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Imagino quem primeiro descobriu a eficácia da poesia em afastar o amor! (Jane Austen)

Conto de Ano Novo: Uma Carta de Ano Novo

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William. Pensei em mil maneiras de começar esta carta, inclusive rascunhei algumas linhas, mas nada que medisse com precisão tudo o que quero te dizer. Mais uma vez não sei o que dizer... Melhor, sei sim, mas não sei como começar...

2012 está chegando e começo a pensar em tudo o que nos aconteceu; conhecer você foi à melhor coisa que me aconteceu este ano. Lembro claramente do nosso primeiro encontro... nosso primeiro beijo... nossa primeira noite de amor e daquele noite horrível que adoraria esquecer, mas não é tão simples assim. Se eu pudesse em um passe de mágica apagar o que aconteceu ou simplesmente fazer o tempo voltar atrás... mas não posso e tive que conviver com isso ao longo destes últimos três meses; dias de arrependimento, de angustia, de dor e de covardia... Droga! Mais uma vez estou centralizando tudo em mim e esquecendo o real motivo desta carta que é me desculpar. Sinto muito, realmente sinto muito; jamais conseguirei traduzir em palavras o quanto sinto. Sei que você me odeia e isso dói demais; sei que te fiz sofrer e me odeio por isso, mas como você nunca quis me ouvir depois daquela noite, não responde meus e-mails nem os muitos telefonemas, resolvi te mandar esta carta. Nem sei se você vai ler até o final, mas tenho esperanças que me dê uma chance para que eu possa te explicar o que me levou aquela decisão estúpida.

Quando você apareceu em minha vida sabe que eu passava por um momento difícil; havia acabado de perder meu noivo, na véspera do meu casamento, naquele trágico acidente de avião. Perder o Charles foi tão difícil para mim quanto para você, pois sei que eram os melhores amigos que já ouvi falar (Charles não falava em outra coisa, além da amizade de vocês). Primeiro nos unimos pela dor de perdê-lo, nos consolamos, e não se preocupe, pois sei que o único sentimento que existia entre nós era a pura e simplesmente amizade recém descoberta do meu padrinho de casamento que nunca tinha visto antes daquele dia, e a nossa luta para mantê-lo vivo de alguma forma. Mas com o tempo, não sei como aconteceu, quando vi já estava completamente envolvida e você também... Céus! Sabe quantas vezes me culpei por sentir isso? Quantas vezes imaginei que estava traindo Charles; que eu era uma pessoa desprezível e indigna da memória dele? Foi tão difícil que não sei como tive forças para me afastar de você. Não foi fácil não atender seus telefonemas e mentir, fingindo não está em casa quando você chegava; mas era a coisa certa a fazer, ao menos naquele momento. Quando você fez plantão na porta do meu prédio por um dia inteiro e naquela noite chuvosa me pegou indo para a faculdade, minha vida mudou completamente; ao ouvir sua declaração de amor eu quis morrer, pois me sentia feliz e triste ao mesmo tempo. Novamente fui covarde e não admiti para mim mesma que não estava preparada para aquele momento. É. Eu não estava pronta para deixar o Charles ir de uma vez por todas, agora você sabe. Mas não tive coragem de te dizer isso e aceitei o seu pedido de namoro e foi aí que começou todo o meu dilema. Nunca fui tão feliz em toda a minha vida, nunca; amava o Charles e era feliz, mas com você era diferente, era tanto sentimento quanto pele. A grande questão aqui, Will, é que durante os seis meses que passamos juntos, todo este tempo, me culpava e achava que estávamos traindo o Charles. Perdoe-me... Perdoe-me por nunca ter te contado como me sentia; talvez se tivesse falado não teríamos chegado a este ponto. Cada vez que nos amávamos juro que me entregava por completo, era o êxtase da felicidade, naquele momento eu era só sua, apenas sua, mas cada vez que ficava sozinha no banheiro chorava copiosamente arrependida e culpada. Sei que é horrível, eu sei, talvez você me odeie ainda mais por está falando tudo isso, mas não quero mais mentir para você, nunca mais, Will. Nunca estive inteira no nosso relacionamento, pois a culpa nunca me deixou em paz, entende? Quando estava com você era tudo cheio de paz, tranqüilidade... mas quando você se afastava uma enxurrada de sentimentos ruins me tomava e não fui forte o suficiente para vencê-los.

Naquela noite, na noite em que você me pediu em casamento... Você não poderia ter escolhido noite pior para me pedir em casamento, Will. Quando chegamos ao jantar de dois anos da morte do Charles oferecido pelos pais dele, eu já estava desconfortável, não por eles, pois sei que nos apoiaram desde o início e como a Sra. Bingley sempre diz: eles descobriram que nos amávamos antes de nós mesmo. Mas, um pouco antes de você pedir minha mão em casamento a Caroline me seguiu até o banheiro e apenas verbalizou o que minha mente repetia para mim todos os dias. Foi duro ouvir, mas foi preciso. Ela disse que eu era desprezível e não merecia carregar a memória do seu irmão que se dedicou a mim completamente nos três anos em que ficamos juntos. Disse que se ele estivesse vivo nos odiaria para sempre devido a nossa traição... Eu morri junto com o Charles naquele momento, porém mais uma vez me calei, mais uma vez cometi o triste erro de me calar e após disfarçar o choro voltei para a sala de jantar e fingi que nada havia acontecido, mas estava destruída por dentro e com a certeza de que ela tinha toda razão e que o melhor para todos era terminar com você. Sim. Eu iria terminar com você naquela noite. Sinto muito... Mas antes do final do jantar quando você pediu a palavra e pediu permissão aos Bingley para casar comigo senti o desespero me tomar; naquele momento me senti apavorada, intimidada e um filme começou a passar por minha mente. Lembrei de quando conheci o Charles na faculdade, de como me apaixonei imediatamente por aquele ruivo palhaço e sensível. Os dois anos de namoro e muitas histórias compartilhadas. Um ano de noivado e todo o preparativo de casamento... Lembrei dele me dizendo antes daquela maldita viagem que não se casaria com mais ninguém além de mim e que eu era a mulher da sua vida. Era como se estivesse se despedindo... Os olhos incriminadores da Caroline sobre mim... Eu não suportei... Não pude... Sinto muito... Por mais que quisesse dizer sim, eu não podia, não poderia fazer isso com o Charles, com você, muito menos comigo. Sei que você pensa que tive prazer em dizer não na frente de todos e sair correndo, sumindo da sua vida por dois meses, sem dar nenhum sinal de vida, simplesmente sumindo. Mas não sabe o quanto sofri, aliás, sofro, por ter sido tão fraca e duvidado da força do nosso amor; esquecido o quanto o Charles nos amava e o quanto ele era bom, generoso e incapaz de sentir tudo aquilo que a Caroline me fez acreditar. A verdade é que não acreditava em mim, que eu tinha o direito de me refazer, de me permitir ser amada novamente, que eu tinha o direito de amar... de amar você. Durante todos estes meses ensaiei várias formas de te dizer tudo o que estou escrevendo agora, mas não sabia como começar.

Faltam dez dias para 2012 e não quero começar um novo ano sem te pedir sinceramente que me perdoe, mesmo que você me odeie, mesmo que não me ame mais, mas preciso que você me perdoe. Não espero que isso aconteça logo, mas ao menos que algum dia você consiga entender minhas fraquezas, meus fantasmas. Sei que não tenho o direito de te dizer isso, mas quero que saiba que eu te amo muito; todo este tempo que passamos separados serviu para que eu amadurecesse, que entendesse como nosso amor é forte, como eu sou forte. Talvez você esteja com alguém agora, e não quero te constranger, mas só preciso que você saiba que eu te amo... Sempre vou te amar e todas às noites sonho com aquele anel no meu dedo... Não sei mais o que dizer, pois sinto que por mais palavras que esta carta contenha, elas são insuficientes para descrever tudo o que sinto.

 

FELIZ ANO NOVO!

Sempre sua...

Elizabeth Bennet

***~***~***~***

- Will? – Mr. Bingley o chamou assim que finalizou a leitura da carta, arrancando-o de sua introspecção.

- Mr. Bingley. Sabe que o respeito muito, mas se fiquei ouvindo o senhor ler esta carta, foi unicamente por respeito a vocês.

- Por que devolveu a carta sem ler, William? – Mrs. Bingley indagou carinhosa.

- Este assunto está encerrado na minha vida, Mrs. Bingley. Como esta carta veio parar aqui? Certamente ela veio pedir...

- Não! – Mr. Bingley se apressou em responder a insinuação não verbalizada. – Elizabeth não sabe que esta carta foi devolvida por você.

- Mas... Como?

- Fomos visitá-la ontem... – Mrs. Bingley começou a explicar – E como ela não estava, resolvi deixar o cartão de natal dela em sua caixa de correio. Sei que erramos, mas quando vi uma carta endereçada a você lá, esqueci qualquer educação e ética e abri a carta.

- Sei que não tínhamos este direito, William. – Mr. Bingley continuou – Mas não suportamos mais ver vocês dois separados por uma estupidez. Vocês se amam demais.

- Não é tão simples assim. – respondeu derrotado.

- O que tem de tão complicado em vocês se amarem e desejarem ser felizes, meu filho?

- Mrs. Bingley. Não podemos... Charles...

- Charles amava tanto a Elizabeth. – Mr. Bingley afirmou saudosista. – Mas por que não podem ficar juntos?

- Por mais que tentasse parecer normal, sempre me culpei por amá-la. Por diversas vezes não tinha coragem de me encarar no espelho. Charles confiava em mim e eu o traí.

- Continue, William. – Mrs. Bingley pediu enquanto se aproximava dele.

- Quando ela me deixou naquela noite... Sabe... Ela tinha razão. Caroline tinha razão. Traí a confiança do meu melhor amigo. Estava tentando viver a vida dele. Roubar a mulher dele! – gritou a ultima frase sentindo que perdia o controle.

- Sente-se, William. – Mr. Bingley pediu ao se levantar e caminhar até um armário que ficava na sala. – Lembra desta foto, William?

Perguntou ao mostrar um belo porta-retratos onde dois garotos de dez anos estavam abraçados e felizes no meio da torcida do Arsenal.

- Claro. – sorriu pegando a foto nas mãos – Foi a primeira vez que o senhor nos levou para ver um jogo do Arsenal.

- Vocês estavam tão felizes naquele dia. Era seu aniversário, não era?

- Era sim.

- Charles passou mais de dois meses programando aquele dia. Ele disse que conheceu um novo amiguinho na escola que era muito legal, mas era triste porque não tinha pai nem mãe, pois seus pais haviam morrido e ele vivia com sua tia. – fez uma pausa para conter a emoção, então continuou – Sabe que não tínhamos muito dinheiro naquela época, pois minha empresa estava só começando.

- Sim.

- Charles estava juntando dinheiro em dois cofres para comprar sua bicicleta e quando eu disse que não poderia pagar pelos ingressos do jogo ele nos pediu para abrir os cofres.

- Ficamos loucos! – Mrs. Bingley que até então ouvia tudo em silêncio, comentou sorrindo das lembranças. – Mas ele sabia como nos convencer. Sabe o que ele nos disse quando dissemos não?

- O que? – A voz dele saiu embargada devido à emoção.

- Que ele queria ver o amiguinho dele sorrir ao menos uma vez na vida. Que você, Will... – as lágrimas já molhavam o seu rosto frágil – merecia ser feliz assim como ele era feliz por nos ter em sua vida.

- Nosso filho te amava muito, William. – Mr. Bingley completou não contendo as lágrimas. – E tenho certeza de que se ele estivesse aqui conosco diria para você: Eu só quero que você seja feliz, Will. Ele fazia tudo para que todos que estivessem ao seu redor fossem felizes.

- Eu... – William já não continha as lágrimas. – Não quero decepcioná-lo.

- E você não irá, acredite. – a mão gélida de Mrs. Bingley pousou sobre a sua. – Nem você, muito menos Elizabeth premeditaram nada, apenas se apaixonaram. Pensem que Charles teve a missão de unir vocês. Você ainda a ama, Will?

- Muito. Nunca deixei de amá-la. – afirmou enxugando as lágrimas.

- Então em nome do nosso filho, vocês tem o nosso apoio incondicional.

- Obrigado, Mrs. Bingley.

- O que está esperando rapaz? Não espere o ano acabar para ir até a casa dela. – Mr. Bingley o incitou sorridente.

- Mas já são quase meia-noite. – constatou olhando no relógio.

- Se você correr chegará a tempo.

- Vá, Will. Amamos vocês e tudo o que queremos é vê-los felizes.

- Muito obrigado. Vocês são os pais que eu não tive.

Após um longo e carinhoso abraço, William passou a correr literalmente contra o tempo. A casa de Elizabeth ficava a alguns quarteirões da casa dos Bingley, mas a multidão nas ruas o impedia de ir de carro, por isso resolveu ir correndo enquanto rompia a multidão.

Quinze minutos para meia-noite e a dificuldade aumentava cada vez mais. As pessoas ansiosas pelo inicio de mais um ano conversavam animadas pelas ruas enquanto um homem apaixonado corria para reconquistar seu amor.

A menos de cinco minutos para 2012 ele entrava no elevador do antigo prédio enquanto rascunhava alguma coisa em um papel amassado.

A contagem regressiva já havia começado quando ansioso ele bateu desesperadamente a porta do apartamento trinta e oito.

Os fogos ecoavam fazendo um barulho ensurdecedor junto com os gritos eufóricos das pessoas na rua quando a porta se abriu e um par de olhos negros completamente surpresos, encaravam-no.

- Esta carta é para você. – ele entregou um papel dobrado a ela.

Completamente insegura e tremula passou a abrir a carta onde tinha apenas três frases escritas aparentemente às presas:

FELIZ ANO NOVO!

EU TE AMO MAIS QUE NUNCA!

O ANEL AINDA É SEU, SE QUISER!

 

***~***FIM***~***

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