CAPITULO VII
Elizabeth não sabia direito o que poderia encontrar ao seguir
Darcy para dentro daquele quarto grande e ensolarado, mas
nunca pensou em ver uma mulher recostada em travesseiros,
olhando para a porta, aflita. A sra. Darcy era linda. Essa
foi a primeira impressão que Elizabeth teve dela. A segunda
veio logo em seguida. Como descrever uma pessoa de pouco mais
de sessenta anos, tão magra e frágil, mas ainda assim com
tanta determinação e segurança?
- William, você está atrasado. . . Fiquei muito preocupada!
- Pois não precisava. - Darcy sentou-se na beirada da cama e
segurou a mão que sua mãe lhe estendeu.
Elizabeth achou que a beleza da sra. Darcy não estava apenas
em seus grandes olhos azuis, nem em seu nariz delicado ou na
boca pálida, mas sim no sorriso, na especial vivacidade, e na
forte paz interior.
- Mãe, esta é Elizabeth Bennet.
Lizzy se aproximou com delicadeza e apertou a mão que a sra.
Darcy lhe estendia.
- Sente-se, Elizabeth. Foi muita bondade sua ter renunciado
ao seu domingo para vir me ver. Espero que William não a
tenha forçado a isso. .
- Não muito. – respondeu Lizzy.
- Cuidado, mãe, ela tem o hábito irritante de sempre dizer a
verdade - advertiu Darcy em tom de zombaria.
- Deve ser uma experiência nova para você, querido. - A sra.
Darcy dirigiu-lhe um olhar divertido, e continuou falando com
Elizabeth: - Ouvi dizer que acabou de voltar de Nova York. O
que achou dessa cidade?
- É eletrizante e excitante. . . Deve ser uma das cidades
mais barulhentas do mundo. Também é desconcertante, vive se
modificando da noite para o dia. Parece que nada a satisfaz,
e tem sempre algo para torná-la maior e melhor
A sra. Darcy olhou-a com atenção, deixando-a nervosa.
Elizabeth disfarçou e desviou o olhar, agitada. A sua breve
vivacidade extinguiu-se ao se lembrar da própria aparência. A
sra. Darcy, como Jane, também devia ter sido linda, e ainda
era muito bonita.
- Não fique aí parado, William - a sra. Darcy falou. - Não
precisamos de você aqui. Desça e vá tentar melhorar o humor
de Katarina, ela ficou muito zangada com o atraso de vocês.
- Vamos com calma, Katarina só fica desse jeito porque a
senhora se preocupa, como bem sabe.
- Conheço bem Katarina, obrigada, mas não consigo estar calma
quando você chega quase uma hora atrasado. Agora desça e vá
falar com ela!
Darcy saiu e a mãe dirigiu um sorriso melancôlico a
Elizabeth.
- É bobagem me preocupar com um homem da idade de William,
mas esse medo eu adquiri com a mundança dos tempos, com sua
sociedade tão violenta, especialmente quando há dinheiro
envolvido. O pai dele escapou várias vezes, por pouco. Eu
vivia aterrorizada quando alguém que o odiava ameaçava matálo!
- Mas parece que Darcy tem homens de segurança por perto o
tempo todo, mesmo para vir até aqui. Por isso a senhora não
deve se preocupar demais.
Elizabeth hesitou, então contou o que tinha ocorrido a
caminho de Lambourne. A sra. Darcy riu depois de ouvi-la.
- Você sentiu medo?
- Fiquei petrificada – Lizzy admitiu. - Mas senti-me uma
tola quando seu filho disse que eles eram homens contratados
para zelar pela sua segurança. Tinha até planejado uma
maneira de fugir deles!
- Você não é o que eu esperava - a sra. Darcy disse de
repente, e Elizabeth olhou-a com cautela.
“Afinal, o que aquela senhora imaginava? Talvez uma pessoa
como Caroline Snake, uma mulher elegante e bonita, com muito
charme, além de inteligência?”
Elizabeth no mesmo instante sentiu-se irritada e deprimida.
"Por que a aparência tem que ser tão importante?”, pensou.
- William me disse que você é uma pessoa irritante e difícil.
Que fica discutindo o tempo todo com ele. Que é obstinada e
livre demais em suas opiniões.
- Oh, ele disse? - Elizabeth murmurou, baixando os olhos para
ocultar um brilho de rebeldia.
“Então era isso o que Darcy havia falado para sua mãe? Será
que ele contara também por que ela se mostrara arrojada em
suas opiniões? A sra. Darcy sabia a respeito dele e de
Caroline Snake?”
Como se tivesse lido os seus pensamentos, a sra. Darcy
perguntou:
- Já conheceu a sua antecessora?
- Sim. Ela é exatamente o tipo de moça que tem trabalhado
para seu filho nos Estados Unidos. Para ser bem-sucedida lá,
a mulher precisa desse tipo de aparência, saber ser
encantadora, e se vestir com perfeição, parecendo que foi
feita para isso.
- Mas os olhos dela são traiçoeiros - argumentou a sra.
Darcy, deixando Elizabeth surpresa. - Foi por isso que
desviou o seu olhar agora há pouco? Tem medo do que eu possa
vir a descobrir através dele?
Lizzy permaneceu calada.
- Sabe, querida, podemos fazer nossa boca sorrir no momento
que desejarmos, mas os olhos sempre dizem a verdade, e
Caroline Snake tem olhos frios.
A sra. Darcy interrompeu-se para arrumar uma mecha de cabelos
prateados, que lhe caía no rosto, e a seguir continuou:
- Fiquei surpresa quando você entrou aqui com William.
Surpresa e encantada. . . Estamos conversando como jamais
poderia falar com Caroline. William lhe contou que uma de
suas tarefas será me manter informada a respeito do que ele
está fazendo? Não me refiro ao lugar, a esse tipo de coisa.
Ele me telefona várias vezes por semana, esteja onde estiver.
Refiro-me àquilo que concerne à empresa. Gosto de saber o que
está se passando, posso estar presa nesta cama, mas isso não
significa que meu cérebro tenha parado de funcionar. Gosto de
estar sempre a par do que está acontecendo. Leio os jornais
todas as manhãs e frequentemente converso com meu corretor e
meu banqueiro. No dia em que deixar de sentir interesse pelo
resto do mundo, estarei morta!
Elizabeth riu, muito satisfeita e interessada. A sra. Darcy
tinha uma aparência delicada e, apesar de demonstrar sutileza
e muito equilíbrio, falava de uma maneira franca e direta com
a qual ela se identificara imediatamente. Havia muita força
nela, transferida também para o filho.
- William me disse que você é uma velha amiga de Jane.
- Conheço-a há vários anos. A irmã dela é minha melhor amiga.
- Eu estava começando a achar que William jamais iria se
casar. Ele tem andado muito ocupado desde que seu pai morreu.
A sra. Darcy sorriu, tristonha.
- Oh, já houve mulheres na vida dele, mas nenhuma durou muito
tempo. Ele não parecia se interessar por elas, e isso me
preocupava. Dedicou toda a sua atenção só ao trabalho, não
havia lugar em sua vida para o casamento. Quando um homem se
acostuma a viver desse jeito, torna-se um hábito, fica muito
egoísta, não quer saber de mudar.
Ela olhou pensativa para Elizabeth.
- Você ainda não pensou em se casar?
- Não - Elizabeth respondeu, sem disposição para discutir
aquele assunto.
A sra. Darcy estudou-a durante algum tempo, então continuou:
- Eu simpatizei logo com Jane. É uma moça encantadora, muito
doce e cordial, mas. .. - Ela parou, e Lizzy franziu a testa,
curiosa em saber o que iria dizer. - Bem, William escolheu, e
eu desejo que ele seja feliz. A gente nunca sabe o que se
passa dentro da cabeça de uma pessoa, mesmo quando se trata
de nosso próprio filho. - Voltou-se de novo para Elizabeth.
- Jane é o que aparenta ser?
A pergunta foi súbita e direta. Lizzy não conseguiu responder
imediatamente.
- Jane é cem por cento autêntica, acredite. Aliás, Charllote
e eu costumávamos desejar que ela não fosse tão boa.
Sentíamos até um pouco de inveja quando éramos mais novas.
Ela sempre foi tão deslumbrante e linda que as pessoas
arregalavam os olhos quando ela passava. Nós queríamos que
Jane fosse uma pessoa odiosa e mesquinha, mas nunca foi. Ela
vale ouro!
A sra. Darcy ouviu tudo em silêncio, observando-a assentindo
com a cabeça.
- Sinto-me feliz em saber disso. Ficaria furiosa se ela
conseguisse me enganar. - Sorriu com ar brincalhão.
- Ninguém gosta de fazer papel de bobo.
- Já aconteceu com você, Elizabeth?
- Talvez, mas não me lembro mais. Acho que é instinto de
preservação.
As duas riram, então a sra. Darcy perguntou:
- Como foi que começou a trabalhar em banco? - Durante os
minutos seguintes elas conversaram sobre assuntos gerais.
Lizzy achou a conversa estimulante e agradável, a sra. Darcy
tinha uma inteligência aguçada e um vasto conhecimento sobre
finanças internacionais.
Quando Darcy voltou para avisar que o almoço estava servido,
Lizzy relutou em interromper o assunto, não se lembrava de
ter conhecido alguém tão interessante e divertido.
- Venha me ver antes de ir embora, Lizzy - pediu a sra. Darcy
antes dela sair.
A caminho da sala de jantar Darcy comentou:
- Minha mãe a chamou de Lizzy?!
- Meus amigos me chamam assim. – Disse ela calmamente.
- Ela gostou de você, Elizabeth.
- Espero que sim, pois eu também gostei muito dela.
Elizabeth estava curiosa em saber se todas as assistentes
pessoais de Darcy tinham passado por esse teste. Ele parecia
levar muito em conta a opinião da mãe.
- Pena que ela me mandou sair. Desconfio que você não lhe
mostrou as garras que usa contra mim - comentou ele abrindo
uma porta no hall e afastando-se para que ela entrasse na
ensolarada sala de jantar.
Elizabeth não ligou para aquele comentário, e quando
começaram a comer o delicioso almoço que Katarina preparou,
Darcy disse:
- O que eu tenho que fazer para você acreditar que não estava
enganando Jane ontem à noite?
Lizzy continuou comendo, enquanto pensava na resposta.
- Estou surpresa que leve minha opinião tão a sério. Qual a
importância disso para você?
- Tenho me perguntado isso desde que a encontrei naquela
boate. Pode ser infantilidade de minha parte, mas tenho uma
forte aversão a ser responsabilizado por coisas que não fiz.
- E esta foi a primeira vez que traiu Jane? - Lizzy riu, mas
de repente se deu conta de que acreditava nele.
- Eu não a traí - retrucou ele, sorrindo e encarando-a.
- Não tenho nenhuma intenção de começar meu casamento com uma
traição, e, se eu fosse fazer mesmo isso, não seria com
Caroline.
- Não? Então com quem?
Ele se serviu de um pouco de vinho.
- Talvez com você. - Lizzy ficou tensa.
- Não comece a flertar comigo, sr. Darcy. Não faz o meu tipo.
Além do mais, não costumo roubar namorados de minhas amigas
e, se o fizesse, o senhor seria o último homem da face da
terra a quem eu escolheria. E também nós não vivemos no mesmo
mundo.
- É engraçado. Eu diria exatamente o contrário. São poucas as
mulheres que sabem conversar de maneira perspicaz e
inteligente sobre dinheiro, ou qualquer outro assunto. E,
quando conseguem, elas quase nunca têm senso de humor. Você
já notou que de vez em quando olha para baixo para rir?
Elizabeth corou, baixando os olhos, desta vez para esconder a
sua perturbação.
- Tem certeza de que está levando Jane a sério?
Ele não respondeu, ficaram em silêncio enquanto Katarina
removia os pratos de sopa vazios, e servia pedaços de
carneiro com molho de hortelã, batatas e ervilhas.
Quando estavam tomando café, William perguntou:
- Você joga Super-nintendo? - Lizzy meneou a cabeça.
- Então vou lhe ensinar. Vai gostar do jogo. Meus sobrinhos
sempre estão por aqui, o que significa que sermpre haverá
muitos brinquedos pela casa, por muito tempo. -Então vamos
jogar?
- Se você quiser!
Elizabeth não esperava se divertir, mas surpreendeu-se, pois
tudo foi muito agradável. Riram bastante, principalmente por
ter feito Darcy de bobo, o fez perder um tempão lhe ensinando
como se joga, e logo depois ela o abateu em três rodadas
consecutivas.
Antes de irem embora, Darcy levou-a para se despedir de sua
mãe:
- Você vai manter contato comigo, não é, Lizzy? Gostei muito
de nossa conversinha. Que tal vir até aqui qualquer dia
destes, quando não tiver nada para fazer? Enquanto William
estiver fora, eu gostaria que me telefonasse.
Elizabeth prometeu manter contato. Durante a viagem de volta
permaneceram algum tempo em silêncio, até que Darcy falou:
- Então, amanhã às nove em ponto? - O tom de voz dele era
casual, mas percebia-se que não estava muito seguro da
resposta.
- Estarei lá - informou ela com calma, vendo Darcy se
descontrair.
Quando chegaram diante da casa de sua avó, já era quase
noite.
- Foi um dia muito agradável. Obrigada, Sr.Darcy.
- Pode me chamar de William, Lizzy.
- Prefiro manter a formalidade, vamos trabalhar juntos
lembra?!
- Como você quiser, só não me chame de Senhor.
- Obrigada novamente, o dia foi realmente muito agradável.
- O prazer foi todo meu. - Ele estava sério.
Era bobagem, mas de repente ela se sentiu inquieta e nervosa;
com vontade de se afastar depressa, sem saber o porquê.
- Bem, boa noite - disse.
Saiu rápido do carro. Seu coração batia descompassadamente.
Ficou furiosa consigo mesma, estava parecendo uma colegial
que tinha saído com o namorado pela primeira vez. Então,
correu para o seu quarto e olhou-se no espelho.
Na manhã seguinte, quando chegou ao grande edifício dos
escritórios da “Darcy Corporation International”, Elizabeth
sentia-se um pouco nervosa. Estava chovendo lá fora, uma
chuva forte de primavera, que provavelmente passaria até o
meio-dia.
A sala de Darcy ficava no último andar, e ela saiu do
elevador procurando caminhar com toda calma. Seu relógio
marcava nove horas em ponto.
Quando se aproximou da mesa da recepcionista, a moça levantou
os olhos, sorrindo. Tinha um rosto redondo e vivaz, e olhos
negros cordiais.
- Bom dia, eu sou Elizabeth Bennet. Tenho hora marcada. ..
- Com o sr. Darcy.. . Sim, srta. Bennet, vou avisar que já
está aqui. - A moça anunciou-a pelo interfone. - Quer me
acompanhar, por favor?
- A srta. Bennet, senhor. - Ela se afastou deixando Elizabeth
passar. - Preparo um pouco de café, senhor?
- Daqui a meia hora, por favor - Darcy levantou-se. Sua mesa
estava abarrotada de papéis. Ele se aproximou, indicando uma
cadeira a Elizabeth. - Temos muita coisa para fazer, e pouco
tempo disponível.
Ela se sentou e cruzou as pernas, percebendo como ele
observava seus movimentos. Enquanto encostava o corpo na
beirada da mesa, seu joelho ficava a poucos centímetros do
dela. Ele estava usando roupas formais, mas tinha afrouxado o
laço da gravata e desabotoado o colarinho.
- Hoje você está com ótima aparência - Darcy disse de maneira
um tanto seca.
Elizabeth corou. Estava usando um conjunto cinza de lã e
blusa branca.
- Muito-bem - continuou ele entregando-lhe uma pasta. Aqui
está um resumo de todo o trabalho que Caroline estava
fazendo. Poderá procurar mais detalhes nos arquivos da sua
sala, mas isso lhe dará uma idéia geral.
Enquanto ela lia com atenção os relatórios, Darcy observou-a.
Elizabeth desejou que ele não se sentasse tão perto, estava
atrapalhando a sua concentração.
- Dê uma boa olhada na página três. São as empresas nas quais
estou interessado e que talvez compre. Nesse momento, Darcy
se levantou. Elizabeth sentiu quando ele se apoiou no encosto
de sua cadeira e se inclinou sobre ela. Seu coração começou a
bater mais rápido, distraindo-a.
- Depois que tiver estudado tudo isso, nós conversaremos -
ele falou, voltando a sua cadeira. - E então, vamos tomar
aquele café?
Mais calma, Elizabeth leu a página três de novo e também as
outras folhas. A seguir levantou os olhos, decidida a fazer
algumas perguntas.
Darcy consultou seu relógio:
- Já é hora do almoço - anunciou, deixando Elizabeth
admirada. A manhã havia passado depressa demais. - Você
perdeu a noção do tempo? Eu também, até que comecei a sentir
fome. Vamos comer alguma coisa no restaurante da diretoria,
para podermos voltar logo e concluir a discussão, está bem?
"Para que essa sugestão, se Darcy já estava com tudo
planejado?", Elizabeth perguntou-se.
Eles eram os únicos ocupantes da pequena sala de refeições, a
qual, como Darcy lhe falara, só era usada vez ou outra pelos
executivos da empresa.
Elizabeth estava nervosa. A presença daquele homem arrogante
e atraente a perturbava demais! Como o assunto não era mais
sobre negócios, Elizabeth achou melhor ficar calada, o maior
tempo possível.
A chuva já tinha parado, e agora o sol entrava brilhante pela
janela da sala de Darcy. Elizabeth olhou para ele e sentiu
seu coração bater forte dentro do peito. Era uma sensação
física, que a deixou ofegante e abalada. Sua pele começou a
arder e sua boca ficou seca.
" Céus, o que está acontecendo comigo?", pensou. "Será que
estou me apaixonando por Darcy? Mas isso seria uma grande
loucura! Não posso permitir que isso aconteça. Não por um
homem como ele."
Darcy começou a falar sobre negócios de novo e Elizabeth se
recompôs. "Talvez seja apenas uma indigestão. Afinal,disse a si mesma.
almoçamos depressa demais",
Final do Capítulo VII














