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A não mudar nunca de opinião podemos chamar de teimosia. Mudar de opinião com conhecimento de causa é a ação de alguém dotado de inteligência. (Jane Austen)

10 coisas que preciso fazer antes de ter você... - Capítulo V

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Capítulo V
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O tempo... Nosso amigo ou inimigo?
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Sete anos depois...
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Lizzy...


Porque os livros de estórias românticas e contos de fadas não nos avisam que no felizes para sempre, sete anos depois os príncipes estão arrumando as malas enquanto nosso coração é dilacerado?

Sentada no sofá da sala, tinha meu olhar perdido no enorme quadro com a foto do meu casamento, onde eu e George nos olhávamos tão apaixonados como se tudo fosse durar para sempre; como se o sentimento fosse eterno, assim como os laços matrimoniais que nos uniam.

Foram longos sete anos, dos quais cinco foram muito felizes não posso negar, mas os últimos dois anos foram o nosso inferno, traições, mentiras, brigas e muitas separações e reconciliações. Até agora quando ele está prestes a ir, me pergunto o que nos levou a tudo isso, e sinceramente não consigo encontrar as respostas.

Coloquei meus pés sobre o sofá e abracei meus joelhos enquanto deixava algumas lágrimas solitárias caírem; meu mundo, meu castelo imaginário de felicidade estava se desmoronando e com ele as rédeas da minha vida estavam indo embora.

Ouvi passos vindos do quarto e rapidamente me recompus me colocando de pé junto a janela; enxuguei as lágrimas enquanto os passos se aproximavam e finalmente George surgia arrastando suas malas com um olhar desolado de quem estava chorando.

- Deixei apenas algumas coisas que não couberam nas malas. – ele falou tão baixo que mal ouvi.

- Deixe seu endereço que amanhã mesmo mandarei entregar.

- Pra que isso, Lizzy? Ainda podemos reconsiderar, você só precisa de um tempo.
- Eu não preciso de tempo coisa nenhuma, George. Não vamos voltar a este assunto novamente; desta vez é sério. Acabou. – a ultima palavra saiu espremida por minha garganta.

- Tem certeza de que é isso que quer? Eu ainda de te amo, Lizzy.

- Para! – explodi completamente impaciente. – Não quero mais ouvir suas mentiras.

- Não é mentira, eu te amo. Ainda podemos salvar nosso casamento.

- Estamos tentando salvá-lo há dois anos e sinceramente, não agüento mais esta situação; pra mim chega, não posso mais.

- Olha, eu sei que agi errado muitas vezes, mas eu posso mudar...

- Mudar?! Sinceramente, George, você está na profissão errada, ao invés de advogado deveria ser palhaço, porque está me fazendo rir com essa piada de mudar. – o provoquei. – Sabe quantas vezes me disse isso? Milhares, e continuou o mesmo canalha. Você destruiu nosso casamento então não me venha falar em salvá-lo. – gritei.

- É muito fácil me culpar quando você nunca se entregou por completo nesta relação, sempre tive migalhas suas, Lizzy. Sou um homem e não sou obrigado a viver de sobras. – ele rebateu elevando a voz.

- Realmente acredita no que diz? Não tente me culpar por suas canalhices.

- Sabe que tenho razão.

- Você é um idiota. Não acredito que está fazendo isso. – levantei do sofá, exasperada.

- Sempre vivi com a sombra do seu amiguinho entre nós. O Will não faria isso... O Will certamente faria desta forma... – ele estreitava a distância entre nós, me deixando perplexa com aquelas afirmações infundadas. – Se nosso casamento acabou, não sou o único culpado e sabe disso. Será que realmente me amou como diz? Por que estou começando a achar que era ele com quem você queria dividir sua vida e sua cama.

- Já chega! – gritei antes de a minha mão atingir com força a face dele fazendo-o virar, enquanto completamente tremula, me apoiava em um móvel para não cair. – Saia já daqui. – pedi sentindo o ódio me cegar.
- Lizzy... – ele tentou se aproximar, mas recuei bruscamente.

- Sai agora. – abri a porta enquanto descontroladamente empurrava as malas dele porta a fora. – Sai. – gritei impaciente.

Ele ainda me olhou desolado, mas saiu sem dizer uma só palavra. Fechei a porta com toda força e deixei meu corpo deslizar por ela enquanto o choro saiu mais alto do que eu queria; eram mais gemidos desesperados causados pela dor aguda que me matava aos poucos...

*******************

Darcy...

- Francamente, Darcy querido... – aquela segunda cruzada de pernas realmente foi desnecessária. – acha mesmo que devo fazer este investimento?

- Bem, Srta. Griffin, pela minha experiência com este tipo de negócios, seu dinheiro será muito bem investido. – falei seguro enquanto tentava não ver a cor da peça intima que me era mostrado tão descaradamente.

- Se me assegura, confio plenamente em você. Como vê, estou toda em suas mãos. – ela sorriu provocante enquanto piscava o olho direito.

- Oh! – falei sem jeito. – Bem, verei seu advogado ainda esta semana e fecharemos negócio. – levantei para cumprimentá-la.

- Claro, claro. Deixo estes assuntos chatos e tediosos para vocês, mas espero encontrá-lo em outra ocasião, Darcy. – ela levantou deixando clara toda a sua elegância e sensualidade ao caminhar até minha direção. – Estou dando uma festa para amigos íntimos em minha casa este final de semana, ficaria muito feliz em vê-lo lá.

- Sou um homem muito ocupado, Srta. Griffin, mas prometo pensar.

- Garanto que não se arrependerá. Até logo.

Provocante, ela ficou na ponta dos pés e ao invés de aceitar minha mão para um leve aperto, encostou seus lábios carnudos em minha orelha enquanto sussurrava.

- Adoraria vê-lo sem este terno.

Se afastando, sorriu e virou caminhando em direção a porta onde meu melhor amigo e sócio, Charles Bingley assistia a tudo boquiaberto.

- Não acredito no que acabei de presenciar. – ele falou empolgado quando finalmente estávamos a sós.
- Nem eu. – respondi voltando minha atenção aos papéis.

- Megan Griffin, uma das atrizes mais desejadas de todo o mundo dando em cima de você descaradamente em pleno horário de trabalho! Você tem que me dizer qual o seu segredo, Darcy. – ele brincou.

- Eu trabalho sério e nunca misturo trabalho com vida pessoal, este é o meu segredo.

- Tenho que começar a seguir por este caminho. Vivo me metendo em encrencas.

- A modelo novamente? – perguntei olhando para ele que agora estava sentado a minha frente.

- Ainda, você quer dizer. Ela não para de me ligar, faz isso de cinco em cinco minutos, eu não sei mais o que fazer para me livrar dela.

- Charles! – o repreendi impaciente. – quando vai parar de se relacionar com nossas clientes?! Isso pode prejudicar os nossos negócios.

- Qual é, Darcy? São as mulheres mais lindas e desejadas! Você mesmo já fez isso algumas vezes.

- Mas foi diferente. – respondi sério. – Onde estão os relatórios dos investimentos de George Cloney? – mudei de assunto propositalmente.

- Na minha mesa, você os quer agora?

- Sim e me traga também a movimentação da bolsa de hoje, temos que ver quanto ganhamos.

- É pra já, chefe.

Precisei segurar o riso ao ver o Charles batendo continência e saindo apressado da minha sala. Apesar desse jeito avoado e despreocupado dele, éramos grandes amigos desde a faculdade. Cursamos administração juntos e ele me convenceu a me especializar em investimento e administração de capital e como morávamos em Los Angeles, abrimos juntos um escritório de investimentos.

Charles que é filho de um grande diretor de cinema achou que faríamos mais sucesso se cuidássemos dos investimentos dos artistas de Hollywood; no inicio achei uma grande loucura, mas hoje éramos os queridinhos das estrelas, como frisou uma reportagem da revista Forbes.
- Pronto, aqui está. – Charles voltou trazendo a papelada que eu havia pedido. – Tenho uma ótima notícia meu amigo. Três dos nossos clientes acabaram de ficar alguns zeros mais ricos.

- Sério? Realmente uma excelente notícia. – sorri exultante pegando os papeis das mãos dele.

- A frase: “Charles você é um gênio e estava certo em nos colocar neste ramo”. Até que cairia bem agora.

- Está bem, tenho que admitir que você estava certo; quanto a ser gênio, esquece, eu nunca minto. – dei um tapinha na cabeça dele nos fazendo sorrir.

- Que belo amigo eu tenho. – ele respondeu sorrindo.

O som do telefone chamou nossa atenção e com um gesto pedi para que ele atendesse, pois ainda estava examinando os resultados dos investimentos.

- Darcy. – Charles chamou minha atenção. – Sua mãe.

Deixei os papeis sobre a mesa e extremamente feliz, peguei o telefone.

- Mãe?

- Olá querido, atrapalho?

- Claro que não, a senhora nunca atrapalha, mãe.

- Tenho que ligar pra você agora, já que não me liga há quase um mês. – ela reclamou.

- Desculpe. Ando muito ocupado, o escritório vai muito bem e isso nos deixa cheios de trabalho.

- Eu sei querido; tenho acompanhado o sucesso da DB Investimentos e estou muito orgulhosa.

- Obrigada. E como vão as coisas?

- Está se referindo a...

- Estou me referindo à senhora, mãe. – a interrompi antes que ela falasse o que eu não queria ouvir.

- Tudo bem, assunto proibido. – ela sorriu carinhosa. – William, estou ligando para te dar uma ótima notícia.

- Ah é?! E do que se trata?

- Roger me pediu em casamento e eu aceitei. Vou me casar em dois meses.

- O que? – praticamente gritei, tamanha a minha surpresa. – A senhora vai o que?

- Vou me casa com Roger dentro de dois meses, William. Algum problema?

- Não, quer dizer, não sei.

- William Darcy! – seu tom de voz agora me repreendia. – Achei que ficaria feliz por mim.

- E estou, mãe, mas é... é estranho só isso.

- Só o impacto da notícia, então?
- Claro. Desculpe mãe. Realmente estou muito feliz por vocês.

- Estamos juntos há quase dois anos e queremos nos casar.

- Não precisa se justificar, a senhora tem todo direito de ser feliz. Está feliz, não está?

- Muito, mas para minha felicidade ser completa falta apenas uma coisa.

- E o que é?

- Quero você ao meu lado neste momento especial da minha vida, querido.

- É claro que irei. Prometo que um dia antes do casamento estarei aí.

- William... – pelo tom de voz dela, sabia que tinha algo mais que não havia me contado.

- Mãe? – a instiguei a contar.

- Sabe que Roger é australiano. – assenti, então ela continuou. – Bem, ele tem sua empresa lá que está passando por problemas financeiros e não pode mais deixá-la nas mãos dos administradores, então...

- E?

- Vamos nos mudar para lá depois do casamento.

- Vai morar na Austrália?! Mas é muito longe, mãe. – Não gostava muito da idéia da minha mãe se afastar ainda mais de mim.

- Eu sei, querido, mas não posso deixá-lo sozinho. Eu queria muito que você fizesse algo por mim. Sei que é difícil pra você voltar aqui depois de tudo, mas quero que passe um mês comigo antes do casamento.

- Não posso, mãe. – falei com pesar, sentindo o peso de voltar para o meu passado.

- William, já faz sete anos; não pode continuar fugindo.

- Não é isso, é que não posso deixar a empresa tanto tempo. – menti.

- Foram sete anos longe de você. Te vi apenas quatro vezes durante todo este tempo e tudo o que estou te pedindo é que fique comigo por um mês antes que eu vá morar ainda mais distante. Além do mais, precisa enfrentar isso de uma vez por todas, filho.

Fiquei alguns minutos em silêncio; não sabia o que responder. Queria ficar com minha mãe, recompensá-la por tantos anos de afastamento, mas voltar a Londres, voltar para o meu passado não era algo muito fácil.

- William? – A voz da minha mãe soou do outro lado da linha.

- Tudo bem.
Concordei ainda inseguro, mas eu não podia negar isso a minha mãe, não depois de nunca mais ter voltado para casa; não depois de ter fugido. Conversamos mais um pouco onde ela estendeu o convite para Charles a quem adotara como filho, mesmo só tendo estado com ele por duas vezes; depois nos despedimos.

- Más notícias? – Charles que havia permanecido todo o tempo em silêncio, quis saber.

- Ainda não sei, mas vamos fazer uma viagem...

- Você está enlouquecendo?!

*******************

Lizzy...

- Levanta desta cama agora! – Charlotte ordenou quando finalmente deixei alguém entrar na minha casa. – Olha pra você. Tem biscoitos até no seu cabelo.

Olhei para o meu cabelo solto e desarrumado enquanto retirava os farelos de biscoito.

- Sua casa está imunda e a dispensa e geladeira completamente vazias. - Jane falou me lançando um olhar penalizado.

- Vão embora. – resmunguei deitando na cama novamente e cobrindo minha cabeça.

- Um mês, Lizzy. Já faz um mês que você o deixou e ainda não reagiu. Isso vai acabar agora mesmo.

- A Char tem razão, minha irmã.

- Se quer voltar pra ele, por que não faz isso e para de vegetar?

- Vocês não entendem? – falei enquanto descobria apenas a cabeça. - Não é pelo George, é por mim!

- Está ficando cada vez mais difícil de entender, Lizzy. – Jane falou carinhosa enquanto sentava ao meu lado. – Você mesma pediu a separação, praticamente expulsou o George de casa; abandonou tudo voltando a morar na casa dos nossos pais e agora fica aí sofrendo.

- Ele te liga todos os dias, ouvi os recados na secretária eletrônica quando cheguei. Não deveria ter deixado ele ficar com tudo.

- Não deixei ele ficar com tudo, Char, apenas não conseguia ficar lá. Não era mais meu lar, entende? Ainda bem que nossa antiga casa estava desocupada.
Há três anos, meu pai teve um AVC e o médico recomendou repouso absoluto; desesperada, minha mãe decidiu se mudar com ele, Lydia e Kitty para Bath alugando a antiga casa. Após expulsar George de casa, me senti uma intrusa no meu próprio lar e tudo na casa me fazia mal; sem pensar duas vezes, liguei para mamãe e pedi para ficar em nossa casa em Londres até arrumar minha vida.

- Anda, levanta! – Char me arrastou pelo braço. – Vai tomar um banho agora, você está fedendo.

Emburrada, fui até o banheiro; realmente eu precisava de um bom banho. Após meia hora fui até a cozinha e quase não a reconheci; estava limpa e arrumada e um delicioso cheiro de café fresco invadiu meu nariz.

- Espero que alguma dessas empresas de biscoito e sorvete resolvam te patrocinar e pagar suas contas. – Jane apontou as embalagens vazias no lixo. – Já viu as contas a pagar que acumularam na caixa de correio?

- Amanhã vou ao banco. – respondi de má vontade.

- Suas economias vão acabar em breve, Lizzy. O que vai fazer depois? Precisa arrumar um emprego.

- Eu sei, Jane. Só preciso de um tempo.

- Um tempo que já dura um mês? – Char se juntou a Jane nos servindo uma xícara de café. – Precisa voltar para a vida, amiga.

- Eu sei disso, ta legal! Só que é muito complicado. – desabafei largando a xícara no balcão. – Foram sete anos projetando tudo a dois; casa própria, prestação de carro, doutorado. Durante sete anos minha preocupação mais séria foi sobre a cor da cozinha ou qual a cortina que combinava com o papel de parede; sinto-me perdida.

- O mundo não acaba após o divórcio, minha irmã. Eu mesma já passei por isso e reagi muito bem.

Jane havia sido casada por três anos e separada a dois.

- Mas você já era alguém quando casou, tinha sua base. Eu nem sei mais quem eu sou.

- Você é Elizabeth Bennet, a mesma pessoa forte e corajosa que sempre conheci.
- Obrigada por tentar me animar, Char, mas sinceramente não sei o que fazer. Eu tinha tudo tão certo, tão seguro. Tinha rotina a seguir, cuidava da casa, das coisas do George, e agora? Me sinto como um desses bichos de zoológicos, que quando ganham a liberdade não sabem o que fazer com ela.

- Sei que não é fácil, talvez se um dia me separar do Collins me sinta da mesma forma, mas já anulou sua vida por muito tempo, Lizzy. Desde que se casou com George, viveu a vida dele e se apagou; deve aproveitar agora o seu momento e recomeçar.

- A Char tem razão. – Jane concordou. – Você é uma pessoa inteligente, sagaz, sensível e mais forte do que imagina. Se reagir, tenho certeza de que vai conseguir se encontrar e dar a volta por cima.

- Obrigada, pessoal. Amo vocês. – falei emocionada enquanto as abraçava.

- Agora preciso ir. Collins está me esperando na clinica de fertilização. Estamos tentando outro método e desta vez sinto que vai dar certo.

- Vai dar certo sim, Char. – dei forças a ela.

- Eu também tenho que ir; tenho uma audiência daqui a pouco. – Jane falou enquanto vestia o casaco. – Tem certeza de que vai ficar legal?

- Vou sim, obrigada por terem vindo.

- Qualquer coisa, nos ligue.

Me despedi das duas e fitei a grande casa vazia. Era assim que me sentia por dentro, completamente vazia. Hora de uma boa faxina para não pensar em bobagens e voltar para aquela cama cheia de farelos de biscoitos.

***********************
Darcy...... Atenção senhores passageiros, estamos nos preparando para o pouso, por favor, apertem os cintos.

Ouvi a voz do piloto e meu coração acelerou. Depois de longos sete anos, estava voltando para casa; como seria? Bem, eu não sabia, mas sentia que minha vida mudaria.

Após a aterrissagem, eu e Charles pegamos nossas bagagens e nos dirigimos para a empresa de aluguel de carros do aeroporto. Após escolhermos um carro, seguimos para a minha antiga casa.

- O que diabos você tem, Darcy? Mal abriu a boca desde que embarcamos em Los Angeles. – Charles quis saber quando ganhávamos a avenida movimentada.

- Não tem nada de errado comigo, só... Faz muitos anos que não venho aqui. – respondi imerso em minhas lembranças.

- Está relacionado com sua grande paixão do passado?

- Não quero falar sobre isso, Charles. Como você disse, é passado.

- Então não vai procurá-la?

- Não.

- Hum... Mas...

- Não quero falar sobre isso, Charles. – repeti enquanto ligava o som do carro em uma estação de rádio qualquer, forçando-o a se calar.

- Ta legal! Não falo mais, mas, por favor, não me torture com uma música da Britney Spears. – ele falou tapando os ouvidos mudando de estação.

Não pude deixar de gargalhar; mal tinha prestado atenção na música, apenas queria que ele se calasse.

- Então, ansioso para conhecer o seu novo pai? – às vezes eu tinha vontade de jogar Charles pela janela.

- Ele não é meu novo pai. E não, nem um pouco ansioso.

- Devo esperar um duelo no jantar desta noite?

- Quero o melhor para minha mãe, e se o melhor pra ela for se casar com este cara, só me resta aceitar.

- Deve ser estranho ver nossa mãe se casar antes da gente.

- Muito engraçado, Charles. – ironizei. – Agora cala essa boca. - fingi aborrecimento e coloquei novamente na estação e a música da Britney ecoou a todo volume.

- Você é o homem mais cruel que já conheci, William Darcy! – ele gritou devido ao barulho.
Fizemos o restante do percurso em silêncio e quando finalmente estacionei em frente à velha e bela casa, sorri ao constatar que ela permanecia exatamente igual, exatamente como me lembrava. Charles foi o primeiro a sair do carro; ainda fiquei alguns minutos, buscando força para reviver velhas lembranças.

- Filho! – Minha mãe me abraçou carinhosamente enquanto lágrimas molhavam seu rosto. – Obrigada, Will. Foi o melhor presente que você poderia me dar.

- Estou feliz em estar em casa, mãe. Como à senhora está?

- Bem melhor agora. Venha, quero que conheça Roger.

Olhei para o homem que conversava com Charles e respirando fundo, segui minha mãe.

- Roger, este é meu filho William. – minha mãe nos apresentou.

- Como vai William? – ele me estendeu a mão enquanto ostentava um grande sorriso. – Finalmente posso dizer que é um prazer conhecê-lo; sua mãe sempre me falou de você.

- Espero que coisas boas. – tentei ser simpático, mas ainda estava estudando-o.

- Não há nada de ruim para falar de você, meu filho. Agora vamos entrar que o jantar está servido.

Durante o jantar, enquanto Charles e Roger conversavam animadamente, fiquei observando como ele e minha mãe estavam apaixonados; era visível pela troca de olhares cúmplices e carinhosos, o sorriso sempre estampado no rosto dela e como ele sempre se preocupava em saber se ela estava bem e confortável.

Finalmente entendi que essa era realmente a felicidade que minha mãe estava buscando todos estes anos de solidão. No começo, pensei que ela estava tentando substituir meu pai, mas agora vejo que só quer ser feliz e sei que será.

Após o jantar, minha mãe levou Charles até o quarto onde ele ficaria enquanto eu e Roger ficamos conversando na sala.

- Um pouco mais de vinho? – ele me ofereceu enquanto se servia de mais um pouco.

- Não, obrigado.
- William, para sua mãe é muito importante sua aprovação para o nosso casamento. – confesso que me surpreendi por ele ter sido tão direto. – e quero que saiba que para mim também é. Sei que a relação de vocês dois é algo muito forte e sei que ela será infeliz se você não nos apoiar.

- Eu jamais ficaria entre vocês, Roger.

- Sei que não, mas quero que saiba que Sofie foi a melhor coisa que já me aconteceu na vida. Ela já deve ter te contado nossa história, não?

- História? – perguntei surpreso. – Achei que vocês haviam se conhecido há dois anos.

- Bem, acho que ela não se zangará se eu te contar.

Assenti completamente curioso e ele percebendo isso, se aproximou um pouco mais de mim enquanto adotava um ar saudosista.

- Conheci sua mãe na faculdade; fazíamos curso de teatro juntos e desde a primeira vez que a vi, me apaixonei perdidamente.

Me ajeitei na poltrona, sem saber ainda se aquela conversa seria agradável para mim, mas mantive minha atenção nele.

- Ela era linda, alegre, inteligente e logo todos se encantaram por ela, mas eu sentia algo mais forte, eu a amava. Fiquei durante meses planejando o momento certo de me declarar, mas talvez tenha esperado demais.

- E meu pai? – perguntei, pois sabia que eles começaram a namorar na faculdade;

- Foi mais corajoso que eu. – ele sorriu em meio a um gole de vinho.

- Então?

- Então minha chance passou, mas por minha culpa, entende? Julius também a amava e era correspondido. E o final você já sabe.

- Mas... - tentei perguntar várias coisas, mas meu passado passava claramente em minha mente.

- Mas passou, William. Segui minha vida assim como ela seguiu a dela, mas sei que nunca a esqueci.
- E como se reencontraram depois de tantos anos?

- Foi uma destas coincidências do destino. Uma festa da velha turma e lá estávamos nós novamente. Ela viúva e eu divorciado. – me olhando firmemente, ele colocou a mão no meu ombro enquanto falava. – Quando pus meus olhos nela novamente senti que o sentimento não tinha morrido, ele estava lá, vivo apesar de adormecido.

- Não se arrepende por nunca ter se declarado?

- Todos os dias da minha vida. Mas se quer saber, tenho certeza de que este era nosso momento certo. Estamos maduros, convictos do que queremos sem os arroubos da juventude. Talvez se tivesse me declarado naquela época, não teria dado certo, entende?

- Nunca vai saber.

- Não. Mas a vida me deu mais uma chance e desta vez, não vou fugir.

- O que tanto conversam, posso saber? - Minha mãe que acabara de entrar na sala acompanhada de Charles, quis saber.

- Sou um bom contador de estórias, meu bem. E estava apenas contando algumas para o William.

- Certo, mas agora terei que monopolizar meu filho um pouco, afinal ainda não matei toda a saudade. Vamos até seu antigo quarto? – ela me estendeu a mão.

Aceitei a mão oferecida e antes de sair da sala, olhei para Roger que me retribuiu o olhar. Foram palavras mudas, mas percebi que ele entendeu que eles tinham mais que minha aprovação, tinham o meu respeito.

Entrar no meu antigo quarto foi estranho. Ali tinha a essência de um William que não existia mais; meu passado estava expresso em cada canto daquele lugar. As várias fotos espalhadas pelo mural improvisado, o enorme pôster dos Beatles sobre a cama... Tudo o que acreditava.
- Está tudo do jeito que você deixou, querido.- ouvi minha mãe falar enquanto seguia para o mural de fotos.

- Obrigada, mãe. – apesar de confuso, estava realmente emocionado em reviver tudo aquilo.

- Está se sentindo bem?

- Estou, é só... É muito estranho relembrar.

- Sei como é, Will. Mas manter este quarto do jeito que você deixou, diminuía um pouco a saudade que eu sentia.

- Eu mudei tanto... É como se estivesse entrando no quarto de outra pessoa. – refleti enquanto caminhava até minha antiga mesa de estudos.

- Para mim, você é o mesmo garoto que saiu por aquela porta há sete anos.

- Bem, ao menos minha fixação pelo Star Wars já passou. – sorri ao mostrar minha coleção dos bonecos da saga; minha mãe me acompanhou.

Foi então que meus olhos se depararam com uma foto cuidadosamente emoldurada. Segurei a moldura na mão e olhei confuso para minha mãe.

- A encontrei no lixo depois que você foi embora. – ela se justificou – Sabia que não era isso que você queria, meu filho.

Olhei novamente para a foto em que eu e Lizzy estávamos com os rostos sujos de bolo e um grande nó se formou em minha garganta.

- Ela está separada. – minha mãe falou por fim.

- O que? – voltei minha atenção para ela.

- Está separada há quase dois meses. Está vivendo na casa dos pais novamente.

Fitei a fotografia novamente e olhei fixamente para aqueles olhos negros tão brilhantes e vivos.

- Acho que deveria procurá-la.

- Não, mãe. Isso é passado. – falei após me refazer do impacto da notícia.

- Então a esqueceu?

- Cla... Claro. – falei tentando convencer mais a mim do que a minha mãe.

- Mas...

- Vamos voltar para a sala? – a interrompi; definitivamente aquele era um assunto que me incomodava.
É claro que minha mãe percebeu que eu estava fingindo não me importar, afinal ela me conhecia muito bem, mas apesar disso, ela sorriu e juntos, voltamos para a sala. Tentei me concentrar ao máximo na alegre conversa que era travada por todos, mas em minha mente uma grande luta se travava e lembranças do passado passavam diante dos meus olhos como um filme.

- Não é mesmo Darcy? – a voz de Charles me despertou.

- Desculpe? – não fazia idéia do que ele me perguntava.

- Céus! Onde você está com a cabeça?

- Eu preciso dar uma volta. – falei já me levantando, deixando todos sem entender o motivo daquele arroubo.

- Vou com você. – Charles se ofereceu.

- Se importa se eu for sozinho? Tenho algo para resolver.

Após a rápida afirmativa de Charles, peguei o casaco e as chaves do carro. Durante o trajeto, decidi não pensar muito, pois eu certamente desistiria. Só precisava provar para mim mesmo que era passado... Que realmente tinha acabado.

Estacionei em frente ao antigo sobrado e meu coração estava acelerado.

- É simples, Darcy. Você diz oi e vai embora; menos de quinze minutos e tudo estará terminado.

Falei em voz alta, pois precisava me convencer que ficar nervoso era ridículo, já que tinha este assunto bem resolvido. Saí do carro e o frio cortante do inverno passou por meu rosto; enfiei as mãos no bolso do sobretudo preto e passei a caminhar com dificuldade devido a grossa camada de neve.

- Ridículo! Um homem de vinte e cinco anos nervoso como um adolescente de dezoito. – me repreendi quando me aproximei da porta.

De repente me dei conta de que estava me sentindo igual ao William de dezoito anos; ainda não podia fazer isso, não estava preparado e estar ali tinha sido um grande erro. Dei a volta e comecei a voltar para o carro, foi então que o barulho da porta se abrindo me fez primeiro ficar paralisado, em seguida, me virar e fitar aquele par de olhos que tanto me visitaram nos meus sonhos...

- Oi. - foi à única coisa que consegui falar.

- Você!
Cenas do próximo capítulo...
*
*

... Estava passando e pensei que poderia te dar um oi...

... É estranho te ver novamente...

... Deus! O que eu fiz da minha vida?...

... Lizzy...

... Foi um erro você ter vindo...

... Me senti tão pequena diante dele...

... Tenho que ajudá-la e sei exatamente o que fazer...

... Onde está o Darcy frio e objetivo de Los Angeles? Isso é loucura...

... O que veio fazer aqui?...

... Sou o mesmo, Will, Lizzy...

... Não sou a mesma, Lizzy...

... Amigos novamente?...
 

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