Citações

Tenha sensibilidade para o suave, humor para o alegre, atenção para o sábio e paciência para o cansativo.(Jane Austen)

Por Uma Noite Apenas - Capítulo XV

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CAPÍTULO 15

Esperar até o fim do expediente foi enervante. Mas ele se forçou a concluir 85% do que originariamente havia se programado para fazer hoje antes de sair da Editora e dirigir até a casa de Elizabeth.

Não iria permitir que a interferência de sua tia causasse problemas entre ele e Elizabeth. Do que conseguia se lembrar da sua infância e adolescência, a relação entre a sua tia materna e o seu pai sempre fora doentia.

Sempre que Catherine De Bourgh lhes fazia uma visita, agia como se fosse à verdadeira dona da casa – a legítima esposa. Mesmo após seu pai se casar de novo.

Darcy se lembrava muito bem da tensão palpável que ficava entre seu pai e sua madrasta após as visitas de Catherine. Claire Devine nunca aceitou bem o fato de seu pai não fazer nada para refrear a audácia de Catherine. E Darcy por muito tempo se perguntara o por quê.

Fora apenas aos doze, quase treze anos que teve algumas de suas dúvidas respondidas. Ao fim de mais uma visita de sua tia, que rendera uma briga feia entre seu pai e sua madrasta, Darcy entreouviu uma conversa entre uma das antigas empregadas da casa com uma mais nova a respeito do evidente triângulo amoroso em que o seu pai se encontrava envolvido.

- Você acha que o patrão e a sra. De Bourgh tem um caso? – A mais nova empregada perguntara.

- Psiu, menina! Não devemos conversar sobre estas coisas. Se a sra. Reynolds te escuta, você será despedida. – A empregada mais antiga replicou.

- A sra. Reynolds não está aqui. – A outra argumentou. – Vamos. Eu sei que você sabe de algo. Trabalha nesta casa há muito tempo.

- Desde a época da primeira sra. Darcy. – Disse, pensativa.

- Pois então. Com certeza sabe de algo. – A primeira garantiu e aguardou em expectativa.

A segunda olhou a sua volta para se certificar de que estavam sozinhas na cozinha antes de prosseguir. William que estivera com a intenção de roubar uns lanches para escapar do jantar com o pai e a madrasta, escondera-se na despensa e permanecera incógnito durante toda a conversa.

- O que eu sei é que o sr. Darcy, antes de conhecer a sua primeira mulher, a sra. Sofia, namorou a sra. Catherine. Eles se conheceram na Universidade e a sra. Catherine estava segura de que um dia se casariam. É o que todos diziam. – A mulher começou a contar, demonstrando uma animação com a fofoca que até então não havia emergido. – Mas ela o levou para casa, para conhecer a família, e o sr. Darcy se encantou pela sua irmã mais nova. Que sequer estava na Universidade ainda.

A outra empregada escutava tudo com bastante atenção.

- Então ele terminou com Catherine e cortejou a sra. Sofia, vindo a namorar, noivar e casar no espaço de três anos, quando a sra. Sofia iniciava o seu curso Universitário.

- Minha nossa!

- Pois é. Você pode imaginar a discórdia que havia entre as irmãs. Elas sequer se falaram por alguns anos. Até o dia em que a sra. Catherine se casou com o sr. Hugh De Bourgh. Que era um grande amigo do sr. Darcy.

- Ai, parece né, que os dois amigos decidiram se unir para acabar com a rusga entre as irmãs e elas, por fim, fizeram as pazes. Passando uma a frequentar a casa da outra, dividir segredinhos.

- Mas então o sr. Hugh De Bourgh morreu no acidente de avião e a sra. Catherine voltou a ficar estranha de novo. E mais ou menos um ano depois o sr. e sra. Darcy se separaram. Então a sra. Catherine passou agir deste jeito, sabe? Como se fosse a substituta da irmã.

- E é assim que age desde então. Como se ela fosse a esposa e não a outra.

- Mas você acha que eles têm um caso? Que sempre tiveram um caso? – A empregada mais nova inquiriu, excitada.

- Ahh não. Acho que não. – A outra respondeu, para o desânimo da primeira. – Acho que são apenas fantasias da cabeça da sra. Catherine. É de se esperar que uma mulher do seu estirpe saiba se conduzir melhor. Afinal, o homem teve a chance de casar com ela duas vezes e nem por isso o fez! Mas ela prefere continuar a se iludir, fazer o que?

- Não sei não. Uma mulher assim não se ilude à toa. O sr. Darcy deve tê-la encorajado de alguma forma.

- Mas é claro. Essa atitude indiferente dele é o mesmo que uma aprovação para ela continuar agindo da mesma forma. – A outra concordou. – Mas isso não quer dizer que ele tenha um caso com ela.

Ela fez uma pausa para pensar, depois disse.

- O sr. Darcy pode ter muitos defeitos. É negligente como marido e pai, mas ele não é infiel. Quando se compromete com algo, ele o cumpre. É claro, no momento em que ele desejar substituir a sra. Claire na cama, a substituirá completamente em sua vida também.

- Como fez com a primeira sra. Darcy. – A outra pontuou, pescando uma nova fofoca.

- Ahh não, não! Foi ela quem o deixou. – A segunda replicou. – E eu juro, nunca vi um homem ficar tão arrasado. Acho que foi aí que sra. Catherine se aproveitou da sua inércia para dominar, ou pelo menos, tentar dominar a vida do sr. Darcy.

- E por que foi que ela o deixou, hem?

Darcy balançou a cabeça, para apagar aquelas lembranças. Não queria pensar no motivo para ter sido abandonado pela mãe tão sumariamente.

Estacionou o carro enfrente ao prédio de Elizabeth e foi até o apartamento dela. Ao bater a porta, foi recebido por Elizabeth. Ela o fitou nos olhos, surpresa, e estava preste a cumprimentá-lo; Darcy a puxou pelo braço para fora do apartamento e deu-lhe um beijo ardente.

- Uau... – Elizabeth murmurou, quando ele a deixou respirar.

- Por que você não atendeu ao seu celular? – Darcy inquiriu, sério.

Ele a observou suspirar, sair de seus braços, para depois encará-lo e dizer.

- A sua tia esteve no meu trabalho... – Mas nem precisou continuar.

- Eu sei. – Darcy a interrompeu. – Ela veio até o meu também. Mas isso não explica o porquê de você não atender ao seu celular.

- Eu não queria discutir com você. – Elizabeth explicou, mas calma do que realmente se sentia ao se lembrar da provação por qual passara.

A sra. Gardiner fora procurá-la uma segunda vez, solicitando a sua presença no escritório do sr. Gardiner. Ao chegar lá, deparou-se com o sr. Gardiner com os contratos e o cheque que a sra. De Bourgh deixara para trás em mãos.

Elizabeth nunca se sentiu mais humilhada do que quando precisou explicar ao patrão que se tratava de um assunto pessoal e não relacionado com trabalho, ou a Editora em si.

- Eu não estava ligando para você para discutir, Elizabeth. – Darcy refutou.

- Mas eu estava chateada e acabaria discutindo com você. E a única coisa que eu não precisava no momento era de outro escândalo no meu trabalho. – Elizabeth explicou, frustrada.

- O que quer que a minha tia tenha lhe dito, apenas ignore. – Ele aconselhou.

- Ignorar? – Elizabeth inquiriu, incrédula.

- É o que eu faço. – Darcy replicou com simplicidade.

- Desculpe-me. Mas eu não consigo ignorar a humilhação que a sua tia me fez passar na frente de meus colegas de trabalho e, pior, do meu patrão. – Ela se exaltou, irritada.

Dando-lhe as costas, adentrou no apartamento. Darcy a seguiu, erguendo a mão automaticamente para impedir que a porta batesse em sua cara caso Elizabeth tentasse expulsá-lo dali.

Mas ela não o fez. Seguiu diretamente para o seu próprio quarto, sem se incomodar de checar se Darcy ainda a estava acompanhando.

Quando Darcy surgiu à porta de seu quarto, encontrou-a a remexer em alguns papéis dentro de uma pasta. Ela retirou dois documentos da pasta e um papel menor de dentro da própria bolsa, entregando-os a Darcy.

- A sua tia foi ao meu trabalho para me dar isso... – Com ironia, adicionou. – Ela estava bastante determinada a me manter fora da sua vida.

Darcy examinou os documentos, mudo. E relanceou o olhar pelo papel menor, descobrindo se tratar de um cheque. Franzindo o cenho, contrariado com aquelas evidências do comportamento errático de sua tia.

- Eu precisei explicar ao sr. Gardiner, meu chefe, o que exatamente era isso. Já que, ao ir embora, a sua tia largou tudo sobre a mesa dele, em seu escritório! – Elizabeth voltou a se exaltar, não se incomodando em esconder a sua raiva.

Darcy ergueu o olhar para ela, depois lhe deu as costas e saiu do quarto. Levando consigo os documentos e o cheque. Elizabeth o seguiu, perguntando-se o que ele pretendia fazer com aquilo.

Darcy atravessou o corredor até outra porta e entrou no banheiro. Quando Elizabeth apareceu no batente, encontrou-o a rasgar os documentos e cheque em pedacinhos e jogá-los na lata de lixo, claramente revoltado.

- Era isso o que você já devia ter feito. – Darcy anunciou, zangado. – Este relacionamento é nosso, Elizabeth. A opinião, desejos e vontades da minha tia não significam nada para mim.

- Não faz muito tempo os seus desejos coincidiam com os dela. – Elizabeth pontuou, ainda guardando mágoas passadas.

Darcy se aproximou dela.

- O que eu lhe disse naquele dia foi da boca para fora. – Afirmou, conciliador. – Eu estava irritado porque você me rejeitou. Mas eu nunca tive a intenção de seguir em frente com aquela ameaça. – Explicou-se. – Eu nunca tiraria o nosso filho de você. Não seria capaz de fazer uma crueldade como esta com o meu próprio filho.

Elizabeth sentiu-se aliviada ao ouvir isso dele; não tinha percebido, até este momento, o quanto aquela ameaça ainda a perturbava.

Darcy percebeu isto e lhe fez um carinho no rosto, consolatório.

- Eu quero te pedir uma coisa. – Ele disse, num murmúrio carinhoso.

- Peça. – Ela respondeu, prontamente. Erguendo aqueles olhos amendoados para ele.

- Da próxima vez que não quiser ou não puder falar comigo, atenda ao telefone e me diga isso. Não finja que eu não estou ligando. Eu odeio ser ignorado!

Ele disse esta última frase com tanto vigor, mágoa e ressentimento que Elizabeth soube que ele falava por experiência.

- Tudo bem. Eu não vou mais fazer isso. – Prometeu.

- Está certo.

Os dois ficaram em silêncio. Até que Darcy perguntou, com a voz mais suave, sem vestígios da discussão anterior.

- Vem para casa comigo? – Com um ar carente.

- Por que não podemos ficar aqui? – Ela questionou, curiosa com o fato de ele sempre preferir levá-la para a casa dele. – Não gosta do meu apartamento?

- Honestamente? Sua cama é muito pequena para nós dois. – Darcy replicou, tranquilo. – E você precisa ficar confortável. – Lançando um olhar divertido à sua barriguinha.

- Está certo. Eu vou com você, mas com uma condição: nós temos que jantar aqui. – Elizabeth respondeu, depois de pensar por uns segundos. – É que eu estava com desejo esta manhã de comer lasanha e Jane, minha querida irmã, fechou a floricultura mais cedo para vir para casa e me fazer uma lasanha. – Explicou, contente como uma criança que acabou de ganhar um presente inesperado. – E eu estou com a boca salivando desde que cheguei.

- Tudo bem. – Ele respondeu, sorrindo e acariciando a barriguinha de 3 meses.

Ela, prontamente, pegou-o pela mão e o arrastou para a cozinha. Onde o cheiro delicioso da lasanha impregnava o ambiente.


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