Citações

Sua arrogância e pretensão me fazem pensar que você seria o último homem no mundo com quem eu me casaria. (Jane Austen)

Colisão - Capítulo XLV

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Capítulo XLV

Visto e imprevisto

 

Moira acessou a sua caixa de mensagens de e-mail e começou a responder aqueles mais urgentes. Era uma manhã lenta na Sociedade. Nenhuma reunião programada para aquele dia e nenhum novo projeto, apenas continuação daqueles já em andamento.

Inconsciente de tê-lo feito, seus olhos vislumbraram o relógio no cantinho da tela do computador. William estava atrasado. E justamente ele que era pontualíssimo; raramente se atrasa e nunca sem justificativa.

Abriu algumas das mensagens de Charles e averiguo-as. Algumas poderiam ser respondidas sem consultar William, mas outras precisavam de uma decisão de sua parte. Então, anotou alguns tópicos para discutir com ele quando Darcy chegasse, passando a responder as questões mais simples.

Por fim, saiu de seu e-mail. Estava pensando em Richard quando, por um lapso de seu juízo mental, acessou o site da revista Profile. Não sabia exatamente o que estava procurando. Mas o que encontrou prendeu a sua atenção.

Acaso, Obra Do Destino Ou Caso Pensado?

Na última sexta-feira, dia 8 de abril, a empresária Catherine De Bourgh recebeu a nata social para a apresentação do seu mais novo empreendimento, The Grand Duke. Um luxuoso hotel cassino situado na cidade do pecado, Las Vegas, Nevada. O primeiro a ser reformado entre a cadeia de hotéis adquirida pela De Bourgh & CIA, em conjunto com Darcy e Fitzwilliam Corporation.

Marcaram presença na noite de glamour: Fenrhir Augustin, dono do hotel Cassino Atlantis, com sua atual noiva, Victoria Bruni, modelo de lingerie; Gilbert Kilburn, dono da cadeia de Hotéis Kilburn; (...)

O artigo prosseguia com a enumeração das ilustres figuras, mas Moira percorreu aquele parágrafo com pouco interesse. Prendendo-se naquele que discutia um assunto de maior importância.

O evento despertou muito falatório. Mas não por causa da qualidade do projeto ambicioso, com visões ambientalistas, de reforma do hotel cassino. Ou, até mesmo, as inúmeras suspeitas referente ao tão comentado “concurso” para a seleção do projeto e nem tão surpreendente vitória da Darcy & Bingley Association.

O reboliço começou com a inesperada presença da modelo Elizabeth Bennet (24), conhecido a fair do arquiteto William Darcy. O casal fora visto juntos enumeras vezes no final do ano passado, mas pereciam ter se distanciado pouco antes da virada do ano.

As más línguas prediziam um rompimento definitivo. Havendo aqueles que apostavam em uma reconciliação entre William Darcy e a socialite Anne De Bourgh. Especialmente em vista da colaboração direta entre as famílias para trazer a reunião do casal, com a tardia participação da Darcy e Fitzwilliam Corporation no investimento do empreendimento hoteleiro e a seleção do projeto de responsabilidade da sociedade de William Darcy para a reforma do Hotel – escolha esta feita pela própria sra. Catherine De Bourgh.

Se este era mesmo o intento das famílias, seus planos foram frustrados nesta noite. Não somente pela presença de Albert Hurts (32), namorado de Anne De Bourgh, como pela aparição repentina da modelo Elizabeth Bennet e evidente reaproximação do casal...

Ao lado deste comentário havia duas fotos distintas. Anne e Albert estavam em uma, de mãos dadas e conversando distraídos; e, na outra, William e Elizabeth no exato instante do reencontro. Darcy acariciava o rosto de Elizabeth e ela parecia enxergar somente a ele.

...Darcy e Bennet foram vistos trocando carinhos durante a noite toda.

Novas fotos exibiam Darcy com uma das mãos depositada nas costas de Elizabeth, enquanto sussurrava alguma coisa ao seu ouvido. Em outra, ele mexia em seu cabelo e lhe sorria.

E, mais tarde, foram vistos deixando os salões do jantar de celebração do projeto juntos...

Mais três fotos estavam dispostas lado a lado. Uma mostrando o momento em que Elizabeth deixava o salão, seguida pela que exibia Darcy abandonando os jornalistas e a seguindo às pressas, e, por último, a dos dois juntos no saguão do Hotel.

Não havia foto dos dois tomando o elevador juntos, mas a última foto já era prato cheio para especulações. Afinal, quem diria que o casal se encontrou no saguão do Hotel apenas para se despedir e cada um seguir o seu próprio caminho?!

As perguntas que assolam as mentes dos curiosos agora são: eles planejaram se encontrar assim? Ou Elizabeth Bennet seguiu William Darcy até os EUA para tentar uma reaproximação? Ou, por mais incrível que pareça, foi apenas uma coincidência bem-vinda?

A verdade deduzida dos fatos aponta para uma possível coincidência. Afinal, a surpreendente presença de Elizabeth em Las Vegas não foi assim tão inesperada. Já que a mesma desfilou para a grife de Anne De Bourgh, assinada pela estilista estreante Charlotte Lucas, neste mesmo Hotel na tarde do dia seguinte.

E advinha quem compareceu ao desfile, sentou-se na primeira fileira e não despregou os olhos da passarela por um instante? Se você pensou em William Darcy, acertou!

Havia mais uma foto de William. Desta vez, sentado em uma cadeira ao público do desfile na primeira fila. Os olhos fixos na passarela, com uma expressão bestificada no rosto, enquanto assistia Elizabeth desfilar.

--Ah, Will! – Moira murmurou, sorrindo consigo mesma.

--O que? – A voz dele a fez erguer os olhos da tela do computador e fitá-lo ali, de pé próximo a porta da sua sala.

--Você chegou! – Moira exclamou, surpresa.

--Sim. – Ele replicou, com uma expressão divertida no rosto. – O que você estava lendo que prendeu tanto a sua atenção que não me ouviu bater na porta ou entrar?

--Nada de importante. – Moira replicou, constrangida; apressando-se a desconectar-se do site de fofoca (perguntando-se onde estava com a cabeça ao acessar o site de fofoca em seu ambiente de trabalho, durante o expediente!).

Ele deve ter percebido o seu desconforto, porque a sua curiosidade parecia ter sido aguçada.

--Moira? – Insistiu, erguendo uma sobrancelha em expectativa de uma explicação. – A que devo o “ah, Will!” suspirado daquele jeito? – Aproximou-se de uma cadeira a frente de sua mesa e se sentou.

--Eu estava lendo um artigo sobre... você, na verdade. – Ela explicou, hesitante. – Começou falando sobre a reforma do Hotel, mas no fim se resumiu a você.

--Ahh... – Darcy já não pareceu tão interessado.

--Eu ainda não consigo acreditar que você se casou! – Comentou, rindo-se.

--Bom... – Darcy parecia não saber o que dizer.

--Você tem sorte que a impressa ainda não descobriu isto, senão teria sua cara estampada em todas as revistas de fofoca.

--Eles vão descobrir logo, logo. – Ele contrapôs; sabendo que uma noticia como aquela não demoraria a vazar.

--Você já contou aos seus pais? – Moira quis saber, já sem a expressão de divertimento no rosto.

--Vou fazer isso hoje à noite. – Darcy respondeu.

--Bom, é melhor assim. Não creio que tio Alexander ficaria contente se, por acaso, soubesse por outra pessoa...

--Sei disso. – Darcy concordou, sério. – Mas, por agora, vamos tratar de negócios. – Mudou de assunto. – Eu acabei de vir do departamento de criações, para discutir os problemas que Howard e Franklin me repassaram via e-mail. Parece que Catherine decidiu fazer algumas alterações no projeto de reforma do Hotel.

--Eu recebi um e-mail deles dois também. – Moira confirmou, pegando suas anotações e começando a discutir o assunto com ele.

Após alguns minutos discutindo as possíveis alterações do projeto, Moira questionou-o.

--Você acha que esta mudança repentina com relação ao projeto tem a ver com o seu casamento?

--Se este for o caso, acho que Catherine está se comportando de forma anti-profissional. A qual não condiz à sua figura de empresária respeitada. – Darcy contestou, rabugento. – Por isso, quero que você envie um e-mail para Howard e Franklin avisando-os de que o departamento de criação já está a par do problema e procurando soluções cabíveis. Mas que eles têm a liberdade para repassar a informação a Catherine que nenhuma alteração substancial que desfigure o conceito do projeto será acatada. E que se ela se sentir descontente com a forma que lidamos com o problema, que está livre para desfazer o contrato e procurar outra sociedade que mais lhe agrade.

Moira não fez comentários a este respeito, apenas anotou que lhe foi ditado por um William enraivecido. Ele parecia furioso com toda aquela manipulação por parte de sua ex-sogra. “E, possivelmente, seus pais”, ela concluiu em pensamento.

Em seguida, abordou os tópicos referentes aos e-mails de Charles.

Ao fim da reunião, Darcy disse.

--Quero que você faça uma reserva para mim, para Milão. Para o mais cedo possível. Não posso mais adiar o meu retorno.

Moira concordou com comedido aceno.

--Elizabeth irá com você? Devo fazer reservas para ela também? – Perguntou-lhe.

--Não. Ela ainda tem compromissos aqui com a Agência. Ela irá ao meu encontro depois. – Darcy respondeu.

--Mais alguma coisa? – Moira perguntou, eficiente.

--Não. – Darcy replicou, mas depois acrescentou. – Eu vou ter de sair agora. Devo estar de volta no período da tarde, logo depois do almoço. – Erguendo-se da mesa e seguindo em direção a porta.

Moira não lhe fez perguntas, apenas acenou em concordância. Mas Darcy esclareceu.

--Preciso legalizar o meu casamento aqui. – Abriu a porta e saiu.

~#~

William estacionou o carro e Elizabeth olhou para a fachada imponente da residência dos pais dele, sentindo o seu estômago embrulhar de apreensão. Ouviu William sair do carro e fechar a porta. Em poucos instantes, ele apareceu ao lado da porta do passageiro e a abriu para Elizabeth. Juntos, seguiram em direção a casa e William tocou a campainha.

A governanta abriu a porta e os cumprimentou.

--Boa noite, sr. Darcy. – Muito séria. – Senhora. – Disse, com o mesmo olhar firme em sua direção.

Esta formalidade estava deixando Elizabeth ainda mais nervosa.

--Boa noite, sra. Perkins. – William replicou com tranqüilidade.

E não hesitou em guiar Elizabeth até a sala de visitas sem aguardar por novo pronunciamento da governanta.

Se Elizabeth se sentiu intimidada com o tamanho da casa quando estavam do lado de fora, estava agora petrificada com o luxo que via disposto em cada cantinho dos cômodos. O hall de mármore, os móveis de carvalho, as estatuas e pinturas famosas. Tudo na mais perfeita harmonia.

Entraram numa sala de visitas e William a guiou até o sofá, onde a encorajou a se sentar.

--Quer alguma coisa para beber? – Ele lhe ofereceu, caminhando em direção ao bar.

--Não. – Elizabeth replicou. – Você sabe... eu não... – Gaguejou, enquanto tentava disfarçar as mãos trêmulas, escondendo-as em seu colo.

--Boa noite. – Ouviram a voz de uma mulher.

William e Elizabeth voltaram seus olhares para a entrada da sala e lá encontraram uma senhora elegante de cabelos negros na altura dos ombros, emoldurando um rosto de feições suaves e, ao mesmo tempo, maduro. E um senhor de postura imponente, cabelos brancos e olhar perspicaz.

--Boa noite. – Elizabeth ficou de pé num salto, estampando um sorriso amarelo nos lábios.

Sentiu William ao seu lado, mas não lhe dirigiu o seu olhar.

--Você deve ser Elizabeth. – A sra. Darcy comentou, sorrindo-lhe cordialmente ao caminhar em sua direção e lhe estender a mão em cumprimento.

--Lizzie, esta é minha mãe, Emily. – William lhe informou.

--É um prazer lhe conhecer, sra. Darcy. – Temerosa, Elizabeth estendeu-lhe a mão em resposta; sabia que estava suada e queria ter tido a oportunidade de secá-la antes de partilhar um aperto de mão com os pais dele.

--O prazer é meu. E pode me chamar de Emily. – A sra. Darcy garantiu-lhe.

--Este é o meu pai, Alexander – William indicou o pai.

Quem se aproximou e estendeu a mão em sua direção. Dirigindo-lhe um olhar penetrante.

--Prazer conhecê-lo, sr. Darcy. – Elizabeth repetiu o gesto, incapaz de desviar o seu olhar.

--Seja bem-vinda. – Sr. Darcy disse.

--Por favor, sente-se. – A sra. Darcy recomendou.

Elizabeth e William se sentaram lado a lado, e a sra. Darcy foi se sentar no outro sofá.

--Querem alguma coisa para beber? – O sr. Darcy inquiriu, caminhando em direção ao bar.

--Uísque. – William respondeu; já que desistira de servir-se de um drinque com a chegada dos pais.

O olhar do sr. Darcy recaiu sobre Elizabeth.

--Não, obrigada. – Ela apressou-se a responder.

E pareceu-lhe que o Sr. Darcy lhe lançou um olhar analítico e, em seguida, fitou brevemente a própria mulher. Só depois prosseguiu com o seu intento.

Enquanto o sr. Darcy preparava as bebidas, um silêncio reinou sobre eles. William estava segurando a mão de Elizabeth e fazia-lhe carinhos com o polegar nas costas de sua mão, tentando reconfortá-la.

Mentalmente, Elizabeth repetiu a si mesma para inspirar e expirar. Talvez assim conseguisse acalmar as batidas de seu coração. Tinha consciência de que a sra. Darcy a estava observando com uma curiosidade que chegava a ser indecente. Aquele par de olhos castanhos esverdeados sobre si estava deixando Elizabeth ainda mais inquieta.

--Correu tudo bem em Las Vegas? – O sr. Darcy perguntou a William, ao lhe entregar um copo com uísque e ir se sentar ao lado de sua esposa. – Richard me disse que tudo deu certo na apresentação do projeto. E Catherine ligou e me pareceu satisfeita com o resultado final. O que você acha?

--A apresentação foi tranqüila. Mas desde então Catherine tem requisitado algumas alterações no projeto. – William argumentou.

--Isto é esperado. Você, melhor que ninguém, sabe o quanto é difícil alcançar as expectativas dos clientes. – Comentou, entre um gole em sua bebida e outro.

--Não vamos passar a noite toda falando de negócios, por favor. – A sra. Darcy interveio. – Por que não nos conta sobre o restante da viagem? Conseguiu aproveitar a sua estadia? – Questionou-o, com ar sagaz.

--Sim, aproveitei. – “E vocês não sabem o quanto!”, William completou em pensamento; estava satisfeito que seus pais não soubessem como ler a sua mente, ou estariam revivendo com ele certas lembranças particulares.

--Nos parece que vocês dois tiveram a oportunidade de se encontrar por acaso por lá. – O sra. Darcy comentou com um tom de voz corriqueiro, olhando de William para Elizabeth.

--Sim. – William confirmou. – Elizabeth foi para Las Vegas desfilar pela grife de uma amiga que ocorreu no Hotel no dia seguinte ao jantar.

--E teve a oportunidade de conhecer Catherine e sua filha Anne? – O Sr. Darcy inquiriu.

--Sim. Anne De Bourgh é sócia da minha amiga estilista, Charlotte Lucas. Elas estão abrindo a grife juntas. – Elizabeth se pronunciou. – E tive a oportunidade de trocar algumas palavras com Catherine De Bourgh durante o jantar.

--Os De Bourgh são uma família de amigos de longa data. Muito estimados por todos nós. – O Sr. Darcy comentou com tranqüilidade. – Inclusive, William teve um relacionamento sério com Anne durante anos. Acreditávamos que se casariam um dia.

A sra. Darcy lançou um olhar astuto de esguelha ao marido.

--Estou ciente disto. – Elizabeth replicou, captando exatamente a mensagem que o Sr. Darcy transmitia nas entrelinhas daquele comentário.

--A vida é engraçada. Às vezes, as coisas não saem como esperamos. – Ele alfinetou, com o semblante frio.

Elizabeth sentiu a mão de William segurar a sua com mais força. E quando olhou em sua direção, percebeu que ele estava preste a refutar aquele comentário. Mas a sua mãe antecipou-se a ele, dizendo:

--E um exemplo disso é que acreditávamos que teríamos o prazer de conhecê-la no ano passado. – Dirigindo-lhe um sorriso educado, era evidente que estava assumindo o papel de conciliadora.

Mas isto não serviu de consolo a Elizabeth ou a William, já que trouxe a tona memórias de feridas antigas. Por isso, Elizabeth só pôde lhe dirigir um sorriso amarelo em resposta. E William decidiu que precisava tomar as rédeas daquela conversa.

--Espero ter compensado a sua espera, mamãe, ao trazê-la aqui hoje. – Disse com um tom de voz contido.

--Este foi o único motivo para ter solicitado este jantar? – Sr. Darcy interrogou.

--Na verdade, não. – William respondeu, desconfiado. – Queria também fazer um comunicado muito importante...

--Sobre o seu casamento? – Sr. Darcy questionou, calmo.

Elizabeth lançou um olhar preocupado a William e ele sustentou uma expressão tranqüila para não alarmá-la ainda mais, embora estivesse desconcertado por seus pais descobrirem sobre o seu casamento por outro meio.

--Nós já ficamos sabendo, como podem ver. – O sr. Darcy continuou com o mesmo tom normal. – O que falta ser discutido agora é a legalidade deste casamento.

William empertigou-se todo com aquele comentário. Mas antes que pudesse contestar qualquer coisa, seu pai prosseguiu.

--Você já tomou as providências legais para oficializá-lo? Senão, eu já contatei Rouscou. E, embora direito de família não seja a sua área de atuação, ele se prontificou a cuidar deste assunto para nós.

William estava paralisado. Ele olhou para Elizabeth e ela parecia tão confusa quanto ele.

--Agora, sua mãe e eu estávamos conversando e chegamos à conclusão de que seria melhor que fizéssemos uma nova cerimônia. Algo íntimo, para família apenas. – Sr. Darcy fez uma pausa, como se aguardasse algum comentário dos nubentes. – Você há de convir que um casamento em Las Vegas não era o que nós almejávamos para você. – Recriminou-o.

--Espere um instante. – William pediu, atordoado. – Como ficaram sabendo do casamento?

Tinha suas desconfianças. Sabia que Richard não se intrometeria neste assunto desta forma. Então, restava somente...

--Catherine contou ao seu pai. – A sra. Darcy esclareceu, confirmando as suas suspeitas.

--Ela aproveitou a ligação que me fez para discutir sobre o anúncio da reforma do Hotel para me congratular quanto ao seu casamento. Presumindo, é claro, que já soubéssemos a respeito. – O Sr. Darcy argumentou, defendendo-a.

--Não esperava uma atitude diferente de sua parte. – William comentou, com sarcasmo mal disfarçado em sua voz.

Ganhando um olhar severo do pai como resposta.

Antes que a conversa seguisse por caminhos tortuosos, a sra. Perkins surgiu a sala, anunciando o jantar.

--Ótimo. – A sra. Darcy se pronunciou, aliviada pela interrupção. – Vamos para a sala de jantar.

Todos se ergueram e seguiram para a sala de jantar. O Sr. Darcy sentou-se a cabeceira da mesa e a sra. Darcy na outra extremidade. William segurou a cadeira para Elizabeth se sentar e depois foi ocupar a cadeira a sua frente, do lado oposto da mesa.

--Espero que goste de comida tradicional inglesa. – A sra. Darcy disse a Elizabeth quando os empregados começaram a servir o jantar.

--Sim, gosto muito. – Elizabeth afirmou, satisfeita com aquele assunto banal para discutirem. – Eu acredito que a única culinária que não combina comigo é a japonesa.

William olhou-a com surpresa. Em seguida, disse:

--Algumas pessoas passam a apreciá-la com o tempo.

--Não. Acredite, eu tentei. – Elizabeth replicou, sorrindo para ele suavemente e se refreando de relatar exatamente o que aconteceu nesta tentativa; aquele não era o tipo de conversa para despertar o apetite de ninguém. – Acho que o meu paladar não é assim tão apurado. – Comentou, no entanto, sem a intenção de ser depreciativa.

--Bom, o importante é que saiba se alimentar de forma saudável. – A sra. Darcy disse. – Sei que na sua profissão o padrão de beleza exigido pode levar algumas modelos a práticas prejudiciais à saúde.

--Eu lhe asseguro que tenho um apetite saudável. – Elizabeth afirmou. – Minha mãe, por vezes, repreende-me por não seguir uma dieta mais seletiva; já que não nasci com os mesmos genes de minha irmã mais velha, Jane, quem possuí uma figura mais esbelta.

--Confesso que estava preocupada. Mas fiquei aliviada em ouvir isto. – A sra. Darcy replicou com a voz séria. – Uma boa alimentação é um fator extremamente importante em seu estado.

--Meu estado? – Elizabeth questionou, confusa.

--E um pouco de descanso também é fundamental. – A sra. Darcy prosseguiu, como se não houvesse escutado sua pergunta. – Quando estava grávida de William, como de Georgiana também, precisei reduzir as horas gastas no trabalho.

Elizabeth estava tão surpresa com o rumo que a conversa tomou que não teve a curiosidade de lhe perguntar com o quê ela trabalha. Já que tinha consciência de nunca ter ouvido William comentar nada a respeito.

--Você já começou a fazer o pré-natal? – A sra. Darcy prosseguiu, indiferente ao seu atordoamento. – Gostaria de acompanhá-la em uma de suas consultas. – Solicitou, esperançosa.

Elizabeth lançou um olhar alarmado ao Sr. Darcy e viu que ele retribuiu o seu olhar com expectativa. Então, redirecionou o seu olhar a William e viu que ele parecia petrificado. Que era exatamente como ela se sentia.

Elizabeth voltou a fitar a sra. Darcy, constrangida, e disse:

--Perdoe-me, mas acho que houve uma confusão. Eu não estou... Não estou... grávida.

A sra. Darcy olhou de Elizabeth para o marido, confusa, e depois voltou a fitá-la.

--Você não está grávida? – Perguntou-lhe.

--Não. – Elizabeth disse.

--Não há a mínima possibilidade de você estar carregando o meu neto? – O Sr. Darcy questionou-a com a voz grave, ganhando o seu olhar.

--Não. – Elizabeth repetiu. – Não há. – Garantiu.

--William, o que está acontecendo? – O Sr. Darcy interpelou-o, enraivecido. – Se ela não está grávida, por que se casaram?

--Alexander, vamos manter a calma, por favor. – A sra. Darcy pediu.

Seu apelo foi em vão, pois os ânimos àquela mesa já estavam todos eriçados. E no segundo seguinte, a conversa calma a mesa de jantar se transformou em uma discussão acirrada, com direito a insultos proclamados em alto e bom som.

--Uma modelo, William! – O Sr. Darcy resmungou.

--Elizabeth é muito mais que uma simples modelo! – William defendeu.

--Ah é? O que, por exemplo? – Seu pai contestou, mas não o deixou responder. – Quando era só um romance passageiro, eu não me intrometi. Mas se casar com ela! No que você estava pensando? Ela não é mulher adequada para você!

--Você não a conhece! – William esbravejou.

--Conheço o suficiente! – Sr. Darcy refutou. – E muito mais do que você, tenho certeza!

--Eu sei bem quem é a sua fonte de informações. – William disse, exaltado. – Pelo visto, o senhor e Catherine ainda continuam a discutir a minha vida. – Completou com sarcasmo. – O senhor já devia ter aprendido a não fazer planos ao meu respeito. Se ainda não percebeu, não tenho mais dezessete anos. Sou capaz de tomar minhas próprias decisões.

--E veja aonde a suas “próprias decisões” nos trouxe! – Sr. Darcy replicou. – Você realmente acha que este casamento tem algum futuro? Que ela está a sua altura?! – E, sem deixar que ele respondesse, prosseguiu. – Anne era a mulher certa para você. Inteligente, de boa família, bonita, de classe... Mas não! Você se deixou levar por uma mulher qualquer, seduzido por nada mais que um rosto bonito... E me entra num casamento que tem tudo para terminar em desastre!

Elizabeth já não conseguia mais acompanhar a discussão entre eles. Sentia o sangue lhe subir a cabeça e um zumbido surdo perfurava o seu ouvido. Permitindo que apenas algumas frases dispersas penetrassem a sua mente:

--...não percebe que está sendo ludibriado... – Na voz do Sr. Darcy.

--...passou de todos os limites! – Nos berros de William.

--...Alexander, por favor! – Na voz da sra. Darcy. – William, acalme-se!

Elizabeth se levantou, com a intenção de se retirar. E a sra. Darcy, a única que notara o seu movimento – já que pai e filho estavam muito entretidos na discussão para dar a atenção a mais nada – pediu-lhe.

--Por favor, Elizabeth, sente-se. – Alarme evidente em sua voz.

Finalmente chamando a atenção dos outros dois.

--Estamos todos com os ânimos exaltados. Estou certa de que o melhor a fazermos é nos acalmar. – A sra. Darcy afirmou. – E então poderemos conversar com racionalidade. Só assim poderemos resolver este mal-entendido.

Elizabeth, no entanto, não se sentou.

--Não creio que tenha havido mal-entendido algum, sra. Darcy. – Contestou com o tom de voz normal, mas com o olhar furioso. – Ficou bastante claro para mim o porquê de vocês deduzirem que eu estava grávida. Afinal, este é o truque mais antigo que uma mulher como eu poderia usar para convencer um homem como o seu filho a se casar com ela.

--Acredite-me, meu marido e eu não tínhamos a intenção de ofendê-la. – A sra. Darcy tentou remediar, constrangida.

--Ofender-me, por quê? Se esta é a conclusão lógica na situação em que nos encontramos, não é verdade? – Elizabeth rebateu, amarga. – Tenho certeza de que outras pessoas vão pensar a mesma coisa quando souberem do nosso casamento. Afinal, uma mulher como eu só poderia estar interessada no dinheiro do seu filho e no prestígio do nome de sua família. – Comentou com uma frieza inesperada. – O que continua sendo um mistério é o porquê de o seu filho ter se casado comigo. Já que, como não estou grávida, não possuo nada a lhe oferecer.

Elizabeth afastou a cadeira sem voltar as costas à mesa ou desviar o olhar da mortificada sra. Darcy.

--Se me permite lhes dar uma sugestão. – Disse, mas não deu oportunidade para ninguém responder. – Talvez devessem obrigá-lo a fazer um exame de cabeça e declará-lo insano. Tenho certeza que assim será fácil conseguir a anulação do casamento. E todos aqui ficarão satisfeitos.

Contornou a cadeira e seguiu em direção a saída da sala de jantar. Mas estava tão aflita para sair dali que se esbarrou em um vaso decorativo antes de alcançar a porta e se deteve ali para segurar o vaso, antes que este se espatifasse em mil pedacinhos no chão.

Com os dedos trêmulos, tentou reequilibrá-lo no suporte de mármore em que estava antes, mas ele continuou oscilando; ameaçando cair se o largasse. Sentiu uma mão forte envolver-lhe o braço e automaticamente voltou-se de frente para a pessoa que a abordava. Empurrou-lhe o vaso nas mãos, pegando a pessoa de surpresa e assim conseguindo se desvencilhar, escapando dali.

Atravessou os cômodos e corredores como um foguete, cega a tudo mais que não fosse o seu destino final: a porta da rua. Abriu-a com violência e saiu, puxando-a as suas costas ao sair; mas não se deu o trabalho de conferir se conseguira fechá-la.

Ainda atordoada, desejando nada além de ir para o mais longe possível, começou a andar com passos rápidos. Como se pretendesse ir para casa a pé.

Não tinha se afastado muito da casa, no entanto, quando sentiu aquele mesmo aperto firme em seu pulso. Uma mão forte a segurava e a impedia de continuar. Ao voltar-se de frente para a pessoa que a segurava, deparou-se com William.

--Onde está indo? – Ele a questionou. – Venha. Vamos para casa. – Chamou, tentando guiá-la até o seu carro.

--Você quer dizer: o seu apartamento. – Ela contestou, com o mesmo tom amargo que dirigira a sua mãe.

--Você é minha mulher, o seu lugar é comigo! – Ele rebateu, zangando-se.

O olhar magoado que ela lhe lançou fez com que suas entranhas contraíssem.

--Perdoe-me por tê-la feito passar por isso. – Disse com o tom de voz mais ameno, lançando um breve olhar na direção da casa. – Você tem todo o direito de estar zangada. Foi horrível! Eu não imaginei que seria deste jeito. – Confessou, sentindo-se culpado. – Eu sabia que meus pais teriam suas objeções...

--Objeções? – Ela o interrompeu, descrente com a escolha de palavras dele. Como se as enumeras ofensas que ouvira aquela noite fossem simples objeções!

--Não estou justificando-os. – William se defendeu. – Mas o seu pai não foi a favor do nosso casamento, tampouco! – Contestou, irritado. – Ele também tinha as suas objeções.

--E ele estava certo! – Ela exclamou, furiosa, calando William.

Finalmente ele estava tomando conhecimento, mesmo que superficial, do teor da  conversa entre Elizabeth e seu pai.

Elizabeth lançou um olhar ferido na direção da casa dos pais dele e depois o fitou nos olhos.

--A quem nós estamos tentando enganar, William? – Perguntou-lhe, sentindo o nó formar em sua garganta e os olhos pinicarem. – Isso não vai dar certo. Nós... não vamos dar certo.

--Não diga isso! – Ele exclamou, consternado com esta segunda alusão a uma separação. – Nunca mais repita isso! – Ordenou, voltando a se zangar com ela. – Agora vamos para casa. – Pegando-a pelo braço, arrastou-a até o seu carro.

Acionando o controle remoto, destravou as portas do carro. Abriu a do passageiro e fez Elizabeth entrar, batendo a porta em seguida. Depois contornou o carro com passos rápidos e entrou. Não voltou a olhar na direção da casa em momento algum. Por isso não viu que sua mãe assistira ao fim da discussão entre eles da porta de casa.

 

 

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