Citações

É uma verdade universalmente conhecida que um homem solteiro, possuidor de uma boa fortuna, deve estar necessitado de uma esposa.(Jane Austen)

Quando o Amor Acontece - Capítulo IV

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 Capitulo IV

Na segunda-feira seguinte Elizabeth compareceu ao almoço com William

Darcy num pequeno e elegante restaurante. De terno e impecávelmente

elegante,ele estava sentado no bar anexo quando ela chegou. Levantou-se

ao vê-la, e apertou sua mão com firmeza.

- O que quer beber? perguntou, quando ela se sentou e um garçom apareceu

com dois cardápios.

Elizabeth pensou rapidamente. "Seria melhor pedir um vinho leve; preciso

estar muito lúcida."

- Acho que vou tomar um vinho - disse.

- Divertiu-se na festa? Vi que você encontrou um amigo. Como foi que

conheceu Jorge Wickham ? Através do banco? Era um de seus clientes?

- Sim - respondeu Elizabeth, abrindo o cardápio. - Puxa, como o cardápio

aqui é variado! A comida é tão boa quanto parece?

Darcy aceitou a mudança de assunto sem fazer comentários. Elizabeth já

tinha visto Wickham novamente; ele telefonara no sábado de manhã, depois

da festa, e a convidara para jantar. Os dois passaram uma noite muito

agradável, conversando muito, e Wickham mostrou-se interessado no

trabalho que ela realizara em Nova York. Ele viajava bastante, e era sem

dúvida uma pessoa muito interessante.

Depois de fazer o pedido e terminar os seus drinques, ela e Darcy

seguiram para o restaurante. Elizabeth percebeu que muitas pessoas

prestavam atenção neles. Ele era muito conhecido, e a festa de noivado

tinha chegado às colunas sociais no dia seguinte.

Lizzy estava tranquila; com seu vestido vermelho de lã, fechado e

discreto, não poderia ser confundida com uma de suas namoradas; e, além

do mais, a última coisa que ela queria era competir com mulheres como

Jane ou Caroline Snake.

Estavam comendo em silêncio há algum tempo quando Darcy disse, num tom

indiferente e calmo:

- Acabei de perder minha assistente.

Se Elizabeth não tivesse presenciado a pequena cena da festa, jamais

teria adivinhado que isso se devia ao seu súbito anúncio de noivado.

"Bem feito para Caroline Snake", pensou ela, mordendo o lábio e baixando

os olhos para não rir. "Darcy, pelo visto, não perdeu tempo para

dispensá-la."

- Eu disse alguma coisa engraçada? - perguntou ele, pegando-a de

surpresa.

Assustada ela ergueu os olhos e, recompondo-se, disse:

- Claro que não!

Ele a olhou com firmeza, por um momento.

- Você tem um jeito de ser muito interessante.

- Obrigada - respondeu ela de maneira afetada.

- Aceita o cargo? - A pergunta foi direta.

Ela arregalou os olhos ainda mais e baixou-os em seguida, tentando ganhar

algum tempo para acalmar-se.

- O que, exatamente, isso representaria?

- Um salário duas vezes maior do que aquele que você ganhava. - respondeu

ele, categórico.

- Não podemos falar primeiro sobre o trabalho e depois sobre o dinheiro?

- Você tem a qualificação necessária. É inteligente e capaz de trabalhar

sozinha, o que poderá acontecer muitas vezes, pois preciso viajar a maior

parte do tempo. É claro que terá que me manter informado do que estará

acontecendo por aqui. O serviço será mais variado do que aquele a que

você está acostumada, porque haverá muitas outras coisas, além dos

investimentos propriamente ditos. Terá que fazer relatórios confidenciais

sobre as empresas nas quais eu estiver interessado, sempre com

informações atualizadas, onde quer que eu esteja. Resumindo, você seria

os meus olhos e ouvidos em Londres e, até certo ponto, também meu

cérebro.

Em nenhum momento Darcy mencionou o Austen Bank; Elizabeth fez várias

perguntas e recebeu respostas concisas e claras, mas Darcy não falou nada

sobre a sua antiga firma.

Não há dúvida de que existe hostilidade da parte dele para com o banco.

Por que está sendo tão evasivo e astuto? Será para esconder o que na

verdade quer de mim?", pensou.

- Você tem três dias para decidir - disse ele, enquanto tomavam café. -

Depois disso vou ter que procurar outra pessoa; tenho uma certa urgência;

minha antiga assistente já saiu.

Elizabeth lhe dirigiu um sorriso amargo.

- Entendo.

Teria Caroline se demitido, ou fora despedida? Lizzy ficou curiosa em

saber. A mulher devia estar louca, para permitir que emoções pessoais

arruinassem sua carreira. Talvez tivesse arranjado outro emprego. Sua

experiência com William Darcy certamente atrairia o interesse de seus

rivais.

- Telefone-me na manhã de quinta-feira - disse ele, e consultou seu

relógio. - vou ter que ir embora agora. Tenho um compromisso às três e

meia. Mas, temos tempo para mais um café. - Ele acenou para o garçom, e

Elizabeth o viu olhar para uma moça que andava pelo restaurante. Era

muito bonita e tinha uma maneira sedutora de caminhar. Darcy observou-a

com interesse. Lizzy amarrou a cara. "Pobre Jane", pensou; "pelo jeito

Darcy não é do tipo fiel."

- Há alguma coisa errada? - ele perguntou de repente, encarando-a.

Nesse momento o garçom apareceu para encher de novo a sua xícara,quando

se afastou, Darcy já tinha esquecido da pergunta. Minutos depois, ele

pagou a conta e saíram.

- Aceita uma carona? - perguntou ele. - Se não se incomodar de ir comigo

até o escritório, o meu motorista poderá levá-la depois onde quiser.

Ela entrou na limusine, enquanto Darcy fazia uma ligação no celular.

- Devia usar vermelho com mais frequência, fica muito bem em você -

comentou ele de repente, e ela o olhou assustada. Acho que está magra

demais. Faz dieta? Você não precisa, sabe?

- Obrigada pelo conselho - Elizabeth olhou-o com antipatia.

- Já que vai trabalhar para mim, acho que tenho certo direito de opinar

sobre a sua aparência.

- Acha mesmo? – perguntou ela com ironia, deixando claro que não

concordava. “Que cara abusado” pensou. - Ainda não me decidi. Tenho

outras ofertas...

- Você vai aceitar a minha.

- Ah, é? “Cretino” pensou.

- Sim.

- O que lhe dá tanta certeza? “ Seu almofadinha arrogante”.

- Eu quero você, e sempre consigo aquilo que desejo. - Assim que a

limusine parou defrente a um grande edifício,

William Darcy sorriu para Elizabeth e falou:

- Terei notícias suas até quinta-feira. - Então abriu a porta do carro e

saiu.

O motorista a levou ao seu novo apartamento. Algumas de suas coisas

haviam chegado de Nova York, mas ela não tinha desencaixotado nada,

faltavam ainda alguns consertos, para poder se mudar. Olhou com aprovação

para o novo papel de parede, enquanto pensava no que “William Arrogante

Abusado Cretino Darcy” lhe dissera.

Elizabeth admitia que a oferta dele era tentadora: um salário muito

atraente, e o trabalho em si parecia ser fascinante. Teria também grande

responsabilidade, mas isso não a preocupava. . .

Na realidade, estava indecisa porque havia dois problemas: um deles era o

próprio Darcy. Mesmo sem querer, ela estava gostava do jeito decidido e

objetivo dele, e isso era perigoso. Afinal ele era o noivo de Jane! O

outro e principal problema era que ela temia ser usada, de alguma forma,

contra o Austen Bank.

Ela almoçou com Jorge Wickham no dia seguinte. Discutiram sobre o emprego

que ele estava lhe oferecendo, e Lizzy esperou que a proposta de salário

fosse melhor do que a que Darcy lhe oferecera. Mas não foi isso que

aconteceu, e ela acabou recusando.

- Então você vai voltar para o Austen Bank? - perguntou ele com pesar,

antes de se despedir.

- Duvido muito.

- Está escondendo o jogo, não? - Wickham insinuou sorrindo.

- Bem, independente de sua decisão, queria convidá-la para ir ao teatro

na semana que vem. Está livre na terça?

Lizzy aceitou. Gostava de Wickham e queria vê-lo de novo. Na quarta-feira

à noite, ela estava ouvindo música quando o telefone tocou.

- Lizzy? - A voz de Jane parecia aflita.

- Alô, Jane, o que aconteceu?

- Preciso falar com você. Posso ir até aí agora?

- Acho que sim. – Lizzy consultou o relógio: eram mais de nove horas. –

Quanto tempo você vai levar para chegar aqui?

- Meia hora. Lamento, mas. ..

- Está bem, pode vir. - Elizabeth desligou, preocupada. E foi preparar um

café. Jane devia ter algum motivo urgente para querer falar com ela. O

que seria que queria confidenciar com ela e não com Charllote?

A campainha tocou e Lizzy, ao atender, encontrou Jane muito agitada.

- Oh, Lizzy, sinto muito incomodá-la a esta hora da noite. . - Não se

preocupe com isso. Entre, vamos tomar um pouco de café; acabei de fazer.

- Não vou me demorar. Preciso tanto falar com você! - disse Jane indo

para a sala, levando sua xícara. - Lembra-se daquele filme do qual lhe

falei? Querem fazer um teste comigo. Telefonaram esta noite pedindo para

que fosse a Califórnia amanhã, e eu não sei o que fazer.

- Você não pode ir? Está com algum trabalho em vista?

Não é isso.. . É William. Ele quer que eu pare de trabalhar quando

casarmos, entende? Não vai gostar que eu tome parte nesse filme.

- Não pensei que ele fosse tão antiquado - comentou Lizzy um tanto

surpresa. - Sempre me pareceu aceitar com naturalidade o fato das

mulheres trabalharem fora. - "Será que ele muda de opinião, quando se

trata da própria esposa?", pensou.

- Acho que William não reprova de modo geral; mas ele quer formar uma

família imediatamente, entende? – Jane olhou para ela e riu, corando. -

Ele até já me perguntou se eu queria ter um bebê logo.

Puxa! Foi muito direto. O que você respondeu?

- Achei muito doce da parte dele e lhe disse que gostaria de ter um bebê.

Mas não sabia até então que havia possibilidade de fazer o filme. Estou

um pouco cansada de trabalhar como modelo; e estava gostando da ideia de

ter logo um filho, mas agora. . .

Está falando que prefere fazer o filme? - perguntou Lizzy, sorrindo, e

Jane a olhou com melancolia.

- Sim, é esse o problema. Não me atrevo a falar com ele

do teste, mas também, como posso deixar escapar essa oportunidade? Não

sei o que fazer.

- Pois conte-lhe a verdade e depois vá fazer o seu teste. Não é isso que

você deseja?

- Está achando que é muito simples não é? - Jane a olhou, suspirando. - A

sua carreira é o mais importante para você não é? Não consigo imaginá-la

hesitando entre seu trabalho e um homem.

Elizabeth ressentiu-se com o comentário, mas não discutiu.

- Meu noivo me contou que lhe ofereceu o cargo de Caroline. Você vai

aceitar?

Ainda não me decídi- Lizzy mentiu.

- Hum, aceite. . . Eu poderia então me afastar durante alguns dias sem me

preocupar. Tenho medo dela... Você devia ter ouvido o que ela me falou na

nossa festa de noivado! - A voz de Jane estava um pouco trêmula. - Disse

que. . .

- Posso imaginar - Lizzy interrompeu com voz insegura.

- Mas não se preocupe com isso, é bobagem. Lembre-se que ela é uma mulher

desprezada. O que falou foi só para magoá-la, e se permitir que isso

aconteça, Caroline acabará conseguindo seu objetivo. – Lizzy tentou

conforta-la.

- Eles tiveram um caso Lizzy. William não negou isso.

Elizabeth ficou perplexa, mas procurou não demonstrar, e continuou:

- Mas ele vai se casar com você, não com Caroline!

- Somente porque William quer ter filhos e ela não.- replicou Jane.

Lizzy olhou para a amiga, abismada.

- Foi isso que ela lhe falou na festa? Puxa, mas que sem-vergonha! -

Agora entendia por que William Darcy ficara tão zangado; Caroline fora

despedida de sua firma em questão de horas.

- Disse que ele só me quer para ter filhos, pois prometeu à mãe que lhe

daria netos. Falou também que William começou a procurar uma esposa

adequada e que eu não tivesse ilusões, porque era certo que ele ainda não

havia encontrado. - Jane franziu a testa, seus lábios tremiam. - Bem,

pelo menos foi isso o que ela deu a entender, apesar de não ter usado

exatamente essas palavras. No início, fez de conta que era uma piada;

sorriu o tempo todo, mas não estava sendo engraçada. Insinuou que William

a amava e que teria se casado com ela se concordasse em ser mãe. William

ficou calado, apenas olhando. Foi tão embaraçoso... Então ele disse

alguma coisa bem baixinho, que não ouvi, e ela se afastou. Mas William

não desmentiu nada. Depois alguém se aproximou, e não tocamos mais no

assunto até hoje, quando me contou que tinha lhe oferecido o cargo. Como

vê, você precisa aceitar. Enquanto eu estiver fora, ele pode recebê-la de

volta.

- Duvido muito - disse Elizabeth com convicção. Darcy não era o tipo de

homem que daria uma segunda oportunidade a alguém que tivesse agido como

Caroline Snake.

- Ele pode contratar outra pessoa como ela - Jane acrescentou.

- Você não parece confiar muito nele.

- Eu confiava, até que. . . Não ouso perguntar-lhe se é verdade o que

Caroline disse, mas penso nisso o tempo todo. Eu não sou boba, Lizzy; sei

que houve muitas outras mulheres na vida dele. Antes isso não me

incomodava, considerava-as como algo do passado, mas agora imagino que

poderá se repetir tambem no futuro.

- Está dizendo que está com medo de se casar com ele? - Lizzy olhou-a

fixamente, tentando adivinhar o que se passava na cabeça da amiga. Por

que Jane viera falar com ela?

- Eu sou louca por William. Sinto até arrepios quando estou a seu lado.

Você tem que admitir que ele é muito sensual, Lizzy, embora não faça o

seu tipo.

Na verdade, o que Jane queria mesmo dizer era que Elizabeth não era o

tipo de Darcy, mas isso ela também sabia. Ele a via como uma

profissional, não como mulher.

- Por favor, aceite o emprego - suplicou. - Assim eu irei muito mais

tranquila para a Califórnia. Sei que você não é uma ameaça para mim, mas

outra pessoa qualquer poderá ser.

- Obrigada - disse Elizabeth secamente.

Jane, preocupada demais com seus problemas, não percebia que a estava

ofendendo, enquanto a olhava cheia de ansiedade, Lizzy sentiu muita pena

dela.

- Você vai lhe falar sobre o teste do filme antes de ir?

- Direi apenas que vou viajar a serviço. Ele está acostumado com minhas

viagens. Se conseguir o papel, terei que lhe contar, mas até lá prefiro

guardar segredo. Lizzy, você vai aceitar o emprego?

- Talvez.

- Você é um anjo! Basta manter Caroline Snake longe dele. . Ela não é

apenas bonita, é inteligente; e eu tenho medo dela. Avise-me se William

tiver algum contato com ela de novo. . . está bem? Você fará isso, não,

Lizzy?

- Espioná-lo? - perguntou ela um tanto sarcástica. - Não estou gostando

disso, Jane. Se não confia nele, você não deveria se casar.

- É dela que desconfio! – explicou Jane insegura - Agora preciso ir.

Obrigada por me escutar, Lizzy.

- A propósito, por que não contou tudo isso a Charllote?

- Ela só iria se preocupar comigo e se envolveria demais. Você é

diferente, tão objetiva e segura de si que posso lhe dizer qualquer

coisa.

Elizabeth ficou sem saber se aquilo tinha sido um elogio; parecia que ela

era muito indiferente e fria. Talvez fosse assim que Jane a visse.

Fim do Capitulo IV

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