- Noiva de Mr. Collins? Minha Charlotte? – Impossível.
Três semanas depois do casamento...
A visita de Elizabeth naquela manhã foi inesperada.
- Lizzy? Você por aqui, não estava esperando...- Disse Charlotte assim que abriu a porta.
- Preciso falar com você. – Demonstrou urgência na fala e aspirou com força as primeiras lágrimas que pingaram de seus olhos deixando a amiga preocupada com seu estado emocional.
- Claro... Sim, vamos para a sala de costura.
As duas se dirigiram para o interior da casa. Charlotte parecia estar sozinha, pois tudo estava silencioso.
Sentaram-se em sofás separados dispostos de frente um para o outro. Charlotte pareceu confusa, sem saber o que trouxe a amiga a sua casa tão de repente e porque estava tão abalada. Fechou o semblante e esperou que a outra iniciasse. Na verdade, ela queria mesmo era que Elizabeth desistisse de dizer o que pretendia e fosse, imediatamente, embora de sua casa.
De repente, Elizabeth levantou-se e foi até a janela onde pode deixar suas lágrimas rolarem livremente.
- Como pôde aceitá-lo? – Disse entre soluços. - Nunca suspeitei que fizesse tal coisa. E você sabe por quê.
- Do que está falando? – Mentiu a outra.
Elizabeth não respondeu e Charlotte admitiu saber do que se tratava.
- Foi por isso que se recusou a participar do meu casamento se refugiando na casa de seus tios?
- E ainda me perguntas? – Respondeu Lizzy virando-se repentinamente deixando exposta toda sua fraqueza emocional. - Eu o rejeitei... Achando que o manteria longe de mim e de qualquer pessoa que eu gosto... Mas você... Não, não poderia. Você com ele formam uma imagem penosa.
- Cala-te. – Disse a outra com bravura. – Como ousa fazer chacota de mim? Como ousa me tomar desta maneira? Não tem este direito... Não sabe o que eu sinto... Como me sinto.
- Não sei? Achas que não sei? Como você ousa me tomar?
- Não grite... - Ralhou Charlotte controlando a voz. - William está em casa.
- E ele supostamente não sabe? – Ironizou a outra.
- Sabe do quê?
- Ora do que? – Virando o rosto com desgosto. - Ele não sabe de nós.
- Claro que não... – Respondeu Charlotte levantando-se e indo em outra direção da sala. - Como ele saberia... – Voltou a encará-la. - É meu marido, nunca aceitaria se soubesse.
- Seu marido convencionalmente você quer dizer? – Disse Elizabeth com um sorriso de deboche.
Charlotte não respondeu de imediato. Soltou a respiração com força, virou as costas para Elizabeth e respondeu num tom ameno:
- Ele é meu marido sim.
- Então quer dizer que você e ele... Vocês... – Elizabeth tapou a boca segurando os soluços do choro forte que viria a seguir.
- Sim, é claro. O que você pensa? – Indignou-se.
- Mas Char... Você me prometeu que nunca seria de ninguém... Que seria só minha, unicamente minha e eu unicamente sua.
- O que eu disse deve ser esquecido. – Voltou ao lugar de antes e sentou-se demonstrando muita calma e domínio da situação. - É melhor para nós e para todos os envolvidos.- Concluiu cautelosamente mesmo vendo Elizabeth derramar-se em lágrimas.
-Esquecer? É assim tão facilmente que me pede para esquecer meu amor de infância? Meu único amor... Assim como se esquece um brinquedo velho que não te diverte mais? – Encarou-a com rancor do outro lado da sala.
Charlotte aproximou-se de Lizzy, segurou sua mão e disse olhando-a nos olhos:
- Não foi isto que eu disse... Apenas sugiro fazer o que deve ser feito. A solução mais sensata. – Respirou fundo.- Algo desta natureza nunca daria certo... Pois nunca seria aceito. Não temos o direito nem de escolher nossos próprios maridos quem dirá... – Deixou as palavras morrerem e se se afastou dando as costas para Elizabeth outra vez. - Na verdade não sei como conseguimos ir tão longe com essa loucura. Se fôssemos descobertas seríamos excomungadas, apedrejadas... Até mortas... Não sei. – Olhou-a de novo e desta vez demonstrou certa fraqueza no olhar. - Seja sensata Lizzy, é o que te peço.
- Seja sensata... Me pede com tanta eloqüência. Parece fácil para você.
Charlotte não disse nada, nem tomou outra posição no espaço. Ficaram em silêncio. Uma de cada lado da sala. Olhando-se.
- E como é com ele? – Perguntou com um pouco de timidez nas palavras.
- Como é o quê?
- Você sabe. – Resmungou.
- Não quero falar sobre a nossa intimidade... Não a você.
- Nossa intimidade? Agora o nossa não se refere mais a mim e a você e sim a você e... E ao... Seu marido.
A outra não disse nada.
- Me diga... Como é? – Repetiu a pergunta e desta vez com energia.
- Por que não arruma um marido? Assim saberá como é? – Respondeu rispidamente.
Após um silêncio forçado e as lágrimas molharem também o rosto de Charlotte, esta diminuiu a entonação das palavras.
- Desculpe Lizzy, não quis ser grossa, é que as vezes me deixa sem saída com tantas perguntas. – Pausou, respirou fundo. - É diferente, é tudo que posso te dizer.
- Diferente significa bom ou ruim?
- É diferente... Já disse o bastante. – Deu as costas.
- Quero saber se é melhor do que era comigo. – Gritou.
Charlotte voltou a olhar a amiga, ao longe.
- É... É melhor do que era com você. – Confessou com um olhar de pena.
Elizabeth ia dizer alguma coisa, mas ouviram passos que se aproximavam da porta. Viraram-se e viram William Collins entrar. Ele sorria. Ambas disfarçaram, lançando poucos olhares para ele.
- Prima Elizabeth que maravilha sua presença em nossa casa. Como tem passado desde que a vimos pela última vez?
- Muito bem obrigada. – Limpou o rosto e olhou-o rapidamente.
- Minha Charlotte não disse que você viria nos visitar... – Olhou para a esposa. - Esqueceu querida? – Indagou parecendo desconfiado.
Charlotte olhou-o rapidamente e fingiu um sorriso:
- Sim William, esqueci de te avisar. Mas não se preocupe que Lizzy não vai se demorar.- Olhou para Elizabeth como se a expulsasse de sua casa naquela hora.
- É... Estou de saída primo... Mas obrigada por sua amável generosidade.
O marido ainda olhou para cada uma delas e analisou a distância que estavam uma da outra. A expressão que elas tinham não demonstrava uma conversa amigável, mas talvez ele nem tenha percebido este detalhe ou preferiu não questionar. Não em frente a Elizabeth que ele faria tudo para transmitir uma situação favorável. Pensou em alguma coisa que não quis dizer, sorriu levemente e se dirigiu a porta.
- Bem, deixarei vocês mais a vontade. – Olhou para a esposa. - Qualquer coisa estarei na biblioteca. – Ia saindo, quando virou-se de uma só vez e olhou para a prima fazendo-a gelar.– A propósito, prima Elizabeth, como estão seus pais? Espero que bem. Mande lembranças nossas para eles. – Perguntou e respondeu simultaneamente deixando para Elizabeth apenas a afirmação com um menear de cabeça.
Ele deixou a sala a seguir. Deixando a esposa, a prima e um breve e cúmplice silêncio:
- Está apaixonada por ele? – Perguntou Elizabeth brandamente.
- Claro que não... – Respondeu a outra da mesma forma. - Ele é um idiota não vês? Sabes muito bem porque o aceitei. – Contornou a sala e se pôs próxima a Elizabeth.
- Aceitou-o porque és fraca. Teve medo de enfrentar... – Olhou-a.
- Medo de enfrentar? – Sorriu com ironia. - Você fala como se fôssemos enfrentar apenas duas ou três pessoas. – Riu com deboche. – Perdeu os sentidos Elizabeth? Isto seria como enfrentar o mundo inteiro apenas com a força da palavra. Me diz quem entenderia o que sentimos? – Murmurou. - O que fomos?
- Como consegue ser tão fria com teus sentimentos? – Se aproximou e segurou as mãos de Charlotte. Beijou-as várias vezes, com devoção.
- Não sou fria... Apenas racional. – Disse observando a atitude da outra com uma carga de pena no olhar. - Não podemos subestimar as coisas querida Elizabeth e pensar que enfrentar o mundo é fácil e está ao nosso alcance. – Pausou e trouxe as próprias mãos para si. - Acho que você deve fazer tua vida... Como eu fiz a minha?
Elizabeth tomou a face de Charlotte com eloqüência segurando-a com as duas mãos para que tivesse os olhos dela diretamente nos seus.
- Quer dizer que eu devo te esquecer... Esquecer tudo que vivemos... Esses anos todos do amor às escondidas e tudo que arriscamos para nos encontrar e ficarmos juntas por alguns minutos?
- Quero dizer que deves procurar ser feliz de outra forma que não seja comigo. – Respondeu olhando-a nos olhos e vendo as gotículas de lágrimas se acumularem entre as pálpebras.
- Então... Acabou tudo entre nós?
- Não sei se é esta a palavra certa... – Usou suas mãos para se libertar das mãos de Elizabeth que a prendiam naquela posição e voltou a dar as costas para ela. - De inicio acho bom não nos vermos por um tempo.
- E se eu for pedida em casamento? – Sugeriu a outra na tentativa de desviar a conversa do ponto final que junto traria o fim, que ela não desejava.
- Desejaria de coração que você o aceitasse.
Um breve silêncio e Elizabeth decifrou o que suspeitou de inicio.
- Está apaixonada por ele. Li isto nos teus olhos.
Charlotte voltou-se para ela e muito gravemente disse:
- E se eu estiver mesmo apaixonada? É pecado que eu ame meu próprio marido? É pecado que eu permita isso?
- Não. - Sorriu levemente. - O amor nunca será um pecado desde que você não deixe para trás corações partidos... Mas você nunca saberá o que é isso.
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