CAPÍTULO VIII
Com o passar dos dias, Elizabeth teve de travar uma dura
batalha consigo mesma. Tentou se convencer de que tudo aquilo
tinha sido pura imaginação. Observou de perto seus
sentimentos, procurando dominá-los. Quando Darcy entrava em
sua sala, deixando-a com os nervos à flor da pele, ela achava
que era de irritação por ter interrompido a sua concentração.
Se ele sorria ou olhava-a mais detidamente, fazendo-a sentir
um calor anormal no rosto, ela insistia em acreditar que era
de puro embaraço.
Mas eles passaram a trabalhar muito bem juntos desde o
primeiro dia, tornando-se óbvio que pensavam da mesma maneira
em muitos sentidos. Mesmo assim, ela ainda tinha muitas
coisas para aprender. Isso a ajudava a se manter ocupada, não
dava para pensar muito em Darcy enquanto estudava pilhas de
pastas, tentando absorver todas as informações.
A “Darcy Corporation Internacional” era um vasto complexo que
se espalhava por todo o mundo. Elizabeth levou a maior parte
da primeira semana tentando descobrir exatamente qual era o
porte da organização de Darcy. Todos os dias levava para casa
grande quantidade de documentos, que estudava até muito
tarde. Quando Jorge Wickham telefonou, ela pediu desculpas
por não poder encontrar-se com ele durante algum tempo.
- Eu adoraria sair com você, mas estou cheia de trabalho. Não
pode deixar pra uma próxima vez?
- Só trabalho e nada de diversão? - perguntou Jorge Wickham,
mostrando-se preocupado com o ritmo dela.
- Lamento, mas não tenho certeza de quanto tempo levarei para
assimilar todas as informações necessárias. Até o momento,
estou me virando como posso nas reuniões. É muito difícil
conversar com os diretores sem entender nada do que eles
estão dizendo.
- Você parece irritada - comentou ele.
- Desculpe, estou cansada, mas isso logo vai passar.
- Que tal este fim de semana? Você pode folgar na noite de
sábado?
- Seria ótimo, obrigada.
- Então, eu irei buscá-la.
Elizabeth aceitou agradecida o convite de Wickham, retornando
ao trabalho em seguida. Seus olhos começavam a ficar cansados
de tanto analisar aqueles relatórios durante horas. E isso a
fazia demorar cada vez mais para entender os detalhes dos
documentos que estava lendo.
Era uma quinta-feira chuvosa e ela estava se sentindo um
pouco deprimida. Jane ainda não tinha voltado da Califórnia,
Elizabeth havia telefonado para Charllote na noite anterior.
- Não sei nada sobre ela - dissera Charllote. - Nem sequer
mandou um e-mail ou deixou uma mensagem no celular, mas isso
não me surpreende. Ela nunca escreve. Se tiver alguma notícia
para dar, é provável que nos telefone.
- Se ela conseguir o papel no filme, você quer dizer?
perguntou Lizzy incomodada.
Não desejava mal nenhum a Jane, mas estava torcendo para que
ela não passasse no teste, caso contrário teria que ficar na
Califórnia durante meses.
- Não seria maravilhoso se ela o conseguisse? - Charllote
estava entusiasmada com a idéia.
- E William Darcy? Jane falou que ele não vai gostar disso.
- Tenho certeza de que ficará muito orgulhoso! Afinal, ela
poderá ficar famosa e, se ele a ama de verdade, terá que se
sentir muito feliz por ela.
Tudo parecia tão simples para Charllote. Ao projetar as suas
próprias atitudes nas outras pessoas, sequer suspeitava de
que elas talvez tivessem uma visão diferente. Charllote era
generosa e não passava por sua cabeça o fato de que Darcy
pudesse ver a vida por outro ângulo.
- Você me avisará se ela conseguir o papel?
- Claro que sim! - Charllote fizera uma pausa e então
perguntou - Como vai o novo emprego? Está se dando bem com
William “Todo Poderoso” Darcy? É difícil trabalhar com ele?
- Bem, nós não chegamos a brigar ainda - Lizzy respondeu
evasiva, desligando o telefone a seguir, não se sentia à
vontade para falar de Darcy.
Parou um pouco de trabalhar, foi até a janela e ficou
observando a chuva. Estava tão imersa em seus pensamentos que
se sobressaltou quando o telefone tocou. Procurou se
recompor. Seus nervos estavam à flor da pele, tinha que fazer
alguma coisa a esse respeito, e depressa.
- Alô.
- Elizabeth? - O tom da voz de Darcy era brusco e apressado.
O coração dela deu um salto.
- Sim - respondeu, procurando manter-se calma.
- Infelizmente, não vou poder comparecer à reunião de amanhã.
Tenho um cliente muito importante, que vai chegar a Londres
logo cedo, e quer conversar comigo. Você terá que me
substituir. Pode vir até aqui para fazermos um breve resumo?
Estou com todos os documentos necessários.
Ela engoliu em seco.
- Sim. Quando?
- Agora! Lamento tirá-la de casa numa noite como esta. . . Eu
iria até aí, mas estou esperando alguns telefonemas urgentes.
Não levaremos muito tempo, você é sempre tão rápida para
assimilar as coisas!
- Obrigada. Estarei aí em quinze minutos.
- Até logo!
Quando Elizabeth colocou o fone no gancho percebeu que sua
mão estava trêmula. Não havia tempo para trocar a velha calça
de jeans e sua blusa vermelha. Passou um pente no cabelo,
retocou a maquiagem e vestiu uma capa.
Àquela hora e também por causa da chuva, as ruas estavam
quase desertas. Darcy morava num condomínio fechado chamado
Rosings Park, que só havia mansões. Elizabeth procurou um
lugar para estacionar e correu rapidamente até o portão.
Continuava trêmula e toda encolhida quando tocou a campainha.
Darcy abriu a porta, estava usando um suéter azul, combinando
com seus olhos, e jeans. Ele mostrou certo constrangimento ao
vê-la naquelas condições. – Nossa! Você está toda molhada!
- Posso entrar? Está frio aqui fora.- Lzzy falou, tremendo.
- Há um banheiro no fim do corredor. É melhor enxugar seus
cabelos. Me desculpa ter feito você sair com esse tempo. Não
sabia que estava chovendo tanto. Quer tomar um pouco de leite
quente ou café? Ou quem sabe uma bebida forte?
- Um dose de conhaque seria ótimo pra aquecer, obrigada -
Elizabeth respondeu, seguindo-o pelo corredor. Seus pés iam
deixando marcas no carpete espesso, e ela olhou para trás,
sem jeito.
Darcy riu.
- Não se preocupe com isso, uma das empregadas limpará amanhã
cedo.
Elizabeth sorriu meio sem graça e entrou no banheiro, onde
esfregou os cabelos vigorosamente. Depois, tirou os sapatos e
deixou-os perto do aquecedor. Talvez secassem até ir embora.
Quando saiu do banheiro, com a calça úmida e descalça, Darcy
surgiu por outra porta, trazendo uma bandeja de café, duas
xícaras, e uma pequena dose de conhaque. Elizabeth olhou-o
com curiosidade.
- O que foi agora? - perguntou ele.
- Você mesmo preparou o café?!
- E por que não? Sei fazer um café muito bem.
- O que aconteceu com seus empregados? Estão em greve?
- Muito engraçado!! Quando não espero visitas, sempre lhes
dou folga à noite. Não tem sentido nenhum ficarem na cozinha
quando não há nada para fazer. Devem estar assistindo
televisão. Eles moram lá em cima, no último andar.
- Quantos são?
- Em período integral, apenas dois... um casal, Meu chofer, e
sua esposa cuidam da casa. Várias mulheres a ajudam em meio
período, pois há muita coisa para fazer. - Ele abriu outra
porta, equilibrando a bandeja no quadril, e entraram numa
confortável sala de estar.
- Venha para perto da lareira, e tome logo o conhaque, você
está tremendo igual a vara verde.
Elizabeth aproximou-se do fogo, ajoelhou-se e estendeu as
mãos para aquecê-las.
Os dedos de Darcy tocaram os seus ao lhe entregar o conhaque.
Ela sabia que era preciso ignorar aquela proximidade.
Procurou olhar em volta e, quando descobriu uma mesa com um
tabuleiro de xadrez, perguntou:
- Costuma jogar sozinho?
- Às vezes sigo pelos livros os movimentos dos mestres,
tentando encontrar uma maneira de derrotar o adversário. Você
joga?
- Um pouco.
- Achei mesmo que o fizesse. Qualquer pessoa com uma mente
igual a sua só pode jogar bem xadrez.
- Eu não disse isso - frisou ela.
- E nem precisava. Já a vi solucionando um problema, estou
certo de que é uma jogadora maravilhosa!
- Acho melhor ouvir o que tenho a fazer na reunião de amanhãlembrou
Lizzy, disfarçando dessa maneira tudo o que estava
sentindo.
Ele concordou, tocando numa pilha de pastas.
- Os detalhes estão aqui, mas é melhor eu repassar tudo com
você.
Em cima de uma mesa, um relógio antigo soou de maneira
musical. Os dois olharam para ele surpresos. Eram dez e meia,
o tempo tinha voado.
- Está ficando tarde. Mas acho que já lhe expliquei o
principal. Se houver alguma dúvida urgente ligue pro meu
celular, caso contrário depois conversaremos a respeito, mas
não creio que possa haver problemas. Tenho plena confiança em
você para resolver o assunto.
Elizabeth procurou não sorrir, era bobagem ficar tão
encantada com aquele elogio.
Darcy levantou-se e, se aproximando, tocou de leve seus
cabelos. Ela ficou tensa.
- Agora estão secos - disse ele, acariciando-os.
Elizabeth moveu a cabeça para trás e levantou-se ao mesmo
tempo, olhando-o cautelosamente. Havia uma expressão
estranha, naqueles olhos azuis, que ela não conseguia
definir. Hesitação, incerteza, surpresa. . . Elizabeth
desviou o rosto.
- Continua se encontrando com Wickham ? - Darcy perguntou.
- Sim, com frequência. Por quê?
Ainda meio distraída com os negócios, ela não esperava pela
pergunta que veio a seguir.
- Está apaixonada por ele?
-O quê?! - Lizzy ficou boquiaberta, sentindo o rubor subirlhe
ao rosto. - É uma pergunta muito pessoal. Mesmo que
estivesse, não lhe diria.
- Já se apaixonou alguma vez? – perguntou ele.
- O que é isso? Por que esse interesse por minha vida
particular? - perguntou, mostrando-se aborrecida.
- Apenas curiosidade.
Darcy encolheu os ombros. Parecia estar confuso, como se ele
próprio não soubesse o verdadeiro motivo de estar perguntando
sobre a vida amorosa dela.
- Você é tão independente, é tão senhora de si. Nunca quis
saber a respeito dos sentimentos dos outros? É bem mais fácil
quando as pessoas se abrem espontaneamente, mas você é muito
reservada. Só queria saber se existe uma maneira de fazê-la
se abrir comigo.
- Olha só quem fala! Vê se dá um tempo, Darcy! - disse
Elizabeth, caminhando em direção à porta.
- Aonde vai? Não seja tão melindrosa. Wickham é assim um
assunto tão delicado? Só espero que ele não esteja tentando
levá-la para a firma dele.
- Ofereceu-me um emprego há algum tempo - contou ela, com ar
satisfeito.
- Mas você recusou.
- Ainda está à minha disposição, caso eu mude de idéia.
Darcy então pegou as pastas sobre as quais estiveram
discutindo.
- Não se esqueça disto, você vai precisar delas.
Ela voltou e, quando ia apanhá-las, Darcy agarrou seus pulsos
com firmeza.
- Eu não gostaria de perder você agora. Se alguma vez tiver
problemas de qualquer espécie, fale comigo. Nem pense em ir
embora.
Darcy puxou-a mais para perto, com ar provocador, os olhos
fixos em sua boca.
A proximidade era tanta que ela podia sentir o calor de seu
hálito,o cheiro de sua colônia,a eletrecidade que emanava de
seus olhos.
- Promete? - perguntou ele num tom baixo e rouco.
Elizabeth assentiu com um gesto de cabeça, sabendo que ele a
estava olhando com seriedade.
- É melhor eu ir andando - murmurou, afastando-se dele com
dificuldade. Darcy era perigoso, com seu olhar era capaz de
anular toda e qualquer tentativa de fuga. Elizabeth queria
sentir os lábios dele nos seus, mas se lembrou de Jane, e
ficou furiosa consigo mesma, o que estava fazendo?
Darcy soltou seus pulsos e ela foi buscar seus sapatos no
banheiro, atrapalhando-se um pouco ao calçá-los. Então, em
silêncio, caminhou até a porta. A chuva veemente batia nos
degraus da escada .
- É melhor eu ir correndo - disse com alívio, e mergulhou na
noite, ciente de que Darcy a estava olhando da porta. Mas, ao
sair com o carro, notou que ele já havia entrado, sem ao
menos dar-lhe um aceno de mão.
Fim do Capitulo VIII














