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A vaidade ao trabalhar em uma mente fraca é a fonte de todo tipo de discórdia. (Jane Austen)

Colisão - Capítulo XXXII

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Capítulo XXXII

Ano Novo

 

Na noite de 31 de Dezembro, Darcy seguiu de carro sozinho até o Savoy Hotel, onde passaria a virada do Ano com seus familiares reunidos. Desceu do carro e entregou as chaves ao manobrista, adentrando o Hotel entre outros convidados.

Não teve problema algum em encontrar a mesa em que sua família fora acomodada. Seus pais, irmã e tios já se encontravam ali. Faltavam apenas o seu primo Noah, sua esposa e filhinha. Além de Richard – quem, ele descobriu recentemente, estava em Pemberley.

Deixou seus olhos percorrerem o salão, procurando a mesa em que Charles e sua família estariam acomodados. Sabia que o amigo convidara a família de Jane para romper o Ano com eles e queria saber se Elizabeth já havia chegado.

Por sorte, a mesa em que os Bingley estavam era próxima a mesa em que própria família se encontrava. Mas percebeu que os Bennet ainda não estavam ali, assim como Bingley. Imaginou que o amigo devia ter ido buscá-los e não tardariam a chegar.

Estranhando a si mesmo, sentiu um frio na barriga incômodo ao se imaginar reencontrando Elizabeth. Esta será a primeira vez em que se vêem desde que romperam.

Passou rapidamente pela mesa dos Bingley a caminho da sua própria e os cumprimentou. Caroline tentou convencê-lo a se sentar com eles, mas conseguiu escapar-lhe usando da desculpa de ter chegado naquele instante e ainda não ter falado com sua própria família.

Em seguida, foi se juntar aos seus familiares. Sentou-se ao lado de sua irmã e viu Georgiana lhe dirigir um olhar atento. Cumprimentou os pais e engajou a irmã em uma conversa boba, tentando distrair a si mesmo. Além de disfarçar o seu nervosismo e ansiedade.

Mas, a cada minuto, olhava para a mesa em que a família de Charles estava – notando a sua ausência – e deixava o olhar recair sobre o seu relógio de pulso.

Viu o seu pai se levantar e ir cumprimentar Catherine De Bourgh que acabara de chegar.  Estava acompanhada por Norman O’neal, seu atual marido, e Anne. Darcy estranhou o fato de Anne estar sozinha. Onde estava o seu namorado, o ator americano? “Qual é mesmo o nome dele?”, perguntava-se.

Viu seu pai olhar em sua direção e este gesto foi o bastante para que Darcy se erguesse e se aproximasse dele. Trocou umas breves palavras com os recém-chegados, quando viu Charles adentrar o salão com Jane ao seu lado.

A família dela vinha logo em seguida – o sr. e a sra. Bennet, as suas filhas mais novas (Catherine e Lydia já aos risinhos e Mary com uma expressão de impaciência no rosto) e, por fim, Elizabeth.

Acompanhou o seu cortejo com o olhar até que se aproximaram da mesa em que os pais de Bingley se encontravam. Elizabeth estava ainda mais bonita que ele se lembrava.

Estava usando um vestido longo rosa pêssego tomara que caia, com a saia esvoaçante – que flutuava ao seu redor enquanto ela percorria o salão. Dando-lhe um ar etéreo. O cabelo estava preso em um coque elaborado, as franjas caindo sobre sua testa de forma charmosa e alguns fios soltos agraciando o seu pescoço.

--William? – Seu pai chamou a sua atenção.

Darcy voltou o olhar para seu pai e viu que todos o observavam atentamente. Seu pai com uma expressão desconfiada, Catherine com um olhar frio em direção a Elizabeth, Anne com um pequeno sorriso escondido no canto dos lábios.

--Desculpe-me, eu estava distraído. – Disse, voltando a dar a sua total atenção a conversa que estavam tendo antes da chegada de Bingley.

Darcy viu Adolfo Collins se aproximar da mesa em que se encontrava, trazendo consigo a amiga de Elizabeth – Charlotte Lucas. Ela lhe sorriu discretamente, em um cumprimento particular, enquanto Collins cumprimentava Catherine De Bourgh com toda a sua pompa.

--É uma honra para mim e minha namorada ser convidado pela estimada senhora a romper o Ano em sua companhia...

Darcy perguntou-se se Collins sequer fora trocar algumas palavras com os seus próprios familiares antes de se aboletar em uma das cadeiras à mesa de Catherine De Bourgh.

Anne não demorou muito para começar a conversar com Charlotte e Darcy percebeu que as duas pareciam estar se entendendo muito bem.

~#~

Elizabeth admirou a grandiosidade do evento que estava freqüentando. Era a primeira vez que passava a Virada do Ano em um ambiente tão requintado e seletivo. O salão estava meticulosamente enfeitado e uma orquestra tocava música ao vivo.

Ao caminhar entre as mesas, seguindo Bingley e seus familiares, permitia o seu olhar vagar pelo salão deslumbrado. Até que o viu. Seu coração se contraiu e desviou o olhar apressadamente. Preferindo fingir não tê-lo visto ali de pé. Continuou a acompanhar a sua família até a mesa em que os pais e irmã de Bingley os aguardavam. Foi apresentada aos pais de Bingley e acomodou-se em uma cadeira, notando pela primeira vez que suas pernas estavam bambas.

Tentou não olhar na direção dele novamente, mas não conseguiu. Ele parecia mais magnífico e imponente com o seu terno italiano azul escuro, blusa branca e gravata de seda cinza, com detalhes prateados.

--Eu não lhe disse, queridinha? – Ouviu a voz de Caroline ao seu ouvido, falando-lhe num sussurro carregado em veneno. – Eu lhe disse que vocês não durariam muito tempo como casal.

Elizabeth voltou o olhar em sua direção e viu um sorrisinho debochado agraciando as feições dela. Estava tão distraída ao se sentar que não notou quem estava ocupando a cadeira ao seu lado.

--E estava certa. – Caroline disse, saboreando o gostinho da vingança. – Olhe bem pra ele agora. – Comandou, olhando na direção de Darcy. – Você nunca poderia competir com ela. – Comentou com desdém.

Elizabeth voltou o rosto na direção dele e viu a imagem estonteante de Anne De Bourgh ao seu lado, usando um vestido longo azul tomara que caia. Eles estavam se olhando nos olhos. Anne tinha um pequeno sorriso de canto de boca que transmitia intimidade.

Magoada, mas mantendo uma expressão tranqüila, Elizabeth voltou o rosto para Caroline e replicou.

--Engraçado. Não devia ser você ali, queridinha? – Inquiriu com o mesmo ar de cinismo de Caroline.

Caroline ficou sem palavras, o deu a oportunidade para Elizabeth voltar o rosto na direção de Jane e engajar a irmã e cunhado em uma conversa.

~#~

Richard adentrou o pub de Luke com uma sensação estranha em seu intimo. Os Reynolds, assim como outras famílias locais, têm o costume de se reunir naquele bar para curtir a Virada do Ano em união.

Olhou o relógio de pulso e viu que já se aproximava da meia-noite. O pub estava lotado e havia música eletrônica tocando ao fundo. Foi encontrando vários conhecidos pelo caminho e os cumprimentou, demorando-se na companhia de alguns deles.

Demorou um pouco para conseguir localizar os Reynolds. Mas ao se aproximar deles, notou a ausência de Moira.

--Ela está com Luke. – A sra. Reynolds lhe informou sem que fosse preciso ele perguntar.

Mas ao contrário do que ela esperava, ele não saiu em busca de sua filha. Permaneceu em sua companhia por uns minutos e depois se afastou, indo ao encontro de outros conhecidos.

Mesmo após encontrá-la por acaso, não procurou contato. Manteve-se a distância, interagindo com os outros ali presente. Sabia que ela o tinha visto e o fato de que ela não buscou a sua companhia confirmou a sua suspeita de que ela preferia que se mantivesse afastado.

Fora assim que se comportara durante toda a sua estada em Pemberley. Ainda que lhe garantisse que ele não precisava ir embora por sua causa, continuou a evitá-lo com se ele possuísse a peste.

Estava distraído com estes pensamentos quando o pai de Luke anunciou que faltava um minuto para a meia-noite. O som eletrônico foi desligado e as pessoas começaram a procurar seus familiares.

Richard retornou para perto dos Reynolds e encontrou Moira lá. Aguardou próximo a eles, mas não tão perto dela – quem lhe dirigia olhares furtivos.

--Cinco, quatro, três... – A contagem regressiva foi iniciada e todos contavam em uníssono. – dois, um... Feliz Ano Novo!

Houve uma algazarra enquanto as pessoas se abraçavam e beijavam, desejando ao próximo um ótimo ano de 2010. Richard compartilhou um abraço contido com o sr. Reynolds, um muito mais apertado e amoroso da sra. Reynolds e se adiantou na direção de Moira – quem parecia aguardar aquele momento com sentimentos conflitantes – ansiedade e insegurança.

Enlaçou-a pela cintura e abraçou-a lentamente, aproveitando cada segundo daquele momento mágico. Podia sentir as mãos dela percorrendo seus braços, até acomodarem-se ao redor de seu pescoço. Enterrou seu rosto em seu pescoço e fechou os olhos, respirando fundo. Queria poder nunca mais soltá-la.

Mas um instante depois já podia sentir que ela ficava inquieta. E, relutante, decidiu soltá-la.

--Feliz Ano Novo. – Desejou-lhe, dando um passo para trás.

--Feliz Ano Novo. – Ela retribuiu, com um mínimo sorriso, antes de se aproximar do próprio pai e abraçá-lo.

A música recomeçou a tocar e a animação no pub pareceu aumentar entre os presentes. Algumas pessoas abriam garrafas de champagne e faziam brindes. Outras se ocupavam de comer alguma guloseima deliciosa. E outras queriam apenas dançar.

Richard voltou a circular pelo pub, desejando felicitações aqui e ali, participando de brindes. Antes de escolher um canto e passar a observar a festa das outras pessoas. Logo algumas delas começasse a extravasar na bebida e arriscar-se em alguns passinhos de dança mais ousados.

Não demorou muito para que ele começasse a se sentir excluído daquela felicidade que presenciava ao seu redor. Deixando-se abater pela mesma tristeza que o dominara durante o Natal na casa de seus tios em Londres. Sentia que sua vida estava estagnada e que não sabia mais como mudá-la, ou se teria mais forças para tentar mudá-la.

--Esse ar melancólico não combina com você. – Ouviu a voz dela ao seu lado.

Ao voltar o rosto em sua direção, a viu escorada na parede ao seu lado, não muito distante. Moira estava com uma taça de champagne na mão e observava as outras pessoas no salão.

--Você acha que sou incapaz de ficar triste, não é? – Perguntou-lhe, sério.

Ela olhou para ele.

--Não foi o que eu quis dizer. – Defendeu-se.

Os dois trocaram um olhar indefinido, um tentando ler as emoções do outro.

--Você não vai me dar outra chance, não é? – Enfim, ele perguntou.

--Eu não posso. – Ela respondeu, quase sem voz.

--Por que não? – Não soou exaltado, apenas queria entender as suas razões. – Eu sei que você me ama. – Afirmou, olhando-a nos olhos.

Moira desviou o olhar e suspirou.

--Por que? – Insistiu, já se desesperando.

--Porque se você me magoar de novo, eu nunca mais poderei te perdoar... ou a mim mesma. – Ela respondeu, com a voz embargada e com os olhos brilhando por causa das lágrimas não derramadas.

--Moira, eu não vou... – Ele se desencostou da parede e se aproximou mais dela.

--Richard, por favor. – Ela o interrompeu. – Eu não ia querer falar com você. Não ia conseguir ficar perto de você. – Argumentou, tentando controlar suas próprias emoções. – Nós nunca mais poderíamos ser amigos.

--Nós nunca fomos amigos. – Ele refutou. – Eu não quero ser seu amigo. – Afirmou, exaltado.

--Entenda. – Tentou convencê-lo. – É um risco.

--Eu sei. – Murmurou, já bem próximo a ela. Mas sem tocá-la.

--E você não tem medo? – Questionou-o, surpresa com a sua calma.

--Eu arriscaria tudo por você. – Foi sincero. – A única coisa que me apavora é ficar sem você.

Moira queria poder se afastar dele e resisti-lo. Mas, ao senti-lo enlaçá-la pela cintura, soube que não possuía mais forças para fugir dele. Richard havia conseguido derrubar a última barreira que impusera entre os dois com estas suas palavras. E sentiu como se um peso fosse arrancado de suas costas quando sentiu os lábios dele pressionados contra os seus, rendendo-se por completo a sua paixão.

~#~

Mary estava entediada naquela festa. Vira a virada do Ano sentada a mesa da família de Bingley. Comemorara com seus familiares e seus anfitriões. Mas há muito que todos pareciam entretidos consigo mesmos e esquecidos dela.

Sua mãe atiçara suas irmãs mais novas a irem dançar e agora estava conversando com os pais de Charles, Norah e Anthony Bingley. Discutiam o namoro de Charles e Jane de forma entusiasmada.Via ao longe Charles e Jane dançando, Lydia e Catherine passeando entre as mesas e flertando com os rapazes desacompanhados e Elizabeth dançando com seu pai na pista de dança.

Abriu a sua bolsa, retirou uma pequena lanterna e o livro Norte e Sul[1] de Elizabeth Gaskell. Abriu o livro na página marcada e retomou a sua leitura de onde parara naquela tarde.

Estava assim distraída quando uma voz familiar lhe chamou a atenção.

--Mary? – Mary ergueu o olhar do livro e reconheceu Johnny de pé ao seu lado. – Eu pensei tê-la reconhecido. – Comentou.

--Oi. – Replicou, antes de voltar o olhar para o livro.

--Você quer dançar? – Ele questionou.

--Na verdade, não. – Respondeu, desta vez sem erguer o olhar.

Ele puxou a cadeira vazia ao seu lado para mais perto dela e se sentou.

--O que você está lendo?

Mary ergue o livro e mostrou-lhe a capa.

--Não há uma série de TV baseada nesta história? – Questionou-lhe.

--Sim. Produzida pela BBC. – Replicou, já ficando impaciente.

--Minha irmã mais nova adora. – Ele declarou. – Mas eu acho que é por causa do ator que interpreta o mocinho.

--Richard Armitage. – Mary informou-lhe, ao deduzir que ele sequer sabia de quem se tratava direito. – Mas eu não o definiria como um mocinho. – Declarou; quando pensava nele, a única palavra que chegava o mais perto de uma definição apropriada para ele em sua opinião é homem (com H maiúsculo).

--Você já assistiu? – Ele prosseguiu com o seu interrogatório.

Mary fechou o livro, mas manteve um dedo marcando a página, e ergueu o olhar para ele.

--Não é querendo ser rude, mas o que é que você quer?

--Eu te vi sozinha e pensei se não seria bom vir aqui conversar com você. – Ele respondeu com simplicidade.

--Já te ocorreu que se estou lendo um livro em plena festa é porque eu não quero conversar com ninguém?

--Ahh... – Ele ficou sem saber o que responder; aquilo não havia passado por sua mente.

Um silêncio constrangedor recaiu sobre eles até que a sra. Bennet chamou-lhes a atenção.

--Mary, quem é este jovem ao seu lado?

--Meu nome é Johnny Hawk, senhora. – Johnny pôs-se de pé e foi cumprimentá-la com um aperto de mão.

--E de onde você conhece a minha filha?

--Freqüentamos a mesma Universidade.

--Que maravilha! – Exclamou, contente. – Por que vocês dois não estão dançando? – Propôs logo em seguida.

--Mamãe, não. – Mary pediu.

--Mary, largue este livro e vá dançar um pouco. – A sra. Bennet ordenou. – Você veio a festa para se divertir.

--Mas... – Ela ainda tentou remediar.

--Agora. – A sra. Bennet não quis ouvir.

Mary fechou o livro, colocou-o de volta na bolsa e ergueu-se da sua cadeira, com uma expressão mal humorada no rosto. Acompanhou Johnny até a pista de dança.

--Eu não sei dançar. – Confessou, ao parar de frente para ele.

--Nem eu. – Ele respondeu, com um sorriso mínimo nos lábios.

--E por que me convidou para dançar? – Interrogou-o, confusa.

--Pensei que fosse um jeito de me aproximar de você. – Declarou, ao passar uma mão por sua cintura e trazê-la mais para perto. – Mas não deve ser tão difícil assim. Um passo pra lá outro pra cá. – Argumentou, tranqüilo.

Mary preferiu não discutir. Imaginou que o quanto mais rápido isso começasse, mais rápido terminaria. Com esta idéia em mente, passou os braços envolta do pescoço dele e tentou acompanhá-lo. Ambos dançando da forma mais desajeitada dentre os casais naquela pista.

~#~

--William, eu gostaria de conversar com você por um instante. – Catherine disse ao se aproximar dele, convidando-o a acompanhá-la até a sua mesa.

Fez como lhe foi pedido, sentando-se ao seu lado.

--Eu não sei se você já está ciente, mas estava conversando com seu pai a respeito há alguns dias. – Catherine começou a dizer. – Eu considerei por bastante tempo uma expansão do meu negócio para outro ramo completamente novo. O ramo da hotelaria.

--Não fazia idéia. – Replicou, surpreso. Seu pai não havia feito comentário algum a este respeito.

--Sim. Eu comprei cinco hotéis em países distintos e já tinha um projeto desenvolvido com uma construtora local, que ficaria responsável pela reforma dos hotéis. Mas eu tive um desentendimento com a construtora e não será mais possível que o projeto prossiga com os planos delineados por ela. – Catherine lhe explicava. – Eu imediatamente solicitei a presença de sr. Collins aqui para resolver este empecilho, já que dois dos hotéis que comprei fica justamente nos EUA.

Ao ouvir o seu nome, Collins imediatamente empertigou-se em sua cadeira e passou a ouvir a conversa entre Catherine e William.

--Nós conversamos e concordamos que o melhor a ser feito para que o projeto da reforma dos hotéis seja concluído o mais próximo do prazo inicialmente estipulado seria contratar uma nova empreiteira.

--Eu entendo. – Darcy disse. – Seria o mais adequado realmente.

--É bom que concorde, já que pensei que seria ótimo se trabalhássemos juntos. – Catherine logo propôs. – E era sobre isso que queria tratar com você. Se você estaria interessado em ser o arquiteto deste meu novo projeto.

E sem ouvir a sua resposta, passou a tratar dos detalhes.

--Você teria de viajar de imediato para visitar os hotéis que adquiri, para poder começar a trabalhar no projeto nos próximos meses...

--Eu gostaria muito de aceitar, Catherine, mas estou comprometido em um projeto em Milão nos próximos cinco meses. – Darcy a interrompeu, declinando a sua proposta.

--Entendo. – Catherine respondeu, de forma contida. Darcy pôde perceber que ela não estava satisfeita com a sua negativa. – Collins.

--Sim, sra. De Bourgh? – Adolfo prontamente respondeu.

--Teremos que passar para o outro plano, então.

--Claro. Providenciarei para que todos os arquitetos de renome sejam convidados a fazerem um projeto para a reforma dos hotéis e estipularei o prazo que combinamos para que a senhora possa decidir-se entre um deles.

Catherine e Collins logo passaram a discutir negócios e Darcy foi esquecido. Estava preste a se retirar, quando Anne saiu da pista de dança e se sentou a cadeira vaga ao seu lado.

--Oi. – Ela sorriu-lhe ao sentar-se.

--Você está muito bonita. – Darcy a elogiou.

--Você também. Mas é claro, você sabe bem disso. – Ela replicou, arrancando-lhe uma risada baixa gostosa.

Catherine viu esta interação entre os dois e se retirou da mesa, levando consigo Collins. Ambos foram se juntar a Norman, quem estava em uma roda de homens de meia idade – todos com aspecto muito sério.

--Pensei que teria a oportunidade de conhecer o seu namorado esta noite. – Darcy comentou, olhando para Anne com atenção.

--Albert precisou voltar para a América. Ele está produzindo um filme e houve algumas complicações com as novas locações. – Ela esclareceu, tranqüila. – Irei ao seu encontro nos próximos dias.

--Então, o envolvimento de vocês é sério? – Questionou-lhe, curioso. Percebeu as intenções de sua ex-sogra ao deixá-los sozinhos, numa tentativa de reaproximá-los.

--Muito. – Ela respondeu, sorrindo-lhe.

Ele correspondeu ao sorriso.

--Gosto de vê-la feliz assim. – Comentou, sincero. Anne riu com gosto. – Sua mãe parecia preocupada. – Acrescentou, pensativo.

--Ela está. – Anne confirmou, parando de sorrir e dirigindo o seu olhar a sua mãe, que os observava a distância. – Mas pelas razões erradas. – Disse, voltando o olhar para ele. – Ela teme que Albert seja uma má influencia para mim em termos de negócios. Unicamente porque estou cogitando a possibilidade de financiar um de seus futuros filmes.

Darcy preferiu não comentar a este respeito. Não conhecia Albert para poder dizer se a sra. De Bourgh tinha razão em suas suspeitas. Conhecia história de pessoas sem escrúpulos que se aproximavam de ricos apenas para extrair-lhe algum beneficio. Sua própria irmã fora vítima de uma pessoa assim.

--Ele é uma boa pessoa, Will. Não está se aproveitando de mim, nem nada. – Anne afirmou, como se pudesse ler a sua mente. – Você me conhece. Eu não sou ingênua como minha mãe gosta de pensar. – Declarou, segura. – Eu tenho este dinheiro guardado e continuo deixando minha mãe administrar a minha parte da herança de meu pai... Só agora percebi que quero ser mais independente, sabe? Sem precisar ficar consultando a minha mãe a cada nova decisão que faço a respeito da minha vida. – Esclareceu, calma e racional. – Mas não fazia idéia do que queria fazer com todo este dinheiro. – Ela fez uma pausa breve. – Quando conheci Albert e ele começou a me contar como era a sua vida como produtor de cinema, eu fiquei encantada. Não só por ele, mas pelo mundo em que ele vive. E comecei a pensar... ‘eu posso fazer isso’.

Darcy assistia as feições do rosto dela se suavizar ao falar em Albert Hurst e os olhos brilharem.

--Percebi que não havia motivo que me impedisse de fazer o quer que fosse. Que eu não era obrigada a seguir os passos da minha mãe. Que eu podia fazer o que eu quisesse. – Ela continuou, excitada. – Entende?

--Eu entendo. – Darcy afirmou, ele sabia bem pelo que ela estava passando. Com ele não fora diferente; também precisou enfrentar o seu pai quando decidiu ser arquiteto ao invés de seguir os seus passos e controlar o negócio da família.

--E é isso o que ela não entende. – Anne disse, triste. – Ela não percebe, mas gosta de comandar a minha vida como dirige a sua empresa. E eu cansei disso.

Os dois ficaram em silêncio, perdidos nestas conjecturas por um breve momento. Darcy queria lhe dar apoio. Embora não estivessem mais juntos, gosta muito de Anne. E estava certo de que podiam continuar a serem amigos.

Pensando nisto, notou como seus sentimentos por esta mulher mudaram nos últimos poucos meses. Quando ela terminou a relação, sentiu-se triste. Não queria separar-se dela. Sabia que não poderia lhe dar aquilo que ela queria, mas nem por isso queria uma separação. Percebeu ali o quanto fora egoísta.

E agora, estava sentado ao seu lado e só conseguia desejar que Albert fosse mesmo um bom homem e a fizesse feliz. Não conseguia encontrar em seu íntimo um resquício daquele sentimento de posse que um dia sentira ao pensar em Anne. Em sua mente, corpo e alma havia lugar apenas para uma mulher.

Ao constatar isto, deixou o seu olhar vagar pelo salão, a sua procura.

--Ela está ali. – Ouviu a voz de Anne ao seu lado e voltou o rosto em sua direção.

--Quem? – Perguntou-lhe.

--Quem você procura. – Ela respondeu, com aquela mesma expressão de quem conseguia ler sua mente e adivinhar os seus pensamentos. – Bem ali. – Indicou, por fim, a direção.

Darcy voltou o seu rosto na direção da pista de dança e viu Elizabeth. Darcy ficou tenso em sua cadeira ao vê-la nos braços de outro homem, dançando uma música lenta. Mas relaxou logo em seguida ao conseguir identificar o homem como sendo o sr. Bennet.

Ao lembrar-se que estava conversando com Anne, voltou o rosto em sua direção e a flagrou observando-o com um olhar divertido.

--Eu não estava... – Disse, tentando negar o obvio.

--Sim, estava. – Ela desmentiu a sua afirmação, sorrindo.

Darcy suspirou, rendendo-se.

--Por que você não vai até lá? – Anne propôs.

--Nós não estamos mais... envolvidos. – Darcy explicou-se.

--Por que?

--É complicado. – Respondeu, evasivo.

--Tente explicar. – Anne pediu. – Nós fomos amigos antes de sermos namorados, nada nos impede de continuarmos a sermos amigos agora. – Acrescentou ao perceber sua relutância.

--Eu acho que... a melhor forma de explicar o que aconteceu entre a gente é... – Darcy pestanejou, em busca das palavras certas. – Ela não confiou em mim. – Disse, conciso.

Diante do olhar de Anne, tentou ser mais esclarecedor.

--Elizabeth não acreditava que eu estava inteiro na relação. – Decidiu explicar-se utilizando a mesma palavra que ela usara em sua última conversa. – Que eu não estava tão envolvido com ela quanto ela estava envolvida comigo. – Concluiu, pensativo, perguntando-se: “era isso o que ela estava tentando me dizer?”.

Voltou ficar em silêncio, confuso com esta possibilidade.

--Compreensível. – Anne disse, recuperando sua atenção.

--Você acha? – Darcy se surpreendeu com a sua reação.

--Will, você sabe como você é. – Anne comentou, calma.

--Como é? – Darcy reagiu de imediato a este comentário.

--Você não é muito... emotivo. – Anne disse. Diante da expressão de assombro de Darcy, que logo evoluiu para discordância, Anne explicou. – Você não demonstra com facilidade o que está sentindo. Não é dado a arroubo de paixões e gestos grandiosos.

--Eu sou uma pessoa racional. – Ele declarou, defensivo.

--Muito racional, às vezes. – Ela contrapôs. – Uma garota quando está apaixonada quer se sentir especial, desejada... Ela não sabe ler a sua mente, adivinhar o que você está sentindo. Mesmo que esteja estampado em seus olhos!

Darcy sentiu suas orelhas esquentarem e sabia que estava ficando corado. Era uma sensação muito estranha estar ali conversando com Anne sobre sua paixão incontrolável por outra mulher.

Desviou o olhar de novo e instintivamente ele recaiu em Elizabeth.

--Eu passei nove anos desejando que você me olhasse desse jeito. – Anne confessou, tristemente.

Darcy voltou o rosto em sua direção ao ouvir isto e a viu virar o rosto na direção contrária, evitando encontrar o seu olhar.

--Anne. – Darcy murmurou, incerto do que devia dizer.

O silêncio perdurou por alguns segundos em que Anne se negou a olhar para ele.

Neste instante, a sra. De Bourgh retornou para a mesa e se sentou. Ao encontrá-los em silêncio, evitando se olhar nos olhos, decidiu intervir. Aquele clima estranho entre eles não era de seu agrado.

--William, por que você não leva Anne para dançar um pouco? – Recebeu um olhar contrariado da filha, que escolheu ignorar. – Vocês são tão jovens. Não devem ficar a noite toda sentados aqui. Vão dançar um pouco.

Darcy não se negou a atender o seu desejo e pôs-se de pé, solicitando a mão de Anne para uma dança. Juntos seguiram para o salão no exato instante que uma música acabava e outra lenta começava.

Darcy viu o sr. Bennet voltar para a mesa sozinho. Mas não encontrou Elizabeth. “Onde será que ela foi?”, perguntava-se ao enlaçar Anne pela cintura e começar a se mover no ritmo da música. Seus olhos ainda percorrendo o salão, procurando por Elizabeth. Vindo a encontrá-la conversando com Charlotte.

As palavras de Anne a seu respeito estava deixando-o perturbando. Mas concluiu que este não era o único motivo de discórdia entre ele e Elizabeth, e Anne não sabia disso.

Ela não sabia sobre Wickham e preferiu não entrar em detalhes quanto à participação dele no seu rompimento. Estavam em um lugar público e não queria chamar a atenção de ninguém para aquele assunto. Algo tão intimo de sua família que sequer Anne conhecia os detalhes a respeito.

E, enfim, deduziu que Anne estava errada ao pensar que ele afastara Elizabeth com o seu comportamento contido. E estava errada também ao acreditar que Elizabeth estivesse apaixonada por ele. Se isso fosse verdade, Elizabeth não teria acreditado nas palavras de Wickham a seu respeito. Teria confiado nele.

Sim. O melhor que poderia fazer era tirá-la da cabeça. Esquecê-la em definitivo. E faria isso. Não importa quanto tempo levasse, esqueceria Elizabeth Bennet!

E, desde então, prometeu-se parar de procurar por ela naquele salão. É claro, às vezes seus olhos o contrariavam e a seguiam, deixando-o insatisfeito.

~#~

“Olhar para você torna tudo mais difícil

Porque sei que você encontrará outro alguém

que não irá fazê-lo chorar sempre

Começou com um beijo perfeito

Mas pudemos sentir o veneno penetrando

Perfeição não foi capaz de manter este amor vivo”

--Eu conversei com ela hoje mais cedo. – Charlotte disse a Elizabeth, ao vê-la observando Darcy dançando com Anne. – Ela é bastante simpática e ficou muito interessada no que eu faço quando lhe disse que era estilista. Me encheu de perguntas.

--Oh... – Elizabeth não sabia o que comentar em resposta.

Imaginava que Anne De Bourgh devia ser uma pessoa legal, já que Darcy a namorou por um bom tempo. Mas não sabia se isto era um fato reconfortante. Ao observá-los juntos, dançando, sentiu a angustia apenas crescer em seu peito.

--Eles não reataram. – Charlotte informou. – E não creio que irão reatar.

--Se eles reataram ou pretendem reatar não faz muita diferença, Char. – Elizabeth disse, desviando o olhar do casal e fixando-o em sua amiga. – O que importa é que não estamos mais juntos. – Esclareceu, tentando soar calma e indiferente.

--É uma questão de tempo para que se acertem. – Charlotte garantiu.

--Eu não acredito. Nós nunca fomos feitos para ficarmos juntos. - Alegou, voltando a observá-lo com outra mulher em seus braços. – Somos muito diferentes.

--Nunca pensei que você fosse se deixar levar pela questão social... – Começou a dizer, mas Elizabeth interrompeu-a.

--Não estou me referindo a isto. Mas sim a diferença como indivíduos. – Argumentou. – Somos incompatíveis.

--Eu discordo. – Charlotte disse, veemente. – Sim, são diferentes. Ele é um homem sério e imponente. Você é cheia de vida e expansiva. E quanto a química, você mais que ninguém sabe o quanto são compatíveis. – Rindo, declarou. – Juntos, vocês se completam. E uma vez que reatarem, não terá quem separe.

--Jane me contou que Charles e ele irão passar os próximos cinco meses em Milão. – Elizabeth informou-lhe. – Se a gente fosse reatar alguma coisa, seria esta noite. E eu não vejo isto acontecendo, você vê? – Questionou-lhe, cética.

--Vocês nunca mais conversaram? – Charlotte estava começando a entender a relutância da amiga em acreditar em um futuro em que os dois estivessem juntos.

--Não. – Elizabeth respondeu, olhando-a nos olhos. – E ele se manteve bem longe de mim a noite toda... – Ela declarou, ainda tentando soar indiferente.

“Lembra-se de todas as coisas que queríamos

Agora todas as nossas lembranças nos perseguem

Nós fomos feitos para dizer ‘adeus’.”

Ao voltar o olhar na direção dele, viu o momento em que ele saiu da pista de dança com Anne e a deixou a mesa em que sua mãe estava sentada. Para, sem seguida, se aproximar de sua irmã.

Viu que Caroline estava na companhia de Georgiana e que ficou cheia de sorrisos para ele. Elizabeth não podia negar que ela estava extremamente linda com um longo vestido e os cabelos ondulados soltos.

Mas Darcy convidou a sua irmã para dançar e não Caroline – quem ficou evidentemente decepcionada.

--E eu não soou do tipo que fica correndo atrás de um homem como um cachorrinho perdido. – Comentou. – Eu tenho muito amor próprio para me submeter a este papel ridículo.

--Como Caroline não parece ter. – Charlotte comentou, acompanhando o seu olhar e entendendo perfeitamente a sua referência. – Bem, eu ainda acho que vocês foram feitos um para o outro. – Declarou, convencida.

Elizabeth sorri-lhe, tristemente, dizendo.

--Nem mesmo em outra vida.

 

 

 

 

 

 

 

 

Sou forte, mas eu me machuco

Sou teimosa e erro bastante

 

Sim, eu sou difícil

E a vida comigo nunca é fácil

para entender, para amar.

 

Um dia quando estivermos no mesmo lugar

Quando estivermos na mesma estrada

 

Quando não houver problema em segurar minha mão

Sem nos sentirmos perdidos, sem todas as desculpas

 

Quando for só porque você me ama

Você me permitir, você precisar de mim

Talvez, talvez...

 

Tudo que você tem que fazer é me abraçar

E você vai saber e você vai ver o quão doce pode ser

 

Se você confiar em mim, me amar, me permitir

Talvez, talvez...

Parte II

Sou confusa demais, eu sou norte e sul

E eu provavelmente nunca entenderei tudo

 

Mas o que eu sei é que não fui destinada

A andar nesse mundo sem você

 

E prometo que vou tentar

Eu vou tentar te dar cada pedacinho de mim

 

Cada detalhezinho que você perdeu com seus olhos

Talvez, sim talvez...

 

Um dia nos reencontraremos

E você precisará de mim, você me verá completamente

Cada pedacinho, oh sim, talvez, você me amará, você me amará

 

Eu deveria saber que não devia brincar com fogo duas vezes

Mas estou pensando...

Talvez, sim, talvez você possa

Me amar...

Talvez...

 



[1] North and South é a obra literária de Elizabeth Gaskell que conta a história de Miss Margareth Hale, uma jovem criada no sul da Inglaterra que se vê obrigada a mudar juntamente com a família para o norte do pais, na cidade industrial de Milton. A mudança foi muito difícil já que as diferenças entre o Sul e Norte eram muito grandes, mas a medida que começa a se habituar a nova cidade, Margareth faz amizades e conquista o coração do rico fabricante têxtil John Thornton. Mas quando ele declara o seu amor, ela o rejeita. Margareth sofre muitas perdas, mas enfim amadurece e aprende a conhecer seus sentimentos...

 

 

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