Capítulo XLVII
Nada faz sentido
Catherine não saberia explicar como, em poucos dias, sua vida sofrera aquela reviravolta. Há menos de duas semanas estava felicíssima com o seu namoro com Zackary e já não pensava mais em Robbie. O via pelos corredores e ocasionalmente trocavam algumas palavras. Nada muito íntimo ou significativo.
Na primeira semana de avaliações escolares um boato a respeito do fim do namoro de Robbie e Lexi começou a circular pela escola. E, estranhamente, Robbie passou a procurar por sua companhia sempre que se cruzavam pelos corredores. Em conseqüência, além dos olhares azedos que Lexi lançava em sua direção, Catherine ainda passou a ouvir muitas brincadeirinhas de Lydia e Sunny.
Para a irmã e a amiga, Robbie terminara com Lexi por sua causa e agora Catherine teria que escolher entre a sua paixão platônica ou seu namorado gatinho.
Ora, Catherine não queria se deixar levar por estas suspeitas. Mas quanto mais Robbie vinha ao seu encontro para conversarem sobre qualquer coisa, mais Catherine se preocupava quanto ao que lhe dizer caso ele viesse a se declarar. Afinal, sabia agora, sem sombra de dúvida, que estava apaixonada por Zackary. E nunca o trocaria por Robbie, por mais que o considerasse um menino lindo e o seu sorriso ainda fizesse o seu estômago dar uma cambalhota.
Mas sua surpresa foi maior ainda quando, em uma destas ocasiões em que estava conversando com Robbie, ele começou a fazer perguntas a respeito de Lydia. “Ela estava namorando alguém? Ou gostando de alguém que ele conhecesse? Qual era o tipo de menino por quem ela se interessava? Será que ele teria uma chance com ela se a convidasse para um cineminha?”
Enquanto fazia de tudo para responder as suas perguntas sem demonstrar seus sentimentos, Catherine sentia o veneno circulando por suas veias e contraindo o seu estômago. Afinal, fora uma boba por acreditar que ele poderia mesmo se interessar por ela. Quando aquele tempo todo ele estivera se apaixonando pela sua irmã! Por que ela estava tão surpresa? Todo mundo não preferia Lydia, mesmo? Até mesmo a sua mãe!
Tentando convencer a si mesma para ser benevolente, comentou com Lydia a respeito das perguntas de Robbie. Catherine não seria injusta com Lydia. Nunca a vira paquerar Robbie, então ela não poderia ser culpada pelo interesse súbito de Robbie por sua pessoa.
--O que você vai responder quando ele te chamar para sair? – Foi a pergunta que Sunny fez a Lydia após ouvirem o seu relato.
--Não sei. – Lydia tinha dito. – Robbie é gatinho, mas eu nunca tinha pensado nele deste jeito. – Lydia confessou. – Afinal, você era louca por ele! – Apontou, olhando para Catherine significativamente.
--Mas Kitty já tem Zack! – Sunny contestou. – Não se importa, não é? – Interrogou Catherine.
--Claro que não! – Catherine mentiu abertamente, corando. Já que, dizia a si mesma, não devia mesmo se incomodar com isso. – Pode ficar com ele, se quiser. – Acrescentou, fitando a irmã. – Você quer? – Perguntou, posteriormente, temerosa.
--Talvez. – Lydia replicou, séria. Depois sorriu. – Eu vou pensar.
E no mesmo dia, quando ele a chamou para sair, ela aceitou.
Para piorar tudo, das ultimas três vezes em que Zackary viera esperar por ela na saída da escola, encontrara-o conversando amigavelmente com Lexi. Sentados em um baquinho de praça, do outro lado da rua enfrente ao seu colégio. Ela se insinuava para ele e Zackary era todo sorrisos e charme.
Quando ele a via, agia como sempre. Acercava-se dela, beijava-lhe – já não mais no cantinho da boca, mas inteiramente nos lábios – e dava sua total atenção a ela. Catherine fingia que não tinha nada de errado com a cena que presenciara antes e ficava tudo igual. Mesmo que, por dentro, ela já começasse a perder a paciência.
Hoje, no entanto, quando saiu da escola acompanhada por Sunny e Lydia – quem conversava com Robbie a respeito do filme que pretendia ver no cinema aquele fim de semana – e encontrou Zackary naquele mesmo baquinho conversando com Lexi, a raiva acumulada dentro dela explodiu.
Assistiu Lexi erguer a mão até o cabelo de Zackary e afastar as mechas que recaiam em sua testa, num gesto de intimidade, e fulminou-os com o olhar.
--Vamos, Lyd? Eu estou com fome, quero ir para casa. – Declarou, chamando a atenção da irmã.
--Você não vai falar com Zack? – Robbie questionou-a. – Ele está bem ali. – Apontando-o.
--Tchau, Robbie. – Catherine replicou, ignorando a sua pergunta a respeito de Zackary.
Em seguida, deu-lhe as costas e começou a se afastar.
--Ihh, eles brigaram? – Ainda conseguiu ouvir Robbie questionar a sua irmã.
Lydia veio ao seu encalço e a instigou.
--Deixa de besteira, Kitty. Vá lá e tire satisfações. – Atiçou-a.
Ao olhar na direção de Zackary, percebeu que ele estava olhando para elas e parecia surpreso. Depois se ergueu do banco e começou a vir na direção delas, deixando Lexi para trás.
--Lá vem ele. – Lydia a avisou; para, em seguida, abandoná-la sozinha e se reaproximar de Robbie.
--Bonequinha! – Ouviu chamar, então parou de fugir e voltou-se em sua direção para esperá-lo.
Enquanto aguardava se aproximar, cruzou os braços diante do peito, em sinal de irritação. Ainda assim, ele a enlaçou pela cintura e tentou beijá-la. Catherine virou o rosto e ele logo detectou que havia lago de errado.
--O que foi? – Questionou-a.
--Me diga você. – Catherine replicou.
Ele voltou a cabeça para trás e olhou na direção em que deixara Lexi. Quem permanecia no mesmo lugar e observava-os a distancia.
--Eu não acredito que você está com ciúmes! – Ele protestou, voltando a lhe dar atenção. – Não tem nada a ver.
--Não estou com ciúmes! – Catherine contestou. – Apenas acho uma sacanagem sua vir para a porta da minha escola dar mole para outra garota!
--Eu não estava dando mole para ela. – Zackary negou.
--Não foi o que eu vi. – Catherine refutou.
--Estávamos só conversando.
--Vocês nunca foram grandes amigos, mas basta o namoro dela com Robbie terminar para vocês dois viverem de conversinhas e risinhos para lá e para cá.
--Você está exagerando. – Ele fez pouco caso de suas suspeitas.
--Não estou exagerando! – Ela exclamou, ainda mais irritada. – Eu sei que ela gosta de você, todo mundo sabe!
--Bom, se você sabe disso. Também deve saber que se eu quisesse ficar com ela, já teria ficado! – Foi a vez dele de responder com raiva.
Catherine ficou em silêncio por um momento. Depois, questionou-o.
--Por que? – Já com um tom de voz mais ameno.
-- Porque ela é a fim de mim, oras. – Ele replicou, impaciente.
--Não. Por que você não ficou com ela? – Repetiu a pergunta, explicitando-a diante de sua incompreensão.
Diminuindo a sua raiva, Zackary apenas encolheu os ombros.
--Ela é muito bonita. – Catherine insinuou.
--Nem tanto quanto você. – Ele replicou, sincero.
Ainda assim Catherine revirou os olhos, descrente.
--Você está mentindo. Eu sei que ela é mais bonita do que eu. Lydia é mais bonita que eu! – Contestou.
--Você está viajando. – Zackary riu, alto, abraçando-a mais apertado pela cintura.
Catherine sacudiu a cabeça em negação. Ia contestá-lo mais uma vez, quando Zackary falou, interrompendo o seu protesto.
--Quer que eu prove que não estou mentindo? – Catherine fitou-o em silêncio, aguardando. – Se lembra como nós nos conhecemos? No Halloween, lá na praça? – Ele perguntou, ela acenou com a cabeça em concordância. – Eu vi quando você chegou com Lydia e Sunny, e elas logo te abandonaram... Eu fiquei seguindo você, tentando me decidir se me aproximava e me apresentava, quando vi Lexi te abordar e ficar lhe provocando. E eu fiquei contente, porque eu finalmente tinha uma desculpa para me aproximar e falar com você.
Catherine ficou literalmente boquiaberta.
--E por que você não me... paquerou... ou cantou? – Questionou-o.
--Porque eu ouvi o que ela disse sobre Robbie e não tinha como saber se era verdade ou não. – Este comentário fez com que ela ficasse ruborizada. – E não estava a fim de levar um fora logo de cara!
--Eu nunca... te daria... um fora. – Catherine confessou, ficando ainda mais vermelhada diante de seu olhar satisfeito.
--Ah não? – Zackary questionou, num murmúrio sedutor, ao aproximar os seus lábios e roubar-lhe um beijo demorado.
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Lydia e Catherine entraram no quarto fazendo uma algazarra. Mary tentou ignorá-las e continuar lendo o seu livro, mas não conseguia se concentrar na leitura com todo aquele barulho. Marcando a página em que estava, fechou o livro e deixou-o de lado, saindo do quarto.
Viu Elizabeth carregando umas caixas vazias para o quarto dela e decidiu seguir a irmã. À porta de seu quarto, viu que a maioria de suas coisas já estava arrumada para a sua mudança. Faltava apenas encaixotar livros e CDS.
--Precisa de ajuda? – Ofereceu-se.
--Claro. – Elizabeth aceitou de bom agrado.
As duas trabalharam em silêncio por alguns minutos. Mary removia os livros da estante e colocava-os empilhados dentro da caixa mais próxima, e Elizabeth reorganizando os seus CDs em outra caixa.
Quando terminou de arrumar os livros, tinha conseguido encher duas caixas. Observou o quarto a sua volta, para conferir se esquecera de algo e depois voltou sua atenção a Elizabeth, quando ela disse:
--Você encaixotou os livros de Ken Follett? “Os Pilares da Terra” e “Mundo Sem Fim”?
--Sim. Já está tudo aqui. – Mary garantiu.
--Você os quer? – Elizabeth a questionou.
--Follett não é um dos seus autores favoritos? – Mary perguntou, estranhando sua oferta.
--Sim, mas William tem estes livros. Não há sentido ter dois exemplares do mesmo livro... Seria um desperdício. – Esclareceu. – Jane vai ficar com alguns CDs meus... Se você quiser algum, estão no quarto dela. Vocês podem combinar alguma coisa.
--Eu falo com ela mais tarde. – Mary disse, abrindo a caixa de livros e retirando os exemplares de Ken Follett. – Lizzie?
--Sim. – Elizabeth deu sua total atenção a Mary quando notou hesitação em seu tom de voz.
--Como é estar casada? É estranho... sabe? Morar com um homem? – Mary inquiriu, remexendo na caixa, embora já houvesse encontrado os livros que procurava.
--Um pouco. – Elizabeth respondeu. – Quando eu estou em algum lugar e desejo ir para casa, é isso aqui que vem a minha cabeça... Aí eu me lembro que a minha casa agora é o apartamento de William.
Enquanto Elizabeth falava, Mary desistiu de fingir que ainda estava procurando os livros e voltou a sua atenção para a irmã.
--Você não se arrepende de ter se casado? – Perguntou-lhe.
--Casar em Las Vegas pode ter sido um erro, mas me casar com William não. – Elizabeth não pestanejou ao responder.
--Você o ama. – Mary constatou.
--Sim, amo. – Elizabeth não escondeu.
--E ele te ama?
--Ama.
As duas ficaram em silêncio. Mary voltou a se concentrar na caixa de livros. Retirando os exemplares de Ken Follett e voltando a fechar a caixa. Inconsciente de que Elizabeth permanecia a observá-la.
--Como ele se chama? – A pergunta súbita de Elizabeth fez com que Mary se assustasse.
--Quem? – Questionou-a, fitando a irmã novamente.
--O rapaz que fez você se questionar tudo isso. A razão por de trás desta sua mudança de visual. – Elizabeth esclareceu.
Mary ficou olhando para Elizabeth, ponderando se devia contar a ela. Compartilhar seus segredos com Lydia e Catherine não dera muito certo. Mas Elizabeth não era como suas irmãs mais novas, talvez devesse pôr um pouco de fé nela.
--O nome dele é Lucian Scott. – Mary disse, constrangida. – Ele é um amigo, eu acho.
--Você acha? – Elizabeth interrogou, caminhando para a cama e se sentando.
--Eu pensava que éramos amigos, que só podíamos ser amigos. Até que ele... me beijou. – Mary se aproximou e se sentou ao seu lado.
--Você não gostou do beijo? – Elizabeth sondou.
--Ele não gostou do beijo! – Mary exclamou.
--Por que você acha isso? Ele lhe disse alguma coisa? – Elizabeth quis saber, dessatisfeita com esta possibilidade.
--Nem precisou. – Mary garantiu. – Depois de me beijar, ele fugiu de mim. E desde então, age como se nada tivesse acontecido entre nós. Ele nem mesmo notou que eu mudei! – Mary exclamou, contrariada. – Todo mundo notou, até o meu professor. Ele me disse que tinha pensado que eu era alguma aluna nova, transferida de outro curso. Que só me reconheceu por causa da minha voz. – E fitando a irmã nos olhos, disse. – Outros rapazes têm falado comigo, até me paquerado... – Soando surpresa com este fato. – E Craig chegou a fazer uma piadinha sobre o meu cabelo na frente de Lucian, mas ele parecia surdo, mudo e cego a qualquer coisa a meu respeito. – Concluiu, triste. – Ou ele não gostou do meu beijo ou não acha que estou bonita o suficiente!
--Mary, não diga isso! Você é linda! – Elizabeth contestou.
--Não sou não, Lizzie. Eu sempre soube disso. – Mary garantiu, tranquila. – Eu me deixei convencer por Lyd e Kitty de que se mudasse o visual as pessoas me veriam de uma forma diferente, mas a verdade é que eu continuo sendo a mesma esquisitona de sempre.
--Você não é esquisita, Mary! – Elizabeth exclamou, irritada. – Eu sei que você sempre se sentiu deslocada entre nós, porque mamãe julgou que você não tinha o jeito para ser modelo... E que, por isso, ela sempre te tratou diferente. Mas isso não significa que você não seja bonita do seu próprio jeito.
--Mamãe não pensa assim. – Mary contestou, cabisbaixa.
--Mamãe tem uma ideia pré-concebida do que é beleza. Um estereótipo ideal. – Elizabeth tentou explicar. – Mas se ela não acreditasse que você tinha o potencial para alcançar o seu ideal de beleza, não teria deixado Kitty e Lyd gastar tanto dinheiro mudando o seu visual.
--Então eu só sou bonita assim! – Mary declarou, desgostosa, indicando o corte de cabelo e as novas roupas.
--Você já era bonita antes. – Elizabeth afirmou.
--Então, por que só agora os garotos me notam? – Interrogou, descrente nas palavras da irmã.
--Talvez o problema não fosse eles não notarem você antes desta mudança... Talvez eles se sentissem intimidados por você. – Diante do olhar confuso da irmã, esclareceu. – Você é uma pessoa de personalidade forte, que agia com indiferença às opiniões alheias. E eles podiam se sentir cautelosos em se aproximar. – Passando as mãos no cabelo da irmã, disse. – E agora que está mais vaidosa, aparenta estar mais acessível. Como se se produzisse para lhes chamar a atenção. Convidando-os a se aproximar, como se dissesse: “tudo bem, eu não vou dispensá-los antes de pensar duas vezes!”.
--E por que Lucian não pensa assim? – Mary questionou-a.
--Eu não sei... Talvez ele seja do tipo que não gosta de misturar as coisas... Amizade e paquera. – Elizabeth ponderou. – E há também aqueles garotos não sabem o que querem. E até se decidirem... – Mas não completou o pensamento.
--Ficam sem saber o que fazer. – Mary completou, azeda. – Fazem uma coisa, mas depois mudam de ideia. – Desiludida.
--Você só mudou de visual por causa dele? – Diante desta pergunta, Mary acenou em concordância. – Está arrependida? – Mary encolheu os ombros.
--Não sei... – Sacudindo os cabelos, fazendo-os dançar na altura dos ombros, acrescentou. – Já estou me acostumando com eles assim.
--Lizzie! – O grito de Lydia vindo da sala arrancou as duas da conversa.
--O que é? – Elizabeth gritou de volta, erguendo-se da cama.
Lydia apareceu à porta de seu quarto e disse:
--Seu marido está aqui. – Dando um risinho abobalhado. – Não pense que não sei o que você está fazendo! – Resmungou para Mary, acusatória. – Vou logo avisando que está perdendo o seu tempo se oferecendo para ajudá-la, para ficar com o quarto. Eu já falei com mamãe, sou eu que vou ficar com o quarto dela!
--Mamãe pode fazer todas as suas vontades, mas papai é justo. – Elizabeth contestou. – E ele vai deixar Mary ficar com o quarto, porque ela é a mais velha! – Saindo de seu quarto e indo ao encontro de William, ignorando o ataque de malcriação de Lydia diante de seu comentário.
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Elizabeth não quis se preocupar em arrumar suas coisas assim que chegaram ao apartamento. Guardou as caixas com o resto da sua mudança para organizá-las outro dia. Tomou um banho enquanto William preparava o jantar e depois foi ao seu encontro.
Estavam conversando sobre os seus planos de viagem para Milão, marcada para o dia seguinte, quando o interfone soou. Elizabeth atendeu e o porteiro informou a presença de uma visita.
--Quem é? – William quis saber, uma vez que Elizabeth deu permissão para que subisse.
--Sua mãe. – Ela replicou, tentando soar tranquila com aquela visita surpresa.














