Citações

Ela não se divertia ao observar o egoísmo que, disfarçado, parecia governar a todos e costumava se perguntar como tudo isso ia acabar. (Jane Austen)

Conto de Ano Novo: Fly away - Capítulo I

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Aerosmith - Fly away from here

 

- Você vai para onde? – Georgiana levantou-se atônita.

- Já disse. – William estranhou o comportamento da irmã.

- William, você está louco? Ir ao Japão em pleno Natal, ficar longe de sua família, sabe-se lá fazer o que?

William olhou para baixo.

- Eu preciso me encontrar, Georgi. – Tentou se explicar.

- Mas no Japão. Do que você anda precisando, de ioga? – Falou sarcástica.

- Não é isso! – Perdeu a paciência. – Não agüento mais essa atmosfera, preciso de novos ares, conhecer novas pessoas, relaxar, tirar um pouco de estresse que Londres vem me trazendo!

- Desculpe, mas você falando em conhecer novas pessoas até parece que você é muito comunicativo.

- Quer parar de brincar? – Falou mais sério. – Eu quero me entender, refletir.

- Num lugar em que você não entende metade do que eles falam?

- É, isso mesmo! – Alterou-se.

Cansada com a discussão, Georgiana bufou e soltou os ombros sentando novamente na cadeira.

- Você é louco. – William deu um sorriso torto.

**********************************************

Lizzy andava pela praia no amanhecer. A praia de Sagara estava vazia com o inverno. Apesar de não nevar, muitas pessoas preferiam ficar em suas casas.

Os primeiros raios solares surgiam, parou para contemplar o mar mais uma vez, sentou-se na areia e ficou cantarolando, logo o Natal chegaria e tudo voltaria a sua rotina normal.

Sentia-se sozinha, desde jovem se adaptou a uma cultura diferente e um idioma novo. Tinha amigos e era feliz, mas sempre faltava algo e preocupava-se. Como ainda não havia se apaixonado?

Há seis anos, antes de se mudar, Lizzy havia se apaixonado por um rapaz, que de seu primeiro amor, passou para seu pior pesadelo.

O que era uma menina de dezesseis anos apaixonada por um rapaz de vinte e um anos, quase formado, com casa própria e carro novo? Sim, aquilo elevava e muito seu ego. Era ingênua e totalmente inexperiente no que se diz ao amor.

Entregou-se de cabeça em sua primeira paixão. Fora totalmente iludida pelo o que ele poderia lhe dar. Festas, jantares, bons presentes. Ele foi seu primeiro e único homem, até então, estava cega achando que ao se entregar a ele teria todo o amor e confiança. Engano. Ele só queria se aproveitar dela. Uma aventura.

A humilhação não veio de palavras em público ou de fofocas. Ela viu que ele não a queria mais, no momento em que o flagrou em Oxford Street aos beijos com uma bela jovem, quem havia conhecido tempos atrás em uma festa onde George trabalhava. Ela era filha do chefe.

Bastava virar as costas e voltar a viver sua vida, dizia Lizzy a si mesma, e foi o que fez. E de seis anos para cá, o destino só a ajudou a deixar os sentimentos de raiva, angústia e arrependimento cada vez mais enterrados e esquecidos em algum lugar.

Apesar de ter tido uma experiência não muito boa, sentia-se frustrada pelo fato de ninguém fazer seu coração bater mais forte, além de ser mais cautelosa quando conhecia alguém.

Mas era final de ano, hora de começar tudo de novo, de renovar votos e de renovar a vida e era isso que ia fazer. E o sol que estava alto já lhe aquecendo melhor, incentivou-a começar uma caminhada.

***************************

William estava muito cansado, a viagem havia sido longa. Assim que aterrissou em Tókio, viu que ainda não era o lugar onde queria descansar. As luzes de neon e toda aquela infinidade de que a noite de Tókio poderia oferecer não era o que William procurava. Como sua irmã disse, ele queria mesmo relaxar fazendo ioga.

 Quando pensou que sofreria para transitar pelas ruas, enganou-se. Apesar do sotaque, pelo menos todos conseguiam se comunicar com ele em inglês. Sua sorte é que foi fácil encontrar um hotel bom e com uma diária barata.

No dia seguinte foi até a estação de metrô, comprou uma passagem para Hamamatsu, grande cidade no interior, mas seu destino final era a praia de Sagara, em Shizuoka-ken.   

Assim que chegou ao hotel, sentiu-se um pouco incomodado pelos olhares estranhos que recebeu da atendente. Ela não era antipática, mas o observava estranhamente.

- Não costumamos receber turistas nessa época do ano. – Explicou-lhe. – Geralmente eles procuram lugares mais agitados e cidades grandes, como Hamamatsu.

- Eu vim para descansar. – Justificou-se.

- Seja bem vindo.

Em seu quarto, William olhava pela janela o silêncio daquela cidade. Apenas algumas pessoas passavam por ali. Ao longe conseguia ver a praia, apesar do frio, resolveu dar uma caminhada até lá.

Sim, ali era do jeito que ele queria. Calmo. Era tão estranho ouvir alguns pássaros ao longe, era relaxante. Respirou fundo, até o ar que respirava era diferente. Era isso que ele mais queria.

Antes de voltar ao hotel, William parou numa pequena loja de conveniência para comprar algumas coisas. Pegou um refrigerante e ao pagar não entendia nada do que a moça que o atendia falava.

O que complicou a comunicação foi pela moça não entender uma palavra do que ele dizia. William estava quase desistindo, chegando a soar frio pela situação em que se metera e se arrependendo de não ter aprendido nada antes de viajar, até que ao olhar para o lado viu o que poderia ser a salvação.

Uma moça com nenhum traço oriental estava pegando alguns doces e resolveu pedir ajuda a ela.

- Com licença. – Ela virou assustada. – A senhorita fala o meu idioma?

- Sim. Eu o entendo perfeitamente.

- Será que a senhorita pode me ajudar. Eu não sei falar uma palavra em japonês e não entendo nada o que a menina diz.

- Claro. – A moça o acompanhou.

Falando o idioma fluentemente bem, a moça entendeu a situação, virou-se para ele e disse:

- Agora é só pagar.

- Quanto?

Ela disse e ele lhe entregou a nota. Aproveitou que estava no caixa e pagou algumas barras de chocolate que estava em suas mãos e saíram juntos da loja.

- Muito obrigado. – William lhe agradeceu.

- De nada, não é sempre que vemos um turista em apuros. – William riu sem graça. – Aliás, o que o senhor veio fazer aqui?

- Bom, eu resolvi fazer algo diferente, e ao pesquisar sobre o Japão, vi essa cidade não tão conhecida, então resolvi vir até aqui.

- E você fez algum curso antes de vir para cá?

- Não.  – Ela lhe deu um sorrisinho.

- O senhor correu o risco de ficar ali por horas com aquela moça. Devia ter feito. – Ele sabia disso. – Não é em todo lugar que as pessoas se comunicam em inglês por aqui, principalmente aqui, que é um lugar muito pequeno e isolado.

- Eu pensei nisso no momento em que não entendi nada o que ela dizia. Devo a senhorita por me tirar daquela situação.

- Eu só vou aceitar o seu agradecimento se o senhor parar de me chamar de senhorita e começar a chamar pelo meu nome.  – Ela parou de caminhar e os dois ficaram lado a lado.

- E se a senhorita parar de me chamar de senhor. Sou tão velho assim? – Ela riu.

- Elizabeth Bennet. – Estendeu-lhe a mão.

- William Darcy. – Apertou firmemente a delicada mão de Elizabeth.

- Pelo jeito, William. – Falou com ênfase seu nome. – Você não conhece nada por aqui. Se quiser, posso lhe mostrar alguns lugares.

- Para mim está ótimo, Elizabeth. – Fez o mesmo, fazendo-a rir. – O que foi?

- É tão estranho falar meu nome ao invés do meu apelido, que sou tão acostumada de ser chamada.

- Se você quiser, posso te chamar pelo seu apelido.

- Acho que não somos tão íntimos assim para você me chamar pelo meu apelido. – Ela estava relutante, William temeu que ela tivesse achado que ele estava flertando com ela.

- Me desculpe. – Percebeu que estava perto do hotel. – Eu fico por aqui, boa noite.

- Boa noite. – Ela o olhou. – Amanhã, às sete horas na praia.

- Como vou encontrá-la? – A praia era extensa.

- Você me verá. – Deu-lhe uma piscadela e virou uma esquina.

William olhava por onde ela havia sumido, riu e depois entrou.

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 - E ele é bonito? – Jane indagou animada.

- Ele é um rapaz muito bonito. – Começou a rir. – Mas encontrá-lo naquela situação hilária com a vendedora foi impagável.

- E depois?

- Só conversamos por cinco minutos. Ele se interessou em conhecer aqui.

- Como se Sagara fosse um lugar muito atraente. – Jane revirou os olhos.

- Saiba que eu gosto daqui, ta? Agora vamos dormir que amanhã bem cedo vou à praia.

- Lizzy, esse William Darcy te chamou a atenção... Você ficou atraída por ele? – Formulou uma pergunta.

- Ele é bonito, tem uma voz muito linda e profunda, é alto, com olhos azuis... – Jane arqueou uma sobrancelha. – Ok, sim, me senti. Mas duvido que ele olhe para mim de um jeito diferente.

- Por que?

- Ele é tão bonito que eu até me sinto uma patinha feia perto dele. – Jane riu. – Ele se veste bem, com certeza é rico, então ele deve estar acostumado a namorar mulheres lindas e que se vestem bem.

- Se ele se interessar por você, não olhará seus atributos físicos, mas sim que há dentro de você.

- Mas me envolver...

- Sua bobinha, você não quer recomeçar? Pelo o que eu me lembre sim. Dê uma chance a você, quem sabe ele é tudo o que você procurava.

- Muito obrigada madame Jane, depois lhe pagarei pelas consultas. – Enrolou-se no edredom e cobriu a cabeça.

Jane olhou para a irmã, mal conhecia esse William Darcy e já estava incentivando a irmã a tentar algo com ele. Mas uma coisa ela tinha certeza, Lizzy estava encantada por ele, viu um brilho no olhar que nunca havia visto. Resolveu se deitar, amanhã seria outro dia.

 

Como em toda família grande, o café da manhã é sempre barulhento, principalmente se o Sr. Bennet tem que ouvir as seis mulheres falando todas ao mesmo tempo. Porém de uma pessoa ainda não havia escutado um barulho sequer, de Elizabeth.

Lizzy passou depressa a mesa, tomou uma xícara de café e antes de sair, sua mãe lhe disse:

- Aonde pensa que vai?

- À praia. – Parou na porta.

- Mas... Menina, você tem que aproveitar os momentos com a família. – Bufou. – Essa menina não aprende. Não tem dó dos meus nervos, faço tudo por ela, tudo por você... – Suas reclamações foram interrompidas por Jane.

- Bom encontro. – Lizzy lhe lançou um olhar fulminante, saiu e bateu a porta.

- Encontro?

- Depois que Lizzy voltar, ela conta. – Jane riu e continuou tomando o seu café.

O Sr. Bennet tentou, mas foi quase impossível não fazer uma careta, tinha ciúmes de todas as suas filhas, principalmente de Lizzy.

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