Capítulo XLVI
Se você se for...
Elizabeth passou o percurso até o apartamento calada e introspectiva. Sabia que de vez em quando ele lançava um olhar preocupado em sua direção, mas fingia não notar. Mentalmente, fazia planos. Iria ao apartamento dele e pegaria suas coisas. Depois iria para a casa de seus pais, para a sua casa.
Seu pai tinha razão, eles não conseguiriam viver juntos e felizes. Fora burrice sua acreditar que poderia dar certo, que eles fariam dar certo.
Assim que ele estacionou o carro na garagem do prédio, Elizabeth despertou de seu devaneio. Retirou o cinto de segurança e já alcançava a maçaneta, quando ele a deteve segurando em seu pulso novamente.
--Espere. – Pediu, fazendo-a virar o rosto em sua direção e fitá-lo nos olhos. – Não tome nenhuma decisão precipitada. – Pareceu-lhe que ele estava lendo a sua mente. – Vamos subir, nos acalmar e, então, vamos conversar. – Propôs, nervoso. – Não vamos repetir o mesmo erro do ano passado, por favor.
A alusão à discussão que levou ao fim do namoro no ano passado serviu para que o coração de Elizabeth se contraísse.
--Prometa, Elizabeth. – Darcy comandou. – Nós vamos conversar sobre tudo isso quando estivermos mais calmos. Prometa. – Demandou.
--Eu prometo. – Ela garantiu, com a voz falhando e lutando para segurar o choro.
Ele finalmente soltou o seu pulso e ela se virou, alcançando a maçaneta e saindo do carro. Ele a seguiu e, em silêncio, tomaram o elevador.
Assim que entraram no apartamento, Elizabeth seguiu em direção ao quarto. Darcy permaneceu na sala, observando-a se afastar dele. Sentia que cada passo que ela dava acrescia na distância que interpunha entre os dois, não só fisicamente. Ela estava o abandonando aos poucos e ele se sentia impotente; perguntando-se se havia algo que pudesse fazer para impedir isto.
Foi até o bar e colocou uma dose de uísque no copo sem se incomodar de acrescentar gelo. Tomou a bebida de um gole só e encheu o copo pela segunda vez. Estava atento a qualquer barulho ou movimento, mas o apartamento se encontrava num silêncio soturno, como se estivesse inabitado.
Cansou-se daquela tensão na boca do estômago por causa das incertezas que o rondavam. Só de imaginar sua vida sem Elizabeth sentia como se barras de aço rodeassem o seu pulmão e o comprimisse, até que não conseguisse mais respirar.
Foi até o quarto a sua procura. À soleira da porta se deteve. Por um instante, observou o quarto. Elizabeth não estava ali, mas não foi isso que capturou a sua atenção. E sim o fato de que tudo estava igual. Afora o vaso de orquídea que agora enfeitava o seu quarto, não havia vestígios de que ela morava ali com ele.
Caminhou em direção ao closet e encontrou a sua mala com roupas no chão, em um canto. Ela não arrumara as roupas no armário, mesmo depois de ele ter retirado boa parte de suas próprias roupas para criar espaço para as dela.
Darcy voltou ao quarto e fitou a porta do banheiro que estava fechada. Sabia que a encontraria ali. E relembrou o fato de que o mesmo se repetia com o armário do banheiro. As coisas dela estavam bem guardadas na necesserie sobre a pia.
Antes desta noite não pensara muito nisto. Ainda não conhecia todos os seus hábitos e imaginou que ela pudesse ser uma daquelas pessoas que demora a se acomodar. Afinal, a sua profissão devia exigir dela que estivesse sempre pronta para viajar.
Mas agora cogitou a possibilidade de ela já temer este momento. Como se acreditasse que precisava estar pronta para partir a qualquer instante, pronta para deixá-lo.
Caminhou até a porta do banheiro e ergueu a mão para a maçaneta. Hesitou por um instante, antes de segurá-la e girá-la, abrindo a porta. Ao primeiro olhar, acreditou que o banheiro estava vazio, embora a sua luz estivesse acesa. E perguntou-se onde estava Elizabeth. Podia jurar que ela estava ali.
Mas no segundo seguinte o seu olhar relanceou a banheira e um movimento capturou a sua atenção. A banheira estava cheia d’água e algumas bolhas surgiam na superfície. E, observando-a atentamente, distinguiu os contornos distorcidos de seu corpo submerso na água.
Esperou por um minuto até que sua cabeça emergiu da água. Ela não o viu de imediato, porque estava sentada de costas para a porta do banheiro. Mas deve ter pressentido sua presença, porque, após alguns instantes, virou um pouco o rosto em sua direção e olhou para ele sobre o ombro, com o canto do olho. Desviando o olhar em seguida.
--O que aconteceu esta noite foi minha culpa. – Darcy declarou. – Nunca devia ter permitido que chegasse até aquele ponto. Eu sabia... Eu imaginava que ele se oporia, mas nunca me passou pela cabeça que ele lhe faltaria com respeito. – Atestou, consternado.
Então se calou, aguardando por sua represália. Mas esta não veio, então prosseguiu.
--Mas não podemos permitir que isso interfira nas nossas vidas, Lizzie. – Pediu.
Darcy estava mandando o orgulho para o inferno, imploraria se fosse preciso!
--Eles são os seus pais. – Ela, enfim, disse. – A opinião deles importa. – Com a voz carregada de sentimento.
--A única opinião que me importa quando se trata de nós dois, Elizabeth, é a sua! – Ele contestou com certo desespero evidente em sua voz.
--Não vai ser assim para sempre. – Ela contrapôs, fitando-o com olhar ferino por um momento. – Mais cedo ou mais tarde, você vai ter de admitir isto. E vai ressentir-me por ter criado este mal estar em sua família. – Confessou os seus medos.
Darcy não disse nada por um instante. Adentrou o banheiro, aproximou-se dela e se sentou na beirada da banheira, fitando o azulejo na parede oposta. Abaixou o olhar para o copo que ainda tinha em mãos, contendo o restante da dose do uísque.
Com a voz carregada, perguntou-lhe:
--E a sua solução é me deixar? – Sem olhá-la nos olhos.
Ela não respondeu, apenas gemeu baixinho. Aquilo o estava matando. Darcy solveu o último gole do uísque, virou-se e olhou-a nos olhos. Eles estavam marejados e seus lábios estavam trêmulos. Mas não se deixou deter por isto.
--É isso, Elizabeth? – Questionou-a sem piedade. – Acha que ficarei feliz ao ser abandonado pela mulher que amo?
Ela arfou e as lágrimas banharam o seu rosto já molhado. E, ao invés de responder a pergunta, ela disse:
--Você nunca tinha dito isso para mim antes! – Com a voz fraca e chorosa.
Darcy estava chocado. Seus olhos refletiam a mais profunda incredulidade.
--Como... Como você pode duvidar disso? – Protestou, zangando-se. – Não foi você quem disse que Amor verdadeiro não é algo que se expressa com palavras, mas que se prova com atos? Depois de tudo pelo que passamos, será que ainda não provei o quanto você significa para mim? O quanto eu te amo?
--Isso não significa que eu não quisesse... precisasse ouvi-lo dizer! – Ela refutou.
Sabia que o protesto soava infantil em comparação com a grandiosidade das declarações dele. Mas era a mais pura verdade; estava sendo sincera e expondo as suas inseguranças. Permitindo-se ficar vulnerável.
Darcy a fitava em silêncio, ainda com aquele ar de incredulidade. Por fim, pôs o copo no chão, voltou-se de frente para ela e, apoiando uma mão em cada lateral da banheira, inclinou-se na sua direção. Parou com o rosto a centímetros do seu.
O seu olhar duro e penetrante a fez se encolher um pouco, parecendo amedrontada. Mas, como ele não lhe dera muito espaço, não conseguiu se afastar muito dele.
--Antes de conhecê-la, eu levava uma vida perfeita. – Darcy disse com severidade. – Tudo a este respeito estava sob o meu controle. E eu odeio perder o controle das coisas, principalmente daquelas que realmente importam.
Elizabeth mal respirava devido à tensão que via estampada nos olhos dele e exalava de seu corpo, como ondas de eletricidade. Atingindo-a e sobrecarregando-a.
--E você entrou na minha vida... como um tornado. – Ele continuou com o mesmo tom severo. – Você mudou tudo, virou a minha vida de cabeça para baixo. E eu nunca quis isso. Deus sabe o quanto tentei evitar! – Exclamou. – Eu lutei para me manter longe de você, tentando me impedir de me apaixonar. Cego e estúpido! Incapaz de perceber que já era tarde!
Ela viu lágrimas se acumularem nos olhos dele e isso trouxe novas lágrimas aos seus próprios olhos. Que logo rolaram pelo seu rosto.
--Que eu já te amava... ardentemente. – A voz dele falhou no final, saindo baixa e rouca.
E uma lágrima escapou de seus olhos, fazendo Elizabeth soluçar, tentando controlar seu próprio choro.
--Exatamente do jeito que você disse que seria: irracional, irrefreável, muito mais forte do que eu...
--William, ... – Ela murmurou.
--Me deixe terminar. – Ele a interrompeu.
Elizabeth se calou, mas ele não falou de imediato. Apenas a fitou nos olhos.
--Eu nunca me senti tão assustado quanto esta noite, ao cogitar a mera possibilidade de você me deixar. – Esta confissão arrancou outro gemido dos lábios dela.
--William! – Ela arfou o seu nome.
--Eu amo você, Elizabeth! – Ele continuou a falar. – Amo de corpo e alma! Eu amo...
Ela ergueu as mãos até o seu rosto e puxou-o para si, calando a sua boca com os lábios. O beijo lento e sofrido que se seguiu tinha o gosto salgado das lágrimas. Mas, para os dois, era o melhor beijo já partilhado até agora.
--Nunca mais ameace me deixar de novo! – Ordenou com o mesmo tom severo.
--Eu prometo. – Elizabeth afirmou, com os lábios colados ao dele.
Circundando o seu pescoço com os braços, puxou-o para outro beijo. Devagar, suave. Aos poucos, o beijo começou a tomar conta dos dois. E antes que percebessem, os braços de Darcy estavam cansados e as mãos, úmidas e escorregadias. No segundo seguinte, ele caiu parcialmente dentro da banheira, por cima de Elizabeth, vestido com a mesma roupa do jantar.
O beijo foi interrompido e eles se entreolharam. Ela não conseguiu segurar a gargalhada e, contagiado, Darcy riu com gosto. Quando controlaram os ânimos, Darcy terminou de entrar na banheira e, com a ajuda de Elizabeth, despiu as roupas.
Por fim, Darcy se pôs de joelhos na banheira entre as pernas dela. Inclinando o corpo sobre o de Elizabeth, envolveu-a pela cintura com um dos braços, enquanto segurava em sua coxa com a outra mão. Com um forte puxão, trouxe o corpo dela de encontro ao seu, fazendo a água transbordar pela banheira.
Elizabeth entendeu instintivamente o que ele queria e prendeu as pernas em sua cintura; circundando o seu pescoço com os braços, pressionou os seios em seu peito e colou a boca na dele.
--Eu amo você! – Sussurrou em sua boca com emoção.
--É bom mesmo! – Ele replicou, ainda com o tom severo, antes de beijá-la com paixão.
Como deixaram a casa de seus pais antes de jantarem direito, Darcy precisou improvisar algo para que pudessem comer. Ambos estavam famintos. Elizabeth ofereceu a sua ajuda, comprovando-lhe a sua falta de talento na cozinha. Arrancando risos dos dois e deixando o clima entre eles muito mais leve.
--Eu queria te perguntar uma coisa. – Darcy comentou, hesitante, enquanto picava tomates para o molho do macarrão.
--O que é? – Ela perguntou, curiosa, enquanto se ocupava em arrumar pratos e talheres; a única coisa que soube fazer com eficiência.
--Você disse que não havia a probabilidade de estar grávida. – Ele declarou. – Mas eu acho que há. Eu não usei camisinha em nenhuma das vezes em que fizemos amor, Lizzie.
Apenas esta noite pensou sobre o assunto. Tudo parecia tão natural e certo quando estava com ela. E, para ser honesto consigo mesmo, estava sempre tão excitado, que nunca cogitou parar e tomar certas precauções – que, se estivesse com qualquer outra mulher, teria se forçado a tomar.
--Eu sei disso. – Ela respondeu, um pouco constrangida. – Mas eu estou tomando pílula. – Informou-lhe.
--Está? – Ele ficou surpreso. Parando o que estava fazendo, fixou o seu olhar nela. – Desde Las Vegas?
--Hum-hum. – Elizabeth murmurou, a face ardendo de rubor diante de seu olhar analítico.
Darcy ficou em silêncio. Nunca pensara nisso antes. Não saberia dizer se estava certo em suas suposições, mas acreditava que mulheres virgens não tinham motivo para usar pílula.
--Eu tive a impressão... – Começou a falar, atrapalhado. – que a nossa primeira vez foi... a sua primeira vez. – Viu em seus olhos a resposta, mas prosseguiu. – Que você era virgem.
E lá estava à confirmação. Ela ficou ainda mais vermelha de vergonha.
--Como você...? – Ela exclamou. – Eu fiz alguma coisa errada? – Interrogou, perdendo a cor do rosto.
--Errada? – Darcy repetiu, abismado com o rumo de seu raciocínio. –Você não fez nada errado! – Assegurou.
E largando a faca, limpou as mãos em um pano de prato e se aproximando dela; enlaçou-a pela cintura e disse:
--Quer que eu enumere as diversas maneiras que você me enlouqueceu só naquela primeira vez? – Deixando-a novamente corada.
Aproximando a boca de seu ouvido, sussurrou sedutoramente pequenos detalhes picantes da noite de amor que tiveram em Las Vegas. Despertando em seu íntimo aquele fogo da paixão compartilhado minutos atrás na banheira. Arrematou a tática de sedução com uma mordidinha em seu pescoço, arrancando-lhe um suspiro de prazer dos lábios.
Ah, aqueles lábios!Antes que pudesse se deter, beijou-lhe a boca com volúpia. Deixando-a arfante e levemente atordoada, ao voltar a sua atenção aos tomates e prosseguir com os preparativos do jantar – sentindo-se extremamente satisfeito consigo mesmo.
Após longos minutos, Darcy ouviu um suspiro longo de sua parte. E riu.
Ao ouvir seu risinho abafado, Elizabeth se obrigou a recobrar o controle de suas faculdades mentais e físicas. Era desconcertante saber que estava ao seu mercê desta forma tão desavergonhada.
--Eu comecei a tomar pílula depois do Dia dos Namorados, quando começamos a planejar o nosso reencontro. – Ela esclareceu, retomando a conversa para provar que recobrara o domínio de si mesma. – Pareceu-me a coisa certa a fazer. Não queria correr o risco de engravidar.
--Não quer ter filhos comigo? – Ele perguntou automaticamente, parando o que estava fazendo mais uma vez para fitá-la.
Outra questão que apenas o afligiu neste momento. Sempre soube que teria filhos um dia, mesmo que nunca determinara quando ou com quem. Agora que ela estava em sua vida, soube que queria tê-los com ela e mais ninguém. Mas e se ela não quisesse ter filhos?
--Não. Quer dizer, quero. – Elizabeth apressou-se a corrigir, já que viu em seu semblante que Darcy entendera errado o que queria dizer. – Eu quero. Mas não agora. Não é o momento certo. – E, ficando sombria, completou. – Temos tantas coisas ainda para acertar.
--Quantos filhos você quer ter? – Questionou-a, determinado a não deixar a conversa tomar rumos sombrios.
--Eu não sei... Um, talvez dois. – Ela replicou, sorrindo.
--Verdade? – Ele inquiriu, seguindo em direção ao fogão, onde uma panela já aguardava os tomates. – Sempre imaginei que você ia querer ter uma casa cheia de filhos... Já que a sua família é grande e vocês parecem tão... – Pestanejou para encontrar uma palavra para descrever o que testemunhara na casa dos pais dela nas poucas visitas. – interligadas... de alguma forma.
--Quando não estamos tentando matar umas as outras. – Elizabeth alegou, risonha.
Depois do desastre na casa de seus pais no começo daquela noite, o jantar entre eles prosseguiu com tranqüilidade e leveza de conversa. E, por fim, os dois se recolheram no quarto, onde seguiram madrugada adentro fazendo amor.














