- Está uma tarde maravilhosa não é? – Perguntou Lizzy adentrando a suntuosa varanda da residência em Pemberley trazendo consigo uma bandeja de chá.
- Está sim. – Respondeu Mary enquanto terminava a última peça de seu jogo de crochê.
Elizabeth depositou a bandeja sobre a mesa e sentou-se próxima da irmã. Estavam sozinhas em casa.
- Está lindo. – Disse Lizzy segurando a borda do crochê. – Você tem habilidade com essas coisas... – Sorriu e a seguir serviu chá nas duas xícaras.
- Você acha que combina com o banheiro dos hóspedes? – Perguntou Mary estendendo a peça sobre suas pernas.
- Oh! Não Mary, este é o seu trabalho e sei que você tem encomendas... Não vou aceitar outro presente seu. Não vou mesmo.
Mary sorriu e acariciou a mão da irmã.
- Sabe. – Disse Lizzy alcançando uma xícara para a irmã. – Quando te vejo fazendo crochê, sinto saudade de te ver tocando piano.
- Saudade? -Soltou a agulha e pegou a xícara de chá. - Não caçoa de mim Lizzy... Eu era um fracasso. – Sorriu.
- Não. Nem tanto. – Lizzy sorriu. – Apenas precisava se exercitar mais.
- Mais? Você deve estar brincando. Eu praticamente amanhecia em cima do piano.
Riram.
- Tens razão. Mesmo assim sinto saudade de vê-la tão dedicada ao estudo do instrumento. Mamãe berrando pedindo para cessar o barulho... Papai te consolando...
Riram.
- Também sinto saudade daquela época. – Sorveu o chá. - Nem parece que já se passaram mais de 20 anos... E eu continuo aqui... Como um banco de areia que se move com o vento, mas nunca sai da praia. – Baixou o olhar. – Seu marido deve me achar um estorvo, alguém que nasceu para ser ímpar.
- Que isso minha irmã? Claro que não. Darcy nunca mencionaria uma grosseria dessas. Ele é sério, de poucas palavras, mas nunca diria coisas tão cruéis que poderiam magoar a você e a mim para sempre.
Mary sorriu e fingiu acreditar. Sabia que a irmã estava sendo gentil, mas no fundo tanto ela como todos os outros esperaram que ela se casasse e tivesse uma família como suas irmãs tiveram e não que ficasse solteirona morando na casa da irmã e do cunhado.
A venda dos artesanatos que ela mesma fazia, rendia-lhe lucros. Era um dinheiro que, com certeza, não fazia diferença alguma para Darcy e Lizzy, mas ajudava Mary a não se sentir inútil.
- Mary?
- Hum. – Resmungou depois de ter contado os pontos do trabalho.
- Não viu mais o Daniel?
- Daniel? – Pareceu confusa.
- Ah! Você sabe de quem estou falando... Aquele moço que vinha aqui dizendo que a irmã se interessava por peças de crochê, mas nunca trouxe a irmã aqui... - Riu.
- Ah! Sei... Não, nunca mais o vi.
- Eu... Acho que ele gostava de você.
- Oh! Não seja boba Lizzy, ele é apenas um garoto... O que veria numa velha solitária como eu? Ele queria companhia. Conversar, já que em casa ele era tão solitário... E eu conversava com ele. Só isso... Ele nunca demonstrou nenhum outro interesse e mesmo que me demonstrasse, não o aceitaria.
- E por que não?
- Por que já não tenho mais ânimo para histórias de amor, nem tempo para sobreviver ao seu fim.
- Não seja dramática Mary. – Riu. - E o Sr. James? – Dessa vez sorriu com malicia.
- Ah! – Mary riu. – Ele chegou a me fazer propostas, mas sempre nas entrelinhas, nada muito explícito. – Respirou fundo. - Mas para mim ele era apenas um bom amigo.
Elizabeth bebeu o chá e sorriu.
- Sabe de quem eu lembro às vezes?
- Hum.
- Do primo Collins.
- Hum, por quê?
- É que... Às vezes acho que ele combinava mais com você.
Mary sorriu.
- Não fale assim Lizzy, a mulher dele era sua amiga.
- Eu sei... Mas é apenas um comentário entre nós.
Mary olhou-a de canto, sorriu.
- Eu também achava isso. – Respondeu após um tempo. – E ele teria sido mais feliz se tivesse olhado em outra direção...
- Como assim? - Lizzy sorriu confusa. – Agora você está sendo cruel... Acha que Charlotte não o fez feliz o suficiente?
- Ela casou-se com ele por não ter escolha... Eu me casaria mesmo que tivesse.
Lizzy quase riu, mas controlou-se a tempo para não envergonhar a irmã.
- Oh Céus, isso é surpreendente... Mary! Você... Você gostava dele? – Esboçou uma expressão de estranhamento.
- Não sei, já faz tanto tempo... Mas pensei muito nele durante os dias em que esteve hospedado lá
Elizabeth estava impressionada.
- Como... Como conseguiu manter isso em segredo por tanto tempo?
- Segredo? Nem tanto. - Olhou-a. - Papai percebeu que se ele viesse até mim certamente eu o aceitaria... Mas não porque papai sabia que eu estava envolvida emocionalmente, mas sim porque me julgava tão tola a ponto de ser persuadida a aceitá-lo. - Bebeu o chá. - E então papai veio me aconselhar... Papai o detestava, dava para sentir a ira toda vez que pronunciava o nome do primo. – Sorriu.
- Mas então ele se inclinou em fazer alguma proposta a você...
- Não. Aliás, não sei se ele teve esta intenção em algum momento, pois eu me afastei definitivamente dele por aqueles dias.
- E então ele foi até os Lucas...
- Sim, pois percebeu que não havia chance de se unir ao Bennet... Pelo menos não dessa forma. – Respirou fundo. – Depois daquele dia sei dizer com precisão de detalhes quando foi que o vi novamente: Exatamente 3 vezes. – Pausou. – A última vez foi há poucas semanas atrás...
– Não sabia que você encontrou-se com ele. – Lizzy impressionou-se.
- Não soube porque isso não é um acontecimento de grande importância para ser relatado. - Olhou para fora. - E eu não me encontrei com ele no mal uso da palavra, foi ao acaso mesmo. – Sorriu levemente.
Elizabeth baixou o olhar. - E onde foi que você o viu?
- Eu estava indo até a loja de linhas e decidi entrar numa loja de chapéus... Eu queria ver uma luva de crochê que fazia conjunto com um chapéu. E então ele estava nesta loja... Ao fundo... Impaciente. - Sorriu.
- Sozinho? - Elizabeth estranhou.
- Não... Estava com uma de suas filhas... Uma mocinha de uns 17 anos, aproximadamente.
- É a Dorothy. – Respondeu Lizzy. – Na verdade ele só tem uma filha e três filhos. Dorothy é a mais jovem.
- É, nem lembrava mais desse detalhe... – Sorriu de forma forçada.
- É ela sim. A Dorothy. – Disse Lizzy bebendo o chá. - Faz muito tempo que não a vejo, deve estar uma moça crescida. A última vez foi num momento de muita tristeza para todos nós... Quando Charlotte nos deixou.
- É... Deve ter sido, neste dia que o encontrei ele já estava viúvo...
- Sim, certamente, já faz 3 anos que ela se foi. - Baixou o olhar e sorveu a bebida. -E vocês conversaram?
- Nem lembrava mais quanto tempo isso aconteceu... – Fechou o riso. – Mas conversamos sim... Rapidamente, mas sim. – Sorriu. – Engraçado... Ele... Não é mais aquele moço bobo que conhecemos há tempos atrás e que você e as outras meninas se divertiram caçoando.
Elizabeth sorriu constrangida, realmente ela e as outras irmãs se divertiam fazendo anedotas das trapalhadas do primo, pois nunca imaginou que Mary nutrisse algum sentimento por ele e que isso pudesse magoá-la de alguma forma.
- Mas... Ele era engraçado... Mesmo sem querer ser ele era.
- É, eu sei... Não as culpo por isso. Ele era meio idiota mesmo. – Sorveu o chá. – Ele mudou tanto... Embora conserve ainda o mesmo sorriso.
Elizabeth arregalou os olhos, estava atordoada de tanta surpresa. O primo foi tão facilmente esquecido, que ela não lembraria nem da cor do cabelo dele, quem dirá do sorriso. Enquanto a irmã relatava com uma carga emocional muito grande o encontro que teve, ao acaso, com aquele que, pelo jeito, foi o único amor de sua vida.
- Mas me conte como foi esse encontro ao acaso. – Elizabeth estava curiosa.
Mary olhou-a e sorriu. Soltou a xícara sobre o pires e juntos sobre a mesa e perdeu seu olhar no horizonte. Iniciou o relato para a irmã.
Flashback...
- Prima Mary? – Disse ele de forma amistosa ainda com certa dúvida na entonação das palavras antes que ela conseguisse fugir sem ser vista.
- Sr. Collins, como está? – Cumprimentou com um pouco de timidez e um rápido menear de cabeça.
- Estou bem... Me acostumando... Como deve saber...
- Ah! Sim, sei... E sinto muito. - Atalhou ela.
Ele apenas comprimiu os lábios e correu os olhos pela loja em busca da filha. Quando a viu, chamou-a com um acenar de mão.
- Já conhecia minha filha? – Perguntou orgulhoso por exibindo a filha.
- Oh! Vi quando ainda era uma criança. – Brincou. – Muito bonita sua filha.
- Obrigado. Ela se chama Dorothy. – Apressou-se em dizer.
Mary apenas sorriu para a menina, sem mostrar os dentes.
- Dorothy esta é a... Senho...Senho... - Gaguejou.
- Senhorita Mary Bennet. – Ela completou.
- A senhorita Mary Bennet é minha prima... Irmã de Elizabeth, filha.
- Ah! Sei, conheço a Sra. Darcy, era muito amiga da mamãe. – Respondeu a menina com uma voz suave.
- Era sim. - Concordou Mary.
- Dorothy também toca piano. – Disse ele sorrindo.
- Oh! Senhor, eu já não toco mais piano há muito tempo.- Corou.
- Que pena... Parecia sempre tão entusiasmada com o instrumento.
- É... Mas muita coisa mudou depois daquele tempo.
- Hum. – Ele resmungou cabisbaixo.
A seguir, a menina pediu licença cordialmente para voltar a espreitar as prateleiras da loja e continuar escolhendo o que levaria. Isso deixou o pai com uma expressão de desconforto.
E Mary aproveitou para olhá-lo com cuidado.
O tempo havia feito grandes mudanças na aparência dele, talvez a solidão tenha contribuído para as têmporas esbranquiçadas, olhos mais fundos, testa quase nua.
- Não deve estar acostumado a acompanhar sua filha nas visitas as lojas?- Ela brincou percebendo o mal jeito dele.
- Não. – Respondeu de imediato, mas sorrindo. - Como vê, eu não levo muito jeito com ela. – Riu. - Achei que ela já tinha escolhido o que levaria e de repente ela ainda está em dúvida. – Riram. - É que hoje eu tinha que vir para cá e então ela quis vir junto... Ainda não aprendi a dizer não para ela.
Mary sorriu.
- E os irmãos dela?
- Ah! Já se casaram. Dorothy é a única que ainda mora comigo.
- Oh! Desculpe, acho que perdi a noção do tempo. – Desculpou-se ela. – Se ela é a mais nova e já está uma moça, é certo que os mais velhos já devem ter se casado.
Ele não disse nada, apenas sorriu e ficaram
- E
- Ah! Sim. – Respondeu encabulada. - Não tive a sorte de me casar... – Corou o rosto.
Ele levantou o olhar para ela e baixou-o
- Talvez
- Não, não... – Atalhou ela de vez. - Não acredito na existência de oportunidade perdida, alguém sempre encontra a oportunidade que você perdeu e a usa no seu lugar. - Sorriu.- E hoje já não tenho mais a juventude para desfrutar de tanta felicidade...
- Compreendo. – Ele murmurou, mas na verdade não entendeu nada.
A seguir, veio aquele silêncio que parecia durar uma eternidade e ela precisava se livrar disso.
Ela se despediria, daria as costas para ele e nunca mais o veria. - Foi o que ela deveria fazer, mas acabou deixando isso para o segundo plano. Primeiro abriu a carteira e tirou de dento um papel manteiga dobrado.
Ele acompanhou o movimento dela com um sorriso amigável em todo o rosto.
E então ela desdobrou, cuidadosamente, o papel e dentro deste tirou uma flor seca. Aproximou o embrulho dele.
- O que é isso?- Perguntou ele meio perdido.
- Olhe bem.
Ele olhou e, após um tempo, sorriu. Reconheceu a flor que ele havia depositado sobre a mesa no dia em que pediu a mão de Elizabeth e foi recusado.
Sorriu e mesmo com estranheza segurou o embrulho que ela o ofereceu.
- Eu te amei tanto. – Ela murmurou para não ser ouvida e com pressa para não perder a coragem de dizer. - Eu estava ali, na sua frente, quase implorando para ser vista... – Você cessou com quase todos meus sorrisos, minhas lágrimas... - Cessou a voz embargada e ele não ousou olhá-la.
- E... Eu... Sinto muito. – Disse ele com uma expressão de susto.
- Guardei essa flor como se tivesse sido para mim. E por tanto tempo sonhei que eu a devolvia para o senhor num momento de muita intimidade entre nós... Fique com ela.
Ele quase sorriu, estalou os olhos. Estava impressionado com a coragem da prima. Olhou outra vez para a flor ressecada e a seguir para o salão. Certamente sentiu medo que a filha tivesse visto a prima entregando-lhe algo e pensasse coisas erradas.
- Eu... Sinto muito mesmo Mary... – Ele quase murmurou sem saber o que dizer.
Ela apenas consentiu com a cabeça, baixou o olhar se apressou-se em deixar a loja antes que chorasse na frente dele. Quando já o tinha pelas costas, limpou o rosto umedecido e o chamou:
- William... – Ele olhou-a depois de já ter colocado o papel junto da flor no bolso do casaco. – Você... Nunca pensou em mim? Nem na possibilidade de pedir minha mão depois que Lizzy o recusou?
- Por que você quer saber isso agora?
- Quero saciar uma dúvida. Uma dúvida que mudou minha vida.
Ele esboçou um olhar de tristeza. Protelou
- Não.
Ela sorriu a contragosto e assentiu com a cabeça para continuar seu trajeto de volta a casa.
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Quando Mary terminou de relatar, olhou para Lizzy e a viu com os olhos marejados, quase soluçando. O chá havia esfriado na xícara imóvel na sua mão.
Apesar de ser forte e determinada, Elizabeth era uma romântica incurável. Nem percebeu que as lágrimas rolavam livremente pela face e só tratou de enxugá-las quando finalmente despertou para o mundo real.
- Desculpe Mary. – Aspirou o choro e sorriu constrangida. - Mas foi tão surpreendente seu relato... Assim como ele, eu também nunca imaginei que já tenha sofrido por amor algum dia. – Você foi muito corajosa...
- É... Talvez seja esse meu legado: Amar e ser incompreendida...
FIM
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