CAPITULO I
Elizabeth voltou ao escritório da Austen Bank pelo Central Park. Sabia
que estava atrasada, mas caminhava sem pressa. O almoço tinha sido muito
bom, regado com um delicioso vinho, e o dia era um daqueles de fim de
outono em que Nova York ficava iluminada por um sol melancólico.
Olhou para as árvores, de folhas amareladas, quase douradas, que o vento,
uma vez ou outra arrancava e soprava pelas alamedas. Casais de namorados
passeavam de maneira sonhadora e homens de terno comiam sanduíches,
atirando depois migalhas aos pombos.
Em breve as árvores perderiam as folhas, a neve cairia sobre Manhattan, e
teria que sair às pressas do escritório para tomar o metrô, olhando
apenas de relance para o parque.
"Tenho que aproveitar esse belo dia", pensou ela.
Quando finalmente chegou ao escritório, consultou seu relógio e deu de
ombros. Estava meia hora atrasada, mas talvez Collins não reclamasse
muito, uma vez que costumava ser pontual. Ao entrar mostrou seu crachá ao
porteiro uniformizado.
- Eu a conheço, srta. Bennet - disse ele, sorrindo.
- Mas eu podia estar levando uma bomba em minha bolsa – ela brincou, e
ele riu, olhando ao redor.
- Não consigo imaginá-la explodindo este prédio velho.
- Não mesmo?! - riu também e se encaminhou para o elevador, antes que o
homem pudesse responder.
Parou no quarto andar, esperando encontrar tudo em silêncio como sempre,
mas, ao dar dois passos na direção de sua sala, ficou espantada. O que
estaria acontecendo na sala de conferências? Havia alguém gritando. Era
difícil acreditar no que acabara de ouvir; uma das normas do banco era
que as vozes nunca se elevassem: "Se você vai à falência, faça isso em
silêncio".
Ficou parada ao lado da grande porta da sala de conferências, tentando
escutar, só que não precisou se esforçar muito para ouvir o estrondo que
o punho de alguém produziu ao bater sobre a mesa, no lado de dentro.
- Agora ouçam bem. Isto não vai ficar assim! vou apagar esses sorrisos
dos rostos de vocês!
A porta abriu-se de repente, sem que Elizabeth tivesse tempo de se
afastar, e um homem saiu tão depressa que quase a derrubou. Ao passar
encarou-a furioso com seus gélidos olhos azuis, e então gritou por cima
do ombro para o bando de executivos que o seguia com pressa, tentando
alcançá-lo.
- Até os móveis daqui tentam enganar as pessoas!
E saiu precipitadamente, com vários homens de ternos cinzentos correndo
atrás dele como se fossem carneiros. Elizabeth não os conhecia, e ficou
olhando, espantada. Móveis? Quem, afinal, seria ele?
Virou então para a sala da qual o homem tinha acabado de sair e viu os
diretores ainda sentados em volta da mesa, num silêncio cheio de
perplexidade.
Elizabeth só vira o homem de relance, mas ficara impressionada com sua
altura e força e, por isso, também não se surpreendera ao ver a expressão
de alarme nos rostos dos homens com os quais ele acabara de gritar.
- Onde esteve, Elizabeth? - uma voz perguntou, fazendo-a virar-se, ainda
perplexa.
Ela sorriu sem jeito para o seu chefe.
- Desculpe, sei que estou atrasada, mas o almoço demorou e eu não pude
vir antes.
- Conseguiu alguma coisa? - perguntou Collins, acompanhando-a até sua
sala.
- Não. Mas o espaguete estava delicioso, e serviram também um vinho muito
bom.
Lizzy estivera almoçando com um corretor de maneiras impecáveis, mas
decididamente uma pessoa chata. Collins riu, um tanto surpreso.
- Às vezes não sei do que você está falando.
- Não se preocupe, eu também me pergunto a mesma coisa. Collins, quem era
aquele homem que saiu com tanta pressa da sala de conferências? Não é que
eu esteja assustada; mas acho que ele estava gritando demais. A Bolsa de
Valores não entrou em colapso de novo, entrou?
- Era William Darcy. Propusemos a ele dirigir uma de suas companhias, e
ele não ficou muito satisfeito com isso. Foi tolice dele ficar tão
zangado. Não há nada que possa fazer a respeito agora. Nós tivemos
sucesso, e ele poderia muito bem aceitar isso como um cavalheiro.
- Ele não me deu a impressão de ser um cavalheiro - Lizzy disse
pensativamente, lembrando-se daqueles olhos de um azul profundo e cheios
de cólera. - Na verdade, parecia estar furioso como o diabo.
- Elizabeth, por favor. . . o presidente ficará desconcertado se ouvir
uma mulher falar desse jeito. - Collins abriu a porta da sala dela e
Lizzy entrou, sorrindo. - Nós mal acabamos de convencê-lo de que as
mulheres podem fazer mais do que apenas digitar uma carta ou arquiva-la!
Lembre-se de como ele é velho. ..
- Eu me lembro disso todos os dias - disse ela, tirando o casaco. Sentou
em sua cadeira, olhando para Collins. – William Darcy. . . deve ser da
Darcy Corporation.
-Da Darcy Corporation International - corrigiu Collins, que sempre fazia
questão de ser preciso.
Trabalhavam juntos há seis anos, e não havia muita coisa que ela
ignorasse a respeito dele. Mas, ao observá-lo, achou que talvez estivesse
enganada; Collins poderia estar lhe escondendo alguma coisa. Afinal, quem
sabia dos segredos que ele tinha? Talvez cultivasse begônias em seu
apartamento de Nova York, ou tivesse uma paixão por tortas de cerejas, ou
então gostasse de olhar passarinhos nas manhãs de domingo antes que a
cidade despertasse.
Sempre que encontrava uma pessoa aparentemente simples e insípida, Lizzy
costumava se divertir inventando apelidos ou estranhos gostos secretos e
ambientes sinistros para elas.
Collins continuou falando:
- O pai dele era o cérebro da empresa; William Darcy, o filho, assumiu a
direção de um negócio próspero.
- Se não me engano, eles não deixaram de prosperar desde então-Elizabeth
interveio, em tom irônico, e ele riu.
- De fato! E já que você nunca se esquece do preço de uma ação, não
adianta fingir que não se lembra do preço das dele. William Darcy é um
sujeito muito esperto.
- Foi essa a impressão que tive. Espero que não tenhamos dado um passo
maior do que as nossas pernas - disse Elizabeth.
- Darcy não me pareceu ser um homem capaz de entregar qualquer coisa sua
sem lutar.
Collins ficou preocupado, e em menos de vinte e quatro horas os membros
da diretoria também, ao se darem conta de que tinham cometido um engano,
William Darcy os havia derrotado e retomado o controle de sua companhia,
acrescentando mais uma lenda às que já existiam sobre seu nome.
Elizabeth adicionou mais um nome em seu arquivo mental de pessoas dignas
de menção. William Darcy era uma figura quase mística no mundo da Bolsa
de Valores de Wall Street. Com apenas trinta e poucos anos, nunca perdera
uma batalha numa sala de reuniões. Seu pai fora um gigante no mundo das
finanças internacionais; em pouco tempo conseguira um vasto império com
empresas diferentes em vários países. Quando ele morreu, ninguém esperava
que seu filho fosse capaz de controlar a corporação, mas pouco tempo
depois todos tiveram que admitir que estavam enganados. Mesmo tendo que
lutar pelo poder, contra os homens ambiciosos e inflexíveis que o
rodeavam, William Darcy saíra vencedor, e assumira firmemente o controle
da empresa desde então.
- Você foi muito astuta ao prever que Darcy nos derrotaria - disse
Collins, com admiração, uma semana depois. Pensei que tivéssemos amarrado
Darcy pelos pés.
Eles estavam em um restaurante famoso, esperando um cliente de HongKong,
que sugerira que almoçassem no lá. Bebericavam martínis secos, observando
os fregueses que passavam. Elizabeth sorriu e respondeu:
- Ele não me pareceu um homem que se deixasse prender assim tão
facilmente. .. Este martíni está forte demais: se tomar mais um destes,
vou acabar flutuando." Collins riu.
De repente Elizabeth ficou pálida ao ver William Darcy aproximar-se
deles, seguido pelo maitre e acompanhado por uma mulher esplêndida. Ela
era muito bonita, e usava um casaco de marca, que lhe caía muito bem.
Parecia orgulhosa de estar com um homem atraente como William Darcy.
- Não, não. Eu vou ficar com o meu casaco. . . estou com frio - disse a
moça ao garçom que, para ser gentil, quis levar seu casaco de pele à
chapelaria.
- O faisão está muito bom hoje, Sr. Darcy: exatamente do jeito que o
senhor gosta - sugeriu o maitre.
Lizzy observava tudo em silêncio, quando Darcy parou diante dela e de
Collins, que, na pressa de se levantar, quase derramou uma bebida.
- Não se levantem; não quero incomodá-los - disse Darcy, mas Collins já
parecia estar pouco à vontade, pois sentou-se de novo, segurando seu copo
e exibindo um sorriso tenso.
- Como vão os meus amigos do Austen Bank?
- Oh, muito bem, obrigado, Sr. Darcy - balbuciou Collins, sem jeito.
- Ótimo! Eu sempre me lembro de meus amigos. - "E nunca me esqueço de
meus inimigos", seus olhos azuis pareceram acrescentar, enquanto olhava
para Lizzy, que até então permanecera estática, apenas observando o
casal.
Obviamente Elizabeth não podia competir com a amiguinha dele; não tinha
um casaco de peles, e seu vestido cor-de-creme era muito simples e
prático. Mas ela estava lá a serviço e não para enfeitar o ambiente.
O olhar de William Darcy percorreu-lhe todo o corpo, e ela o encarou com
firmeza. Collins, sem saber o que fazer, iniciou as apresentações:
- Sr.Darcy, esta é...- Mas não conseguiu terminar a frase. William Darcy
acenou com a cabeça e se afastou.
Collins, nervoso, tomou um gole de seu martíni.
- Foi terrível. . . Não soube o que falar. É um homem imprevisível.
- Espero que o faisão esteja péssimo! - resmungou Elizabeth.
- Faisão? Do que está falando? - perguntou Collins, estupefato.
- Sorria, lá vem nosso cliente - falou ela, baixinho, sem dar-lhe
explicações, ao reconhecer o homem que estava descendo a escada.
Almoçaram meia hora depois no requintado salão revestido de lambris de
carvalho. Havia poucas mulheres ali e Elizabeth reconheceu a risada suave
da moça que estava com Darcy. Juraria até que sentia seu perfume, embora
eles estivessem a uma boa distância de sua mesa.
Collins falava com o cliente, só incluindo Lizzy na conversa quando o
assunto tratava particularmente do mercado internacional. Assim, durante
alguns minutos, ela pôde observar William e sua acompanhante, ficando até
curiosa em saber o que estavam conversando. Achou que não era sobre o
mercado de capitais; a ruiva dava a impressão de não saber diferenciar um
título de um urso. Viu William encostar a sua taça de champanhe na da
moça que, tirando uma rosa vermelha do vaso que havia no meio da mesa,
beijou-a e a levou aos lábios dele.
"Oh, mas que gracinha", Elizabeth pensou. "Se é assim na hora do almoço,
imagine só como será na hora do jantar! Aposto que ele não vai voltar
depois para o escritório; é mais provável que passe a tarde resolvendo
esse negócio particular."
Quando Elizabeth e Collins saíram, uma hora depois, ela ouviu algumas
mulheres falando no toillet:
- Viu só quem estava aqui hoje? William Darcy.. . Ele é encantador!
- E tão bonito! - a amiga concordou.
- Com licença - disse Elizabeth, friamente.
Não achava William Darcy encantador. Ele lhe dera as costas e se afastara
quando Collins estava prestes a apresentá-los, e esse não fora um gesto
encantador. Sendo um homem muito rico, parecia achar que não tinha
nenhuma necessidade de ser polido, ainda mais com ela, que não era muito
bonita e nem sofisticada. Ele provavelmente avaliara as suas roupas
naquele olhar que lhe dera. Dizia-se que estava acostumado a comprar
trajes de alta-costura para as suas amantes.
Elizabeth não podia negar que Darcy era mesmo muito atraente, e sua
acompanhante parecia embevecida. Mas ela mesma não gostava dele, tinha
certeza disso.
Elizabeth passou o resto da tarde no banco, com Collins, estudando os
movimentos mais recentes do intercâmbio com Hong-Kong. Quando voltou para
o seu apartamento naquela noite, já tinha esquecido “William arrogante
Darcy” e suas maneiras descortezes.














