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Não me enfrente diretamente com seu olhar. Um olhar pode ser rápido demais ou lento demais. (Jane Austen)

Contos de Abril - A Promessa

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Contos de Abril - A Promessa

A noite estava fria e chuvosa. Nunca tanta água havia caído do céu como neste dia.

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Quando adentrei a suntuosa Rosings Park, havia algumas pessoas na sala.
.
Num dos cantos estava Anne, afundada numa poltrona enquanto era consolada pela Sra. Collins. Ao me ver chegar, me olhou rapidamente pelas frestas dos olhos. Tinha o olhar duro, reprovador. Parou seus olhos por um tempo em mim para depois voltar a enxugá-los num lenço. Da sua boca inerte, nenhuma palavra. Nenhum cumprimento.

E como se não bastasse a frieza que disparou contra mim, ainda olhou-me de novo, e desta vez para minha mão. Possivelmente sentiu raiva. Pois era o anel de cabelo de Elizabeth que estava enroscado ao meu dedo. Não o dela.

Desviei os olhos dela e vi, próximo a janela, Fitzwilliam degustando seu charuto de canela. Olhei para o outro lado e vi outras pessoas. Poucas delas eu conhecia.
Virei a cabeça novamente na direção de Fitzwilliam, mas não o encontrei, foi então que senti uma mão segurar meu ombro amigavelmente. Olhei depressa e vi no rosto do primo uma mistura de tristeza e conformismo.

- Ela espera por você. – Disse ele num tom muito assombroso.

Eu apenas consenti com um leve menear de cabeça. Olhei outra vez para Anne e vi seus olhos me fuzilarem e assim seguiram até me perder de vista.

Tomei a vela do candelabro e me dirigi ao quarto onde estava minha tia.

Enquanto subia a imensa escadaria, por um momento me pareceu que os degraus estavam se encurvando num espiral. A imagem ficou turva. Foi então que uma forte vertigem me obrigou a equilibrar meu corpo contra a parede.
Parei por uns instantes. Passei a mão pelos grossos fios de cabelo e senti o suor frio deslizar pelas têmporas. Respirei fundo. Levantei a cabeça e voltei a subir as escadas até atingir o longo corredor cuja imagem quase infinita me fez sentir algo que nunca senti, nem mesmo na minha infância: Medo e pavor.

 

O vento que entrava por alguma janela que, esquecida, ficou aberta apagou algumas das velas do corredor e por pouco não apagou a minha. E as sucessões de relâmpagos iluminavam a mobília de forma assustadora.

Segui cautelosamente até encontrar-me de frente para a porta do quarto. Girei lentamente a maçaneta e ouvi o ringir das dobradiças que soaram até ter abertura suficiente para que eu pudesse atravessar.

O silencio de dentro daquele aposento denunciava solidão. E só tive certeza de que não estava sozinho quando um cheiro de carne e roupas velhas adentraram meu nariz.
Senti a náusea escalar minha garganta num impulso violento e só pude impedi-la porque consegui alcançar o lenço no fundo do bolso e levá-lo, imediatamente, ao nariz.

Recuperei-me e olhei ao fundo do cômodo. Vi a grande cama de cabeceira alta, na qual os relâmpagos desenhavam sua moldura na parede quase mofa. Aproximei-me ainda mais e enxerguei o rosto dela quase afundado no travesseiro. Deveria estar naquela posição há bastante tempo.

- Darcy? – A voz doente sussurrou e virou o rosto para me ver.

- Sim Titia, sou eu. – Respondi e afastei-me rapidamente para evitar que ela me visse quase regurgitar.

- Feche aquela janela? – Ordenou. – Sinto muito frio.

Eu não protestei pelo cheiro que teria que suportar. Deixei a vela num candelabro próximo e, imediatamente, atendi ao pedido dela.

- Achei que não viria e que eu teria que suportar mais um dia. – Reclamou ela, quase murmurando.

- Desculpe minha tia, mas assuntos pessoais me impediram de vir antes...

- Pessoais? Que tipo de assuntos?

- Nada que precise se preocupar. – Menti.

- Sente-se aqui. – Ela apontou a beirada da cama levantando lentamente a mão esquerda.

Senti uma angustia perpetuar meu corpo, não havia nenhuma cadeira proxima que me fizesse declinar de sentar-me tão perto dela. Sendo assim, tive que atender ao seu pedido.
Peguei a vela e aproximei-me de onde ela estava prostrada. Moribunda. A espera da morte.

 

E conforme me aproximava, vi a luz da vela revelar seu rosto de pele ressecada. Olhos fundos, cabelo cinza e banhado em oleosidade, resultado de possíveis dias sem tomar banho. A respiração estava frágil e por vezes ofegante.

A imagem imponente de Lady Catharine resumia-se as cinzas.

Sentei e procurei um local para acomodar a vela. Olhei para a mesa de cabeceira e afastei alguns objetos. Entre eles um copo usado para coletar escarros, lenços sujos, uma bacia e uma jarra com água.

Franzi a testa, torci o nariz e outra vez a náusea teimosa escalou minha garganta. Desta vez com menos força. Consegui suportar.

Voltei os olhos para ela e então o arrepio invadiu meu corpo rompendo na minha pele quando ela, por debaixo do grosso cobertor, tomou meu pulso e apertou com uma força inexplicável. E junto daquela mão magricela veio o terrível cheiro de podre e sujo que repousavam com ela naquele leito fétido.

- Quero que me prometa uma coisa. – Disse apertando ainda mais meu pulso.

Olhei para a mão que me segurava. Magra, trêmula como se não houvesse mais sangue circulando e temi que ela morresse agarrada em mim.

- Olhe para mim. – Ordenou ela com uma urgência descabida.

Olhei direto no seu rosto e vi os dentes travados, olhos apertados, sobrancelhas franzidas.

- Sim. – Resmunguei e olhei novamente para a mão dela. Foi então que pude ver as feridas abertas entre os dedos, cuja pele ao redor estava rasgada possivelmente pela coceira que aquelas escaras produziam. E o cheiro, cada vez mais insuportável. – Sim. – Repeti na urgência de me livrar daquela cena horripilante. – Farei o que a senhora me pedir.

Ela subiu a mão até a ombreira do meu casaco e me puxou para mais perto. Aproximei meu ouvido de sua boca e ouvi a voz quente e falhada dizer:

- Prometa-me que fará de minha filha a mulher mais feliz deste mundo.

Chacoalhei a cabeça positivamente sem se dar conta do que estaria me comprometendo. Lembro que ela ainda disse mais alguma coisa, mas não pude decifrar ao certo.

 

- Quero que me prometa que se casará com Anne como sempre quiseram seus pais e eu. – Continuou a velha esforçando-se para parecer imponente. – Diga que sim. – Ordenou com as ultimas forças que lhe restavam.

Foi então que me veio a imagem de minha amada Elizabeth.

Não, eu não poderia prometer isto a ela. E Elizabeth como ficaria? – Pensei até ter coragem suficiente para me livrar da mão dela.

Afastei-me repentinamente e ela virou o rosto para a janela.

A chuva trazida pelo vento batia com força no vidro.

- Titia... – Iniciei num tom mais ameno.

- Me prometa. – Ordenou outra vez. – Será a última coisa que lhe peço. Não quero que a fortuna de nossa estimada família caia nas mãos de interesseiros.

Outra vez senti a vertigem. Aproximei-me, lentamente, do leito e foi quando ela puxou o cobertor, destapando o próprio corpo. Por cima da leve camisola pude ver as feridas abertas e a coagulação de sangue e infecção que vinha de algumas delas.

O cheiro podre tomou o quarto e a náusea veio dilatando minha garganta. Não suportei e um jato quente e amargo de vômito lavou parte do assoalho.

Ela girou a cabeça em direção ao teto e abriu a boca, soltando um berro imponente e assustador.

- Prometa-me ou você não será feliz com mais ninguém... – Gritou ela tomada por uma maldade demente.

Minhas pupilas dilataram de tal forma que pude sentir as batidas cardíacas dentro dos olhos. Limpei a boca no lenço e apressei-me em pegar a vela que estava sobre a mesa.

Num ato de desespero e medo tropecei e acabei por derrubar o copo que ela usava como coletor, esparramando seu conteúdo pelo chão. Não parei para ver a imagem. Certamente vomitaria de novo se visse. Eu só queria sair daquele local...

E no ímpeto deste pesadelo medonho acordei banhado em suor.

Suspirei. Tentei acalmar minha respiração. Agradeci por ter sido apenas um pesadelo. Girei na cama, sentei e peguei o copo sobre a mesa de cabeceira. Bebi toda a água compulsivamente.

 

Ainda me sentia atordoado pelas imagens que perpetuaram meu sonho. Perdido entre realidade e ficção. Nunca um pesadelo havia me deixado tão prostrado.

Desci até a cozinha e não demorou muito para a criada vir e me entregar uma carta e junto desta a mensagem de urgência. Verifiquei o remetente: Vinha de Rosings Park.

Olhei assustado o endereço, fechei os olhos, não poderia ser de Rosings Park, não. Não poderia...

Os fleches do pesadelo vieram com força em minha memória. Senti o arrepio ouriçar os pêlos dos meus braços e o medo enfraqueceu meus pulsos. Acabei por deixar a carta cair.
Procurei a cadeira mais próxima e atirei-me nela. Foi então que um estrondo violento me despertou. Ergui a cabeça e olhei pela a janela.
O medo se intensificou quando avistei, ao longe, nuvens negras agrupando-se prenunciando grandes momentos de tormenta.

**************FIM*************

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