Citações

Para que vivemos, senão para motivo de riso aos que nos cercam e rir deles quando chega nossa vez? (Jane Austen)

Colisão - Capítulo XLIX

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Capítulo XLIX

Família - Parte II

 

William chegou ao The Lanesborough Hotel e seguiu direto para o restaurante Apsleys[1]. Heinz Beck, detentor de três estrelas Michelin em La Pergola, em Roma, é o chef deste famoso restaurante italiano, trazendo para o seu cardápio um leve sabor do Mediterrâneo.

O sr. Darcy já o esperava acomodado em uma mesa. Ao sentar-se, um garçom imediatamente surgiu ao seu lado e ofereceu-lhe um menu, aguardando a sua escolha de bebida.

Após ser servido e feita a escolha de pratos, o garçom os deixou a sós. Pai e filho se fitaram em silêncio, em um impasse. Parecia que nenhum dos dois estava disposto a ser o primeiro a falar.

--A sua mãe... – O sr. Darcy dizia.

--Pediu-me para vir aqui conversar com o senhor. – William o interrompeu. – Disse-me que o senhor queria conversar comigo, desculpar-se.

O sr. Darcy ergueu uma sobrancelha, enervado. Como se lhe dissesse, com aquele olhar, que a última coisa que pretendia fazer era se desculpar.

--É verdade que eu desejava conversar com você. – Alexander afirmou, escolhendo bem as suas palavras. – Tentar descobrir a razão por detrás de seu comportamento.

--Eu não esperava nada diferente do senhor. – William objetou, sarcástico, sorvendo um gole de sua bebida.

--Por que você se casou, William? – Alexander inquiriu, sem rodeios.

--Por que as pessoas se casam, meu pai? – William retorquiu, depositando o copo de uísque sobre a mesa.

--Vários motivos. – Alexander afirmou, calmo; como se estivesse determinado a não se irritar independente das respostas malcriadas que recebesse de seu filho.

--Excluindo os motivos mercenários, qual é o motivo mais comum para um casamento? – William indagou, não desistindo da sua postura atrevida.

--Amor. É esta a resposta que você quer ouvir? – O seu pai perguntou-lhe, começando a ficar impaciente. – Quer mesmo que eu acredite que você ama esta garota?

--Elizabeth não é uma garota qualquer. É a minha mulher. E sim. Eu a amo. – William respondeu, fervoroso.

O garçom se aproximou da mesa, interrompendo a conversa, e começou a servi-los. Assim que ele se afastou, o sr. Darcy disse.

--Vocês mal se conhecem. Como você pode amá-la? – Contestando a afirmação do filho.

--Eu não sei. Diga-me o senhor: quanto tempo o senhor demorou a saber que amava a minha mãe após conhecê-la? – William contrapôs.

--As coisas eram diferentes naquele tempo. – Alexander rebateu.

--Os sentimentos continuam sendo os mesmos. – William revidou.

O sr. Darcy ignorou a sua resposta e partiu para outro argumento.

--Você namorou Anne por anos sem sequer considerar um noivado. Esta mulher entra na sua vida há poucos meses e você decide se casar. Simples assim?!

--O senhor nunca se perguntou por que eu não pedi Anne em casamento? Nem mesmo quando ela me deu um ultimato? – William interrogou-o.

--Claro que sim. – Alexander replicou. – Mas preferi não interferir. Imaginei que vocês dois conseguiriam se acertar com o tempo e... eventualmente se casariam. Porque ela é a mulher certa para você, William.

--Ela não é, meu pai. – William replicou, levemente exaltado. – Anne é uma mulher maravilhosa. Eu não tenho intenção alguma de negar isto. Mas ela não é a mulher certa para mim. – William fez uma pausa, para recobrar o controle de si mesmo antes que aquela discussão chamasse a atenção de outras pessoas. – Eu nunca amei Anne. Eu tentei... Nestes nove anos juntos, eu realmente tentei. Mas nunca a amei.

Seu pai permaneceu em silêncio. Esta era a primeira vez que conversavam sobre este assunto e o sr. Darcy estava muito interessado em finalmente descobrir o que dera errado na relação que todos acreditavam ser perfeita.

--Foi por isto que ela terminou comigo. – William continuou a falar, com o tom de voz controlado e sério. – Ela sabia que se nós continuássemos juntos, eu acabaria a pedindo em casamento, embora não a amasse. E ela teria aceitado. Nós teríamos nos casado, tido filhos e vivido relativamente felizes um com o outro. Mas eu não a amaria.

Seu pai permaneceu em silêncio, surpreso com o que estava ouvindo.

--Foi por isso que ela terminou e foi por isso que eu nunca tentei reatar o namoro. – William afirmou. – Com Elizabeth é diferente.

--Por quê? – Alexander perguntou, inconformado com o que ouvia. – Por que com ela é diferente?

--Porque ela é diferente. – Foi a resposta de William. – O senhor não conhece Elizabeth. Só o que consegue enxergar quando olha para ela é uma modelo. Se deixando influenciar pela opinião preconceituosa que Catherine faz de Elizabeth, porque acredita que ela me roubou de Anne. Quando eu só conheci Elizabeth muito depois de ter terminado com Anne.

Alexander deu um suspiro e voltou a sua atenção para o seu prato de comida, finalmente começando a almoçar. Após levar a primeira garfada a boca e degustar a comida, ergueu o olhar para o filho e disse.

--Digamos que você esteja certo e eu tenha sido “mal influenciado” em relação a ela. – Declarou, como se estivesse dispondo de uma hipótese remota. – Convença-me de que estou errado. Diga-me o que há de tão diferente nela que te atrai tanto assim.

--Tudo. – William afirmou, veemente. – Tudo a seu respeito me atrai. – Com um olhar perdido, ele continuou. – Até mesmo quando ela não parecia gostar muito de mim e fazia de tudo para me provocar, me enfrentava com os seus comentários sarcásticos... Até mesmo quando ela me chamou de arrogante... Eu gostei.

Ele voltou a focar o olhar no pai, já com um meio sorriso bobo no rosto, encontrou o pai com uma expressão de assombro – as duas sobrancelhas erguidas.

--Eu não queria me envolver com ela, pai. Eu tentei lutar contra o que eu sentia. Mas não adiantou de nada. – William prosseguiu, encolhendo os ombros. – Então eu desisti de lutar contra e decidi conquistá-la. E desta decisão eu não me arrependo.

--Ela te chamou de arrogante? – Foi tudo o que Alexander conseguiu pronunciar, ainda incrédulo quanto ao que ouvia.

--Sim. Na minha cara, disse que eu era orgulhoso e arrogante. – William confirmou. – Eu a ofendi quando nós nos conhecemos... Como o senhor, eu não enxergava nada além da modelo. Presumi que ela era fútil e egocêntrica. Alguém que só pensava em chamar atenção, que só se preocupasse com as aparências. E ela me pôs no meu lugar. Com classe, devo dizer.

--Posso imaginar. – Alexander disse, pensativo, lembrando-se do jantar em sua casa.

--Quando nós nos separamos no ano passado, eu percebi que nada mais seria como era antes. Que todas as certezas que eu tinha, especialmente com relação ao rumo da minha vida, não faziam mais sentido algum para mim. Ela tinha mudado tudo. – William prosseguiu com as explicações. – O senhor não sabe a tortura que foi ficar longe dela... O inferno que era saber que ela existia e não era mais minha.

Alexander tinha desistido de comer e apenas fitava o filho, como se não conseguisse reconhecê-lo.

Sacudindo a cabeça, recuperando o controle de si mesmo, inquiriu.

--E quanto ao envolvimento dela com George Wickham?

--Elizabeth nunca se envolveu com ele. – William contestou, dentes cerrados.

--Não foi a impressão que você deu no ano passado. Nos fez crer que terminaram por causa dele. – Alexander argumentou.

--De certa forma, sim. Mas não porque ela estava envolvida com ele. – William explicou.

Ponderando se não teria sido esta a razão porque seu pai fora tão injusto com Elizabeth no jantar em sua casa. Poderia ser que a impressão errada que possuía de Elizabeth se dava mais pela crença de que ela esteve envolvida com Wickham, ao invés de qualquer afronta proferida por Catherine De Bourgh a seu respeito.

--Elizabeth mal o conhecia. Ele era apenas o instrutor do curso de fotografia que ela estava tomando. E ele a usou para me atingir. Contando-lhe mentiras ao meu respeito.

--E ela preferiu acreditar nele. – Seu pai pontuou, agarrando-se a qualquer desculpa para ficar contra Elizabeth.

--Ela quis saber a verdade de mim, mas eu me recusei a lhe dar qualquer explicação. – William arguiu. – Me recusei a contradizer qualquer coisa que ele pudesse ter dito e exigi que ela parasse de me fazer perguntas. Exigi que ela confiasse em mim.

--Ela deveria ter confiado. – Seu pai declarou, resoluto. Para ele não havia dúvidas quanto a quem ela devia acreditar, principalmente em se tratando de George Wickham.

--O senhor se esquece que Elizabeth não fazia idéia do crápula que Wickham é. E eu não fiz muito para ajudá-la a enxergar isso. – William alegou, adivinhando os seus pensamentos. – Eu acredito que se eu tivesse conversado com ela direito naquela noite ou, ao menos, não tivesse dito tudo o que disse, nós não teríamos nos afastado.

--E você contou a ela a respeito de Georgiana? – Seu pai quis saber; deduzindo que se eles reataram, William deve ter dado a explicação que Elizabeth queria.

--Não, não contei. Pelo menos, não com detalhes. – William afirmou. – Eu lhe disse apenas que ele tinha se aproveitado da minha irmã e isso foi tudo o que Elizabeth precisou ouvir de mim.

--Bom, pelo menos isso... – Alexander começou a dizer, mas se deteve. Embora William já houvesse compreendido o teor de seu comentário.

Ele sabia muito bem que todos em sua família preferiam enterrar aquele assunto, embora Wickham fizesse de tudo para revivê-lo.

Eles ficaram em silêncio e dedicaram os minutos seguintes a comer. Até que Alexander questionou, entre uma garfada e outra.

--Por que o casamento em Las Vegas? O que você temia? Que eu interferiria se vocês ficassem noivos e decidissem se casar aqui?

--Não. Para ser sincero, eu não pensei no senhor em momento algum. – William disse. – Eu não pensei em mais ninguém.

Seu pai abaixou o garfo a meio caminho da boca e fitou William, levemente boquiaberto.

--O senhor pode pensar que foi irresponsabilidade da minha parte, mas a verdade é que eu fui egoísta. – William continuou com a explicação. – Eu a pedi em casamento, Elizabeth aceitou e, ao invés de esperar voltar para casa para fazer planos, eu agi. Eu a levei a uma Capela e nós nos casamos, num impulso. Porque eu não tinha dúvidas quanto ao que eu queria.

--Ela. – Seu pai pontuou.

--Sim. Ela.

Alexander voltou a comer, pensativo. Até que inquiriu.

--E quanto ao meu neto?

--Elizabeth não está grávida, meu pai. – William replicou, um pouco impaciente.

--Sim. Mas vocês pretendem ter filhos? – Seu pai interrogou, preocupado. – Ela é modelo, pode não querer ter filhos. Você já pensou nisso?

--Ela quer ter filhos. Só não agora. – William respondeu.

--Humm... – Alexander resmungou.

--O senhor parece decepcionado. – William comentou, estranhando a atitude do pai.

--Decepcionado? Não. – Alexander negou, soando pouco convincente. – Acho inteligente que vocês tenham decido esperar para ter filhos. Se certificarem de que o casamento vai dar certo antes de trazer uma criança ao mundo.

--Eu não vou me separar de Elizabeth. – William afirmou, voltando a ficar irritado.

--Depois de tudo o que eu ouvi hoje, você realmente acha que eu vou alimentar vã esperança de que você deseje se separar dela? – Seu pai retorquiu, impaciente.

Eles terminaram de almoçar juntos em silêncio. Ambos absorvendo o conteúdo daquela conversa e processando os fatos dispostos.

À saída do Hotel, antes de se separarem, Alexander lhe fez uma última pergunta.

--Ela irá a Milão com você?

--Ainda não. – William respondeu. – Elizabeth tem os seus próprios compromissos aqui, com a Agência de Modelos. Irá ao meu encontro depois. Por quê?

--Hum... Curiosidade.  – Seu pai respondeu, pensativo.

~#~

Mary ergueu o olhar para suas duas irmãs mais novas, as quais estavam paradas ao seu lado, cochichando entre si e dando risinhos espevitados. Marcando a página que estava lendo de Jane Eyre de Charlotte Brontë, perguntou-lhes.

--Por que vocês duas estão aqui embaixo? Quando mamãe pediu para uma de nós ficar aqui na recepção hoje mais cedo, nenhuma das duas se voluntariou.

A recepcionista da Agência estava doente e não pudera vir trabalhar.

--Mas você reclama de tudo, hem, Mary! – Lydia retorquiu. – Só estamos tentando ajudá-la. Você parece estar... precisando. – Completou, com um sorriso satisfeito, ao direcionar o seu olhar para a pessoa que acabara de cruzar a porta de entrada da Agência e se dirigia ao balcão da recepção.

--Boa tarde. – A voz masculina com um sotaque americano fez com que Mary redirecionasse o seu olhar para o recém-chegado.

O rapaz tinha cabelos louro escuro, curto e espetado para cima, olhos castanhos esverdeados, uma barba rala cobrindo o queixo quadrado. Vestido com uma calça jeans surrada, blusa de algodão e jaqueta de couro preta.

--Estou procurando por... – Ele ergueu a mão e leu em um cartão de negócios. – Lilian Gardiner ou Anita Bennet.

--Está aqui para a sessão de fotos? – Mary perguntou-lhe, ignorando a agitação má contida de suas irmãs ao seu lado.

--Sim. – O rapaz respondeu, tranqüilo.

Mary ergueu a mão para a prancheta com a lista, mas Lydia foi mais rápida que ela.

--Coloque seu nome nesta lista e aguarde. Você logo será chamado. – Recomendou, jogando seu charme para cima do rapaz.

O rapaz ergueu aceitou a prancheta. Erguendo a outra mão, ele depositou um capacete de moto sobre a bancada da recepção e aceitou a caneta que Catherine lhe oferecia, igualmente prestativa. Então, assinou o seu nome e devolveu a prancheta. Lydia e Catherine pegaram a prancheta ao mesmo tempo e iniciou-se uma pequena disputa para ver com quem a prancheta ficaria dali em diante.

--É por isso que vocês duas estão aqui. – Mary declarou em alto e bom som, dando um tapa na própria testa. – Para ficar paquerando os novos modelos contratados da Agência.

--Cala a boca, Mary. – Lydia a repreendeu, mas sem muita efusão. Não dando muita importância ao ultraje da irmã quanto ao seu comportamento e ao de Catherine. – E eu fico com isso. – Concluiu, dando um puxão forte e arrancando a prancheta da mão de Catherine.

--Me dê isso e vão procurar o que fazer. – Mary ordenou, erguendo a mão para a prancheta. Mas Lydia a ignorou, tirando a prancheta de seu alcance.

--Por que você não volta a ler o seu livro e a sonhar com Sr. Rochester lá em cima, no seu quarto novo? – Interrogou, com um tom ácido que demonstrava que ainda não se conformara por não ter ficado com o quarto que era de Elizabeth. – Pode deixar que nós cuidaremos da recepção. – Lydia sugeriu.

--Você andou lendo os meus livros? – Mary interrogou, impressionada.

--Pra que eu vou perder tempo lendo livro? – Lydia retorquiu.

--Existe a minissérie, sabia? – Catherine argumentou.

Mary disse para si mesma para não ficar decepcionada, que já devia estar esperando por esta resposta. Mas, ainda assim, ficou. Ela realmente tinha esperanças que suas irmãs despertassem para as coisas boas da vida, além das festas vazias e programas de televisão sem conteúdo. Principalmente depois de ter visto Catherine lendo alguns livros quando Lydia não implicava com ela.

Mary estava voltando sua atenção para o livro, quando o seu olhar recaiu sobre o mesmo rapaz com o sotaque americano. Ele havia se afastado um pouquinho do balcão da recepção e percorria a sala com o olhar, procurando um lugar vago entre as poltronas para se sentar.

A recepção da agência estava apinhada de rapazes como ele, todos ali com o mesmo propósito. Participar da seleção dos novos modelos masculinos da Agência. Sua tia Lilian tinha passado os últimos dois meses procurando por novos rostos para contratar e agora chegara à última etapa, o teste crucial: se o rosto bonito teria talento e carisma suficiente ao interagir com a câmera.

O rapaz localizou um lugar vago e, antes de se dirigir para lá, enfiou a mão no bolso da calça e retirou um maço de cigarro.

--Você não pode fumar aqui. – Mary avisou.

Fazendo-o voltar sua atenção para ela por um segundo, antes de elevar o olhar para a parede às suas costas e depois relanceá-lo ao seu redor.

--Não vejo nenhum cartaz de “Proibido Fumar”.  – Contestou.

--Por isso estou avisando. – Mary retorquiu. – Se você é adepto ao suicídio, por favor, dirija-se a porta da rua e se mate lá fora. – Indicando a porta de entrada da Agência.

O rapaz olhou para ela como se a estivesse vendo pela primeira vez e sorriu com canto da boca. Depois olhou para a porta da Agência e, em seguida, para o maço de cigarro em sua mão, como se ponderasse as opções.

--Você irá ter uma morte lenta e dolorosa. – Mary comentou, fazendo-o erguer o olhar para ela de novo.

--Obrigado pelo aviso. – Ele disse, cínico.

Voltando-se para a sala, recolocou o maço de cigarro no bolso. Localizando outro assento vago próximo ao balcão da recepção, ele foi se sentar, pousando o capacete no joelho. De onde estava, tinha uma vista clara e desobstruída de Mary.

--Mary, isto foi muito rude. – Catherine a reprovou.

--Não me admira que até hoje você não tenha conseguido um namorado. – Foi o comentário maldoso de Lydia. – Nenhum rapaz vai querer te beijar se você continuar agindo assim!

--Beijá-lo deve ser a mesma coisa que lamber um cinzeiro. Então, eu dispenso. – Mary rebateu, voltando a abrir o livro na página marcada. Mas paralisou-se ao ouvir uma risada baixa e abafada, fazendo-a reerguer a cabeça e olhar na direção do objeto da discussão entre as irmãs.

Os dois se fitaram em duelo, ela séria e ele com aquele mesmo sorriso presunçoso de canto de boca.

--Ele te ouviu. – Catherine murmurou, constrangida.

Mary encolheu os ombros, indiferente, e voltou a baixar o olhar para o seu livro.

--Que fim levou aquele carinha de quem você gostava, Mary? – Lydia a interrogou, batendo a prancheta no balcão da recepção e se debruçando sobre ela, de forma a deixar o decote de sua blusa mais a vista para os rapazes sentados mais próximos da recepção. – Ele já te beijou de novo? Te chamou para sair? – Diante do silêncio soturno da irmã, Lydia virou o rosto na sua direção. – Não? – Questionou, convencida. – O que foi que você fez de errado? Porque... bonitinha até que você está agora. Não é, Kitty?

--É... Bonita você está mesmo. – Catherine concordou.

--Então não pode ser isso. – Lydia prosseguiu. – O que você fez de errado, então? Ofendeu-o também?

Mary não ergueu o olhar para nenhuma das duas. Sentia os olhos pinicarem e mal via as palavras impressas do livro pela cortina nebulosa das lágrimas mal contidas. Aquela sensação angustiante, do nó crescendo na garganta somado às lágrimas não derramadas, era inteiramente nova e apavorante. Nunca tinha se encontrado na situação de estar preste a se debulhar em lágrimas porque alguém mencionara um garoto antes. E não sabia como reagir a isto.

--Anda, Mary. Diz aí. O que foi que você fez? – Lydia demandou.

--Não me enche! – Mary resmungou, baixinho, tentando disfarçar a voz chorosa e falhando miseravelmente.

O silêncio que recaiu entre elas foi pesado. Segundos depois, Mary sentiu a mão de Catherine nas suas costas, acariciando-a com movimentos leves – para baixo e para cima. Numa tentativa muda de consolá-la.

E, quando outro rapaz entrou na Agência e se dirigiu ao balcão da recepção, Lydia tomou a frente de Mary, bloqueando a visão de qualquer um de sua irmã naquele estado, e atendeu o rapaz. Mas sem aquele mesmo ar de flerte de minutos antes.

~#~

William parou o carro próximo ao meio-fio enfrente ao prédio em que funciona o estúdio de gravação, onde Elizabeth estava filmando um comercial de perfume, e Elizabeth embarcou no carro. Assim que ela fechou a porta do passageiro, William retirou o carro da vaga, retomando as ruas de Londres. Seguindo o caminho para o Aeroporto Gatwick.

--Você foi? – Foi a primeira pergunta de Elizabeth, assim que se acomodou no banco e prendeu o cinto de segurança.

--Fui. – William respondeu, com o olhar focado na direção.

--E como foi a conversa? – Ela inquiriu.

William encolheu os ombros, displicente, e replicou.

--Nós conversamos.

Elizabeth percebeu que ele não iria entrar em detalhes. E, ao invés de pressioná-lo por uma explicação, decidiu deixar as coisas como estavam. Pelo menos, conseguira fazê-lo ir ao encontro e conversar com o pai. E, pela expressão de William agora, a conversa não deve ter sido tão ruim. Senão ele estaria muito zangado, o que ele não estava.

--Você conversou com sua mãe, acertou tudo para a viagem? – Ele perguntou, dirigindo-lhe um breve olhar antes de se focar na direção de novo.

--Sim. Eu conversei com minha mãe e com a minha tia Lilian. – Elizabeth esclareceu. – É a minha tia quem cuida da agenda das modelos, fazendo as contratações. E ela já marcou na minha agenda o período da semana em que estarei em Milão com você. – Elizabeth ergueu a mão e acariciou os cabelos de William. – Jane fez o mesmo pedido, para que ela também possa ir ao encontro de Charles.

--Bingley vai ficar contente em saber disso. – William comentou, alcançando a sua mão, entrelaçando os dedos com os seus e trazendo a mão de Elizabeth até a sua boca, para poder beijá-la.

Esse gesto simples acalmou o coração de Elizabeth, permitindo-a soltar o suspiro que estava prendendo. William parecia relaxado e isso lhe deu alivio de que a conversa com o seu pai acalmara o seu gênio. De que ela não precisava mais se preocupar com isso.

~#~

No decorrer da tarde, Lydia e Catherine cansaram-se do papel de irmãs prestativas e abandonaram Mary sozinha à recepção. Mary ficou aliviada. Desde aquele momento esquisito mais cedo, ela não estava conseguindo encarar as duas irmãs mais novas.

Além do mais, o trabalho na recepção estava ficando cada vez mais calmo. À medida que as horas passavam, os modelos iam indo embora após a sua sessão de fotos. E o telefone pouco tocava. Permitindo que Mary pudesse se concentrar em seu livro.

--Sua tia já ligou? – A sra. Bennet surgiu na recepção.

--Não, mãe. – Mary respondeu, abaixando o livro e erguendo o seu olhar para ela.

--Bem, se ela ligar... me chame. – Sua mãe reafirmou o que já havia lhe dito pelo menos duas vezes.

Sua tia Lilian tinha saído no meio da seleção dos modelos masculinos após uma ligação de um dos contratantes da Agência. Uma das modelos contratadas da empresa para um evento automobilístico esta tarde estava criando problemas durante o evento. E Lilian precisou ir até o Centro de Exposições dos Carros de Luxo da Mercedes para lidar com a modelo problemática. Deixando Anita Bennet de sobreaviso que ligaria para informar sobre a situação por lá.

A sra. Bennet pegou a prancheta, fez uma marca ao lado de um nome e chamou o seguinte.

--Graham MacNamara.

O rapaz americano se levantou e seguiu a sra. Bennet até outra sala, o estúdio fotográfico.

Por curiosidade, Mary puxou a prancheta com os nomes dos modelos e observou as marcas que sua mãe fizera naqueles que já havia passado pela seleção. Ao lado de alguns nomes havia uma cruz e de outros uma estrela. Mary deduziu que a cruz devia significar um fracasso, por associá-la a morte, e a estrela significava sucesso, por o modelo demonstrar ter talento. Mary contou mais fracassos, que sucessos.

Cerca de meia hora depois, o telefone tocou e Mary atendeu. Era Lilian Gardiner e ela queria falar com a sra. Bennet. Mary abandonou a recepção sozinha e seguiu para o estúdio fotográfico. Abriu a porta e entrou, o que viu a fez ficar paralisada.

Mary já vira publicidade de roupas masculinas antes. Pior, já vira imagens de homens nus em livros e filmes. Mas, de alguma forma, ver um homem seminu na sua frente era diferente. Até mesmo chocante, já que ela não imaginava que ao abrir a porta do estúdio iria vê-lo – o americano – vestindo com nada mais, nada menos, que uma cueca azul marinho.

Então, perdoem-na por ficar ali parada, olhos vidrados e ligeiramente boquiaberta.

--Mary, o que foi? – Sua mãe perguntou ao notá-la ali. – Mary!

--O que? – Mary despertou do seu devaneio e fitou a mãe, corando até as raízes do cabelo. – Hah... é... Tia Lilian no telefone... para senhora. – Respondeu, atordoada.

Se sua mãe percebeu seu estado, decidiu ignorar. Porque passou por ela e saiu do estúdio como um raio. Deixando Mary para trás, ainda paralisada.

Quando Mary voltou a olhar para o americano, ele estava olhando para ela. Nenhum pouco constrangido. Pelo contrário, tinha aquele mesmo sorrisinho presunçoso de canto de boca.

Mary deu-lhe as costas e fugiu dali o mais rápido que conseguiu.

 

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