompanhava calado, questionou.

- Não. Mas cuida dela enquanto eu pego a minha bolsa.

Ele assentiu com a cabeça, comprimindo seus lábios.

Chegaram ao Pronto Socorro e Lizzy colocou Lídia sentada descalça (removeu os sapatos por causa da dor) numa das cadeiras pretas da sala de espera. Ficou preenchendo a ficha, procurando se acalmar. Lídia precisava que ela cuidasse dela, não que tivesse um chilique. Embora por dentro se remoesse de medo de que fosse algo grave (como uma fratura óssea) tentava não demonstrar.

- Agora podem aguardar. O Dr. Darcy já irá chamá-la.

Lizzy engoliu em seco. Sentiu as cores de seu rosto desaparecerem. Tentou se recompor.

- O Dr. Ivan Darcy? – forçou sua voz para soar casual.

- Sim. – a recepcionista sorriu - Você o conhece?

Ela apenas balançou a cabeça, muda, e deslizou até seu lugar. Porém, a expressão de dor de Lídia fez com que ela voltasse à realidade. Naquele momento, ela era mais importante do que qualquer outra coisa.

- Como você está? Está doendo muito? – questionou amorosa.

- Hum rum.

- Lídia... – ela murmurou, olhando no fundo dos olhos da irmã, enquanto tentava ajeitar seus cabelos, posicionar melhor os fios fora do lugar. Em pânico, lembrou dos trajes que vestia. Uma bermuda jeans, uma blusa vermelha simples e um par de tênis! Sim, ela estava em casa lavando louça e por pouco não foi ao pronto socorro de chinelos de dedos! Argh! Ótima escolha para um reencontro após dez anos!

- O que foi?

Não havia outro Pronto Socorro perto, não havia muitas opções de lugares para se ir num domingo à tarde. Se houvesse, ela não pestanejaria e levaria sua irmã embora dali em questão de segundos.

- Eu estou bonita? – ela franziu a testa - Arruma meus cabelos?

Lídia achou graça e fez o que a irmã pediu.

- Pronto. Agora melhorou – riu mesmo com dor.

- Tá bom. – inquieta, se ajeitou na cadeira ao lado da irmã.

- Lídia Bennet – a voz feminina as chamou, deixando Lizzy aliviada e um pouco esperançosa. Talvez a recepcionista estivesse enganada. Talvez – afinal de contas – não fosse o Ivan o seu médico. Mas toda essa esperança se esvaiu quando ela acrescentou – Pode aguardar nessa sala, o Dr. Darcy já vem.

- Dr. Darcy? – Lídia repetiu ao ficaram a sós, olhando para sua irmã com um misto de perplexidade e curiosidade – É ele?

- Hum rum.

Então se sentaram as duas na sala, caladas e ansiosas, a espera de Ivan.

 

 

 

 

 

 

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