Levantei cedo, estava apreensiva, era meu primeiro dia na faculdade. Amigos novos, turma nova, professores novos, aulas diferentes... Enfim, uma vida nova começava a partir daí, e aos dezessete anos, quase dezoito, não sabia se estava preparada no que estava por vir.
Dei uma última olhada no espelho. Tudo ok.
- Elisa! – Era minha mãe gritando da cozinha. – Venha logo, ou vai se atrasar.
Desci rapidamente, minha irmã já estava arrumada. Jane também estudava na mesma faculdade, mas fazia um curso diferente do meu.
Tive que tomar às pressas meu café da manhã, minha mãe não parava de falar:
- Onde já se viu? Você tem que ser mais pontual, além de se atrasar, vai atrasar também a sua irmã. Deus! Será que ninguém tem dó dos meus pobres nervos. – Caras leitoras, apresento-lhes minha mãe, uma mulher que não tem papas na língua.
- Oh, mulher! Eu os agüento há vinte anos! – Esse era o meu pai, um pai amoroso e sarcástico com minha mãe. Talvez seja o único homem da face da Terra que me entende.
Na verdade, não estávamos atrasadas, terminei de me arrumar e ainda faltavam dez minutos. Tínhamos que esperar Charlotte, a nossa carona.
Eu e Charlotte crescemos juntas, mas a diferença de dois anos de idade não fez que a nossa amizade se abalasse. Ela era quase uma irmã para mim.
No caminho, Charlotte contava as novidades sobre a faculdade.
- A melhor parte é a masculina! – Seus olhos brilhavam maliciosos. – Tem cada um Lizzy! Acho que os homens mais lindos da Inglaterra se encontram ali, nada daqueles frangotes do colegial. Não sei o que você viu naquele Tobby.
- Char, foi um lance rápido. Só ficamos. – Me expliquei, não cheguei a gostar muito de Tobby, ele era legal, só isso.
- Ou seja, você não viu “homem” de verdade! – Ela enfatizou. – Já Jane, ela já deve ter conhecido o cara ideal, não é?
Jane enrubesceu violentamente. Logo me toquei no que se tratava.
- Então, dona Jane, você está namorando e nós não sabíamos? – Perguntei. – Aliás, só eu, porque Charlotte já sabia.
- Ora, eu não tenho nada com ele. Ele é só um amigo. – Encolheu-se no banco traseiro.
Charlotte riu.
- Bem, ela ainda pensa que são só amigos. Se fosse você querida Jane, já abria logo o olho para as intenções dele. Com certeza é uma coisa séria. – O sinal do semáforo estava vermelho, então fitou Jane. – Quer um conselho? Dê o primeiro passo, um beijo no canto dos lábios é um ótimo começo.
- Char! – Gritamos, essa menina era impossível.
- Tá bom, parei. Preciso logo arrumar um namorado. – Murmurou, assim rimos mais ainda.
Depois de cinco minutos, chegamos à faculdade.
Realmente, Charlotte não havia exagerado em suas descrições. Cada homem mais lindo que o outro. Ah! Meus hormônios. Recompus-me, e entrei com o pé direito.
Charlotte estava fazendo Medicina. Jane Administração. Eu estava começando em Engenharia Química.
Separamos, Jane seguiu seu caminho e eu e Charlotte fomos até a secretária, pois precisava pegar uma ficha.
Estava esperando Charlotte no corredor, dava para observá-la pelas janelas de vidro. Andava de um lado para o outro, quando senti alguma coisa chocar em mim me levando até a parede. Estava de salto alto, o que não me ajudou muito e torci meu tornozelo e bati fortemente meu braço contra a parede.
O causador do meu acidente trajava uma calça jeans, uma camiseta preta, ele andava rapidamente. Como era alto e forte, não percebeu que havia trombado em mim. Ele virou o corredor e veio de encontro comigo tão rápido, que só senti o forte impacto do meu corpo com o corpo dele e depois do choque, uma dor aguda no pé e no braço.
Ele mal parou para me socorrer, enquanto me levantava com dificuldade, respirei fundo e falei furiosa:
- Seu animal, não olha por onde anda, não? – Droga! Besteira cometida, conclui em pensamento.
Percebi quando ele parou de andar e virou rapidamente. Seus olhos azuis estavam brilhantes e seu rosto com feições duras, como se fosse me desafiar.
Senti um frio na espinha, uma sensação estranha me tomou, mas o que me deu mais medo foi a forma de que ele me olhou. Mesmo mancando, virei o corredor. Se ele estava zangado, com certeza agora ele deveria estar rindo e muito, meu andar rápido, com o pé dolorido e com os saltos altos, estava muito engraçado.
Saí da secretária e resolvi esperar Charlotte.
- Amiga, o que aconteceu? – Ela perguntou ao se aproximar.
- Char, um brutamonte me atropelou e torci o pé.
- Me dá seu pé, deixe eu ver o que aconteceu. – Eu o levantei e ela o pegou. Começou a massagear. – Nada que um gelo resolva!
- Menos mal, assim não chego tão atrasada na minha primeira aula.
Durante a aula fiquei com a compressa de gelo.
Tinha amado as primeiras aulas.
Por volta do meio-dia, fiquei procurando Jane no campus. Ela estava sentada num dos bancos, com o livro em mãos. Estava a poucos metros, quando um homem ruivo sentou-se do seu lado e um rapaz moreno na frente do rapaz, mas não vi seu rosto.
Jane me viu e acenou para que eu me aproximasse a eles. Levei um susto, que foi logo disfarçado, ao ver que o rapaz do meu lado, era o brutamonte.
- Lizzy, quero que você conheça Charles. – Apontou para o ruivo. – E seu amigo, William Darcy. – Apontou para ele.
Cumprimentei-os com um leve aceno e comecei a prestar atenção na conversa de Charles. Ele era um cara interessante, mas suas atenções eram apenas para Jane. Resolvi abrir meu caderno e terminar de resolver uma equação, enquanto comia uma maçã.
A conta estava realmente difícil, arrependi-me de não ter olhado algumas fórmulas no meu caderno, agora estava ali, tendo muitas dificuldades para encontrar a resolução.
- Droga! – Pensei alto.
A folha já estava ficando marcada de tanto escrever e apagar.
- Quer ajuda? – William se ofereceu.
- Se não for incômodo. – Já estava sem paciência.
- Claro que não é incômodo, posso até ser um animal, mas sei resolver essas contas. – Ele deu um riso debochado.
Fiquei tão sem graça.
- Não precisa resolver, apenas me explique. Não sou tão burra! – Retruquei.
- E quem disse que você é burra? – Isso era verdade, mas eu não estava querendo brincar naquele instante.
Respirei fundo, colocando fim àquela discussão boba.
Ele me explicou perfeitamente como resolver a conta.
- Obrigada. – Levantei. – Tchau, tenho uma aula agora. Jane, te espero no carro da Char. – Ela só afirmou com a cabeça e voltou a conversar com Charles.
Ainda andava com um pouco de dificuldade. Senti uma mão forte segurando delicadamente meu braço.
- Quer ajuda? Como sou um tolo, devo ter te machucado muito. – Ah, agora que ele foi ver que havia me machucado? Ah, não deixei barato.
- Não. – Esquivei de sua mão. – Estava pior antes, e sei perfeitamente ir sozinha. – Fui ríspida, dei meia-volta e com passos um pouco firmes, pois estava mancando, tomei meu rumo, deixando ali um homem se sentindo profundamente culpado.
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Jane e Charles começaram a namorar. Consequentemente, meu encontro com William tornou-se constante. Nunca nos dávamos bem, era incrível que em qualquer coisinha estávamos discutindo.
Ele adorava me desafiar e eu amava deixá-lo com raiva de mim, era com se fosse um anestésico, eu me divertia muito.
Com o tempo, paramos de brigar, e o que poderia virar uma discussão, começou a virar uma brincadeira. Fazer companhia a ele era divertido.
Todas as noites ele estava em meus pensamentos, tinha vezes que ficávamos até de madrugada trocando mensagens pelo celular, jogando conversa fora, falando besteiras. Fazia coisas com ele que era raro eu fazer com outros amigos.
Como ele era incrível. Incrível? Sim, ele era. Perfeito, para falar a verdade, mas ele era bom em tudo... Meu Deus, o que estava acontecendo comigo? Eu estava achando ele incrível?
Numa noite, estava analisando a situação que o meu estado de espírito ficava ao encontrar William. Os principais sintomas eram: respiração ofegante, coração palpitante, nervosismo, começava a gaguejar, frio no estômago, pernas bambas e muitas outras sensações indescritíveis.
Oh, não! Estava apaixonada por William e não sabia o que fazer!
Afundei em meu travesseiro, desejando nunca mais sair dali. Precisava digerir a informação.
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Três meses. Foram precisos três meses para que eu tomasse coragem e me declarasse para William.
Era aniversário de Charles. A festa seria em seu apartamento.
A festa era formal, então comprei um vestido que passava classe e sensualidade ao mesmo tempo, queria arrasar, principalmente para William.
Ele era preto, com algumas pedras pequenas no busto, que era frente única, e colada até a cintura, soltando até final, alcançando os meus pés. Enquanto me arrumava, a imagem da Charlotte surgiu na minha cabeça:
“-Quer um conselho? Dê o primeiro passo, um beijo no canto dos lábios é um ótimo começo.”
Até nessas horas eu pensava nessa menina, era incrível, mas até que seu conselho ia funcionar. Pelo menos comigo.
Minha mãe e Jane não acreditaram ao me verem no pé da escada.
- Que foi? Estou parecendo alguma coisa estranha? – Perguntei sarcástica.
- Não seja boba, menina. Você está linda. – Disse minha mãe.
- É... Muito linda. – Falou Jane.
Seguimos até o apartamento de Charles.
Havia um número considerável de convidados, apenas gente da alta sociedade inglesa. Sim, Charles Bingley tinha uma grande influência.
Vi William encostado no balcão do bar e não perdi oportunidade, fui até lá para ver se ele queria dançar comigo.
- Oi, e aí? – Perguntei do meu jeito brincalhão e beijei-o no canto dos lábios.
- Muito bem e você? – Ele respondeu, pareceu não ter ligado com o que fiz.
- Também. Quer dançar? – Falei já jogando os meus braços entre o seu pescoço.
- É melhor não, Lizzy. Preciso tratar de negócios. – Me deixou sozinha e foi conversar numa roda de homens.
Droga! Ela mal havia me notado.
Para mim a festa já havia terminado ali.
Fiquei um tempo circulando, observava William conversando com aqueles homens. Parecia que não ia acabar aquela conversa. Resolvi ir até a sacada.
A noite estava estrelada, uma brisa suave e fria batia em meu rosto. Fiquei perdida observando as estrelas, quando senti uma mão quente no meu ombro e na minha frente uma taça de champanhe. Era William.
- Desculpe deixá-la sozinha, mas precisava conversar com eles, era importante.
- Tudo bem. William, tenho que te contar uma coisa.
- O que é?
- Se você nunca mais quiser olhar na minha cara, eu entendo.
- Tá, mas o que é?
- Eu... Eu... Me apaixonei por você. – Ele me olhou surpreso. – Sei que é estranho, mas desde a nossa briga, comecei te ver com outros olhos e você foi se tornando cada vez mais especial para mim, mais especial que um amigo. – Falei tudo de uma vez.
William continuava parado, precisava fazer alguma coisa.
- Olha, se você nunca mais... – Ele me calou, colando seus lábios no meu.
Foi um beijo passional, brincalhão, que logo se tornou ousado, quando abri a minha boca para receber melhor seu beijo.
- Lizzy... Eu também gosto, na verdade te amo muito há um bom tempo. Só agora estou conseguindo fazer o que tanto queria.
- Acho que fui uma idiota no nosso primeiro encontro. – Lembrei do episódio em que trombamos.
- Que isso! Nunca achei a palavra animal tão bonita pronunciada por você. – Ele acariciou minha boca e logo estávamos nos beijando.
Ao sentir seus lábios finos e doces tocando nos meus, concluí que ele era o homem mais incrível e que ia ser só meu.
FIM














